COMO UMA CIGARRA DA NOITE


Quando falamos de cigarra, talvez associemos imediatamente às, agora saudosas, longas e quentes noites de Verão; ou, então, pensemos na não muito distante afirmação polémica, inspirada na célebre fábula de La Fontaine, de que Portugal é "um país com muitas cigarras e poucas formigas".
Porém, nem só de ociosidade se faz a vida de uma cigarra. Aliás, chegou mesmo a ser, para S. Francisco de Assis, exemplo de um frade contemplativo e devoto, na medida em que passava grande parte da noite a cantar os louvores de Deus. A comparação é tomada de S. Jerónimo, que usa a expressão «esto cicada noctium» (Epist. 22, Ad Eustochium: PL 22, 405). S. Boaventura conta até como uma cigarra incentivou S. Francisco e os seus companheiros a louvar a Deus durante oito dias:
«Em Santa Maria da Porciúncula, uma cigarra foi instalar-se numa figueira mesmo junto da cela do homem de Deus. O seu canto levava-o muitas vezes a louvar a Deus, pois aprendera a admirar a magnificência do Criador, masmo nas coisas mais pequeninas. Um dia, chamou por ela. E a cigarra, como guiada do alto, veio poisar-lhe na mão. Disse-lhe ele: «Canta, irmã cigarra! Com a tua música estridente louva o Senhor que te criou!» Ela obedeceu e pôs-se a ziziar na mão do Santo, e só parou quando ele lhe deu ordens para regressar à sua árvore. Aí ficou durante uma semana, vindo todos os dias dar o seu concerto e voltando em seguida ao seu poiso, conforme ele lhe mandava. Por fim, disse ele aos companheiros: «Vamos fazer as despedidas à nossa irmã cigarra, que tanto nos deleitou com os seus descantes e durante oito dias nos incentivou nos louvores de Deus».  Recebendo a permissão de ir embora, foi-se e não voltou mais àquele lugar, como se não quisesse transgredir a ordem recebida». (S. Boaventura, Legenda Maior, VIII, 9).
Na verdade, trata-se de uma imagem bem adequada daquilo que deve ser um padre em «peregrinação nos desertos do mundo contemporâneo» (Bento XVI, na homilia de abertura do Ano da Fé), onde «são necessárias sobretudo pessoas de fé que, com a sua própria vida, indiquem o caminho para a Terra prometida e mantenham viva a esperança» (idem).
Ao celebrar um ano de sacerdócio, também eu quero cantar os louvores de Deus, confiado de que «por amor de Sião não me calarei, por amor de Jerusalém não terei repouso, enquanto a sua justiça não despontar como a aurora e a sua salvação como facho ardente» (Is 62, 1).  

Pe. João Pedro Silva