AMORES DE CARNE E OSSO

Somos pessoas de carne e osso. As nossas paixões, desejos, sentimentos, pulsões, os nossos medos e curiosidades são expressão da nossa dimensão corporal. Na sua força e impulsividade todos estes aspectos da afectividade humana lembram-nos a enorme vontade que temos de abraçar o mundo e de ser abraçados, de amar e ser amados. Apesar de tudo, continua a ser difícil uma conversa serena sobre o modo como vivemos a nossa afectividade e a nossa sexualidade. A conversa torna-se ainda mais complicada quando falamos sobre a adolescência, ficando a sensação de que as mensagens se extremam entre o vale tudo e o não vale nada. De formas diferentes estas mensagens acabam por deixar quem as recebe mais sozinho e, em alguns casos, mais assustado. O primeiro passo que podemos dar para fugir ao ruído é tentar entender um pouco melhor o significado da adolescência. Depois talvez possamos entender porque são tão enganadoras as soluções do tudo ou nada.
Compreender a adolescência é como acompanhar a viagem de alguém que se move no interior de uma casa, simultaneamente fascinado e "assustado" com os segredos que vai descobrindo. Deambulando entre o quarto, a sala de jantar, e o mundo exterior (a escola, as saídas à noite, os concertos) vai experimentando sentimentos intensos e novos. Esta densidade de sentimentos transforma esta aventura num momento repleto de tensões. Momento em que a vida convida a ir assumindo a própria autonomia, a ir compreendendo que somos diferentes dos nossos pais, mas que também somos diferentes dos nossos amigos. No meio de todas estas relações, vamos construindo a nossa identidade como pessoas e vamos procurando que a nossa história seja única. Para que a passagem entre o interior da casa e o mundo cada vez mais exterior se faça em segurança é muito importante ter gravada no coração a experiência de ser amado desde o primeiro momento, a experiência de se ser acolhido e acompanhado no que se deseja ser. Esta experiência é alicerce de uma destemida e confiante abertura ao mundo.
Faz o que sentes. Este parece ser o slogan preferido dos que pensam que a melhor maneira de ajudar a um crescimento afectivo passa por dizer «não deixes que te reprimam, és livre». Não haverá aqui uma certa ingenuidade? Antes de agarrar estas mensagens e transformá-las em bandeiras, talvez fosse bom aprender a olhar para dentro. Aprender a reconhecer os laços de amor que nos sustentam, aprender a reconhecer as nossas carências e perceber onde estão as feridas da nossa história afectiva. Não se trata de um exercício moralista. O modo como fomos amados, o modo como aprendemos a amar condiciona o modo como nos relacionamos com os outros. Será tão retrógrado suspeitar que parte dos comportamentos afectivos e sexuais que acompanham o crescimento podem estar ligados a uma carência afectiva? Os sinais estão aí: modelos de amores instantâneos, manifestações de violência física e psicológica em alguns namoros, ciúmes exacerbados, gestos possessivos que não respeitam o outro.
Por outro lado, não adianta pensar que o mundo e a forma de exprimir a afectividade não mudaram. Tentar resolver tudo com avisos e sinais de perigo é igualmente enganador. A complexidade da nossa intimidade e do modo como nos relacionamos com os outros não se resolve com uma paleta de ensinamentos a preto e branco, em que só exista o sim e o não. O mais importante não é dar respostas definitivas do que se pode ou não pode fazer. O mais importante é ajudar a descobrir que o modo como vivemos a nossa afectividade, como expressamos a nossa sexualidade está ligado àquilo que queremos ser como pessoas, está ligado ao projecto de vida de cada um. O mais importante é, como diz Constança Machado, "aprender a olhar o corpo do outro, não como objecto, reduzido à sua função sexual, de dar prazer ou de procriar, mas como rosto, como presença a acolher. Aprender a tocar e a ser tocado por dentro."
Somos pessoas de carne e osso. Não precisamos de ser anjos desencarnados para aprender a amar. Podemos abraçar e tocar sem medo. O grande desafio é aprender a olhar para dentro, a cuidar da nossa intimidade e a reconhecer os nossos desejos e as nossas sedes, para que no encontro com o outro os nossos abraços libertem sem prender.

Zé Maria Brito, sj (Essejota)