A DIFERENÇA ENTRE
SER
EXTRAORDINÁRIO E SER COMUM
É interessante que, em muitas terras, a igreja,
talvez por estar em local ermo, tenha funcionado ordinariamente como pólo congregador
da comunidade orante, e por vezes como pólo congregador de variados tipos de noctívagos
(que, ontem como hoje, fazem dela um palco para a prática, por exemplo, de
namoros proibidos, do saborear de umas garrafas com os amigos, ou até da venda
do corpo ou da droga). Os primeiros, entram pela porta e situam-se dentro da
igreja; os segundos, decidem-se por ficar “atrás da igreja” e, entrar nela, só
forçadamente…
A vida, tal como as igrejas, é visitada por pessoas
comuns, mas também por pessoas extra-ordinárias. No bom sentido do termo “extraordinário”,
existem pessoas que se destacam no meio das comuns formas de viver, pela forma como
encaram o seu tempo (como se quisessem fazer o que nunca ninguém teria conseguido
fazer se não estivesse nessa época).
Neste âmbito, o que distingue ser extraordinário de
ser comum é, por exemplo, a diferença própria entre: assumir que já não se
acredita e fazer caminho, ou fingir que se continua a acreditar; decidir o que
somos, ou terminar o dia com a consciência de que uma coisa é o que fazemos e outra
o que somos; dar o exemplo, ou discursar sobre o assunto; ser guia, ou fazer
proselitismo (próprio de quem tem “complexo de claque”: o ego alimenta-se com o
número de admiradores que se têm cativos); precisar de pouco para viver feliz,
ou converter a vida (particularmente a profissão, quando não é a que se sonhou,
mas a que se nos impôs) numa ocasião de fazer dinheiro; gerar, ou servir-se
apenas do que outros geraram; construir a cultura do compromisso, fundada em ideais
maiores, ou sujeitar-se à cultura do consenso, fundada em ideais pessoais; corresponder
às expectativas, ou resignar-se a esboçar o gesto e a enganar a assistência.
Talvez a diferença se prenda apenas com o grau de
acomodamento a que cada um se sujeitou. Na verdade, frequentemente coexiste
algo de extraordinário e algo de comum em cada um de nós!
P.e João Pedro Silva
