O EVANGELHO
NOS TEMPOS DO FACEBOOK
Facebook, a rede
social mais popular do mundo, está equipada com vários instrumentos para a
manutenção e o enriquecimento de um status amigável recíproco, como se sabe.
Porém, geralmente não nos perguntamos porque as dinâmicas de relacionamento se
baseiam exclusivamente em feedbackspositivos (polegares levantados,
partilhas) e, ao contrário, não prevêem opções de desaprovação instantânea.
Será possível que os criadores da network se tenham deixado
inspirar pelo mais tradicional, mas na realidade actualíssimo, princípio que
consiste em "nunca faças aos outros aquilo que não gostarias que te
fizessem a ti"?
É possível que
as nossas "amizades" sejam consideradas tão frágeis a ponto de
sucumbir perante a mera interceptação de um feedback negativo?
Porque, por exemplo, recebemos a "notificação" somente quando alguém
recebe a nossa ou de outro alguém, mas não quando uma amizade é inesperadamente
interrompida?
O sistema
concebido desta forma tem realmente as suas boas razões para existir. Razões
que se inspiram no consentimento mútuo, a fim de incutir optimismo no uso do
instrumento e, por conseguinte, de exercer uma influência cada vez maior e mais
positiva sobre todos nós; em síntese, para aumentar o próprio poder económico.
Com efeito, o que aconteceria à rede social se de repente todos os
participantes começassem a ser notificados publicamente sobre a perda de
amigos? Perda, obviamente, decretada de forma unilateral. Com efeito, para estabelecer
amizade é necessário ser em dois, para se deixar, ao contrário, a vontade do
indivíduo é suficiente. É provável, considerado o uso compulsivo desta
plataforma, pois de outro modo surgiria uma confusão colectiva, alimentada por
invejas recíprocas, conflitos insolúveis, pequenas rivalidades ocultadas
prontas a explodir com uma série de vinganças em cadeia: reacções de ódio
manifesto, pedidos de esclarecimento recíproco da parte de amigos em comum,
desforras de inimizade em relação a quem subtraiu a amizade ao amigo em comum,
e assim por diante.
Felizmente
trata-se de violências simbólicas, todavia com consequências reais
possivelmente evidentes a curto prazo, considerando que todos, mais cedo ou
mais tarde, nos destacamos do virtual e nos encontramos no real. Mas talvez,
num incontrolável turbilhão vicioso de desprezos recíprocos - sintetizados por
minúsculos (mas potencialmente deveras essenciais) thumbs down(sinal
de desaprovação) - se poderia até chegar a abandonar em massa os próprios
altares virtuais. Não como forma de protesta em relação às opções de desafeição
recíproca acima só imaginadas mas, talvez, precisamente por causa da
insustentabilidade psicológica do meio de comunicação.
De facto, ele
tornar-se-ia realmente o lugar onde desafogar colectivamente os rancores e
ressentimentos que todas as amizades, mesmo se a longo prazo, e talvez com mais
razão se a longo prazo, inevitavelmente acarretam.
Resumindo, os
programadores do Facebook - um sistema que interconecta centenas de milhões de
pessoas no mundo inteiro - bem instruídos pelos administradores e pensadores
que criaram e "educaram" este sistema, consideraram oportuno inspirar
o coração da sua máquina "amistosa" na mais antiga receita para uma
economia sadia: efundir quanto mais possível o optimismo.
Será uma
casualidade, mas tudo isto corresponde também ao mais antigo princípio de amor
ao próximo que a humanidade conheceu. "O que quiserdes que vos façam os
homens, fazei-o também vós a eles, porque isto é a Lei e os Profetas"
disse Jesus no sermão da montanha (Mt7, 12). E quem está por detrás do
Facebook, para tornar ainda mais eficaz o ensinamento evangélico, pensou bem em
não nos fornecer nem sequer instrumentos para se deixar tentar. Quer dizer:
longa amizade a todos!
Cristian Martini Grimaldi (L'Osservatore Romano - 21 de janeiro de 2012)
Cristian Martini Grimaldi (L'Osservatore Romano - 21 de janeiro de 2012)
