EDUCAR PARA O INVISÍVEL
A escola nunca devia ser inclusiva! Incluir não é
integrar. Incluir é, muitas vezes, amalgamar o que nos distingue numa ideia -
totalitária - de pessoas normais. Integrar é acarinhar as diferenças: só as
escolas plurais são… universidades. E só quando casam aprender e brincar são…
jardins-de-infância.
1. As crianças transformam-se de dentro para fora
da família, e o mundo «pula e avança» de dentro da escola para fora dela. Mas
só quando a família e a escola se emparelham nos mesmos objectivos, as
revoluções acontecem. Infelizmente, quase nunca escola e família esperam o
mesmo das crianças (e, talvez por isso, as coloquem no meio de birras
rezingonas, mais ou menos sem fim). As famílias desejam que as crianças se
tornem pessoas sempre melhores. A escola aspira a que tenham mais conhecimentos
(e, sobretudo, que os dominem com precocidade e eficácia). Mas quando passa,
simplesmente, pela periferia do coração, o conhecimento pode transformar-se no
maior inimigo da sabedoria.
Dominar o conhecimento é tudo aquilo que quem não tolera o invisível mais procura. Ora, a luz (a dos olhos de quem nos põe «aberturas fáceis» no coração, como aquela que, de surpresa, nos coloca planaltos no olhar), não é um jeito de afrontar o escuro, mas a forma (amena) de não o tornar persecutório. Sendo assim, gostava muito que um dia, num mundo amigo da sabedoria a escola educasse para o invisível e desse a entender que nos transcendemos sempre um pouco mais quando quem nos ensina só deseja que aprendamos a namorar os motivos que o tenham levado a apaixonar-se por tudo o que aprendeu.
Dominar o conhecimento é tudo aquilo que quem não tolera o invisível mais procura. Ora, a luz (a dos olhos de quem nos põe «aberturas fáceis» no coração, como aquela que, de surpresa, nos coloca planaltos no olhar), não é um jeito de afrontar o escuro, mas a forma (amena) de não o tornar persecutório. Sendo assim, gostava muito que um dia, num mundo amigo da sabedoria a escola educasse para o invisível e desse a entender que nos transcendemos sempre um pouco mais quando quem nos ensina só deseja que aprendamos a namorar os motivos que o tenham levado a apaixonar-se por tudo o que aprendeu.
2. Aprender será, sempre, reconhecer. Reconhecer no
sentido de reaprender as pequenas diferenças que nunca se tinham vislumbrado em
tudo o que sabemos (tornando cada conhecimento mais simples, mais útil e mais
humano). E reconhecer como sinónimo de gratidão para com aqueles que tenham
percebido que a tarefa preponderante de um educador não é fornecer
conhecimentos mas não deixar que se apague o nosso desejo de aprender.
Infelizmente, a escola recebe pessoas com magia e
não descansa enquanto não as transforma em crianças normais. Pessoas com magia
são, por exemplo, os que «andam nas nuvens», as «cabeças de vento», ou as
«línguas de perguntador». Ligam família e escola, imaginação e fantasia, amor
ao conhecimento com paixão pelo desconhecido. Já as crianças normais aprendem
pela periferia do coração. Dominam os conhecimentos (com que fazem frente ao
invisível) e privilegiam os resultados ao caminho que se tenha calcorreado até
os conquistar. (É por isso – suponho eu – que os maus alunos tiram,
imperativamente, boas notas e os bons aprendem com os erros).
Será a escola inclusiva para todos? Não! Como não o
é para os que «andam nas nuvens», os «cabeças de vento», ou para as «línguas de
perguntador». Nem para os pais. Menos, ainda, para os recreios. Aliás, a escola
nunca devia ser inclusiva! Incluir não é integrar. Incluir é, muitas vezes,
amalgamar o que nos distingue numa ideia – totalitária – de pessoas normais.
Integrar é acarinhar as diferenças: só as escolas plurais são… universidades. E
só quando casam aprender e brincar são… jardins-de-infância. Na verdade, uma
escola amiga da sabedoria será, ao mesmo tempo, universidade e
jardim-de-infância.
3. Sempre que, entre duas pessoas, se pressente
magia nasce uma escola. Logo que não entendam o invisível fecham-se para a
sabedoria. Daí que o insucesso escolar aclare a dificuldade de família e escola
aprenderem, sobre o invisível, uma com a outra. Se o insucesso escolar
representa o desamparo com que uma criança vê a família não se assumir como
provedora da escola, o abandono escolar diz-nos quanto a escola pode ir do
desamparo ao descuido. É por isso que acredito que, quando uma criança abandona
a escola, já foi, inúmeras vezes, abandonada por ela. Sendo assim, sempre que
uma criança a abandona, a escola não será, seguramente, amiga da sabedoria e,
por isso (no formato que adopta e nas rotinas que alimenta) devia fechar.
Afinal, logo que todos os alunos puderem ter
necessidades educativas especiais, sempre que a magia for amiga da sabedoria, e
os professores forem, unicamente, aqueles para quem a luz não é um jeito de
afrontar o escuro, todas as escolas serão universidade e jardim-de-infância. E
só aí o primeiro dia de escola será, ao mesmo tempo, um regresso a casa.
Eduardo Sá, Pais&filhos
