EXPECTATIVAS, PRECONCEITOS, E JUÍZOS


Talvez dar à luz seja um dos momentos em que mais expectativas (positivas ou negativas) se degladeiem numa mãe: por um lado, o desejo de se saber o que é (menino ou menina) e como é (o seu olhar, a sua voz, o seu temperamento); por outro, o receio de que o bébé nasça prematuro, com problemas de saúde, de não reconhecer os sinais de parto; ou, ao invés, a confiança no atendimento dos profissionais de saúde, a certeza de um marido carinhoso, a ânsia de abraçar o bébé. Na verdade, dar à luz é diferente do parir de um qualquer animal. No dar à luz joga-se a liberdade, a determinação, e a responsabilidade. Será que os bébés, ainda antes de nascerem, também têm expectativas em relação à mãe?

Regra geral, as expectativas costumam ser acompanhadas por determinados preconceitos: o que ouvimos dizer; o que pensámos; o que parece termos visto. Aqui falta-nos tantas vezes, como alguém dizia, uma “visão de helicóptero”, isto é, uma visão que nos permita observar o que se passa de todos os ângulos, de forma a podermos avaliar globalmente a situação; ou a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, tentando entender os seus critérios e as suas motivações. Falta-nos sobretudo a enorme capacidade de não rotularmos à primeira vista, ou ainda antes de chegarmos a ver.

Bem sabemos como é fácil conceber antes de ver, como é fácil um preconceito se consubstanciar arriscadamente num juízo. Com efeito, atitudes como estas traduzem-se habitualmente em prejuízos para alguém, nem que seja para nós próprios. Até pode acontecer que as nossas melhores expectativas saiam mesmo frustradas, que os nossos preconceitos se verifiquem, ou que os nossos juízos  se corroborem, mas não será melhor deixar a criança primeiro nascer?

A Quaresma, como tempo propício para renascer, pode ser ocasião para deixar nascer o que em nós se mitigou pelo medo, mas percebemos como verdadeiro; para deixar nascer o que nos outros se ofuscou pelo (nosso) preconceito, e carece de vir à luz; para deixar nascer o que Deus semeou, com o Seu sangue derramado da cruz. Assim, decerto teremos uma Santa Páscoa!

P.e João Pedro Silva