O cristianismo traz sempre consigo o entusiasmo do caminho.
Por isso, longe do cristão ficar de braços cruzados, à espera que as realidades
aconteçam; longe do cristão o olhar para trás, na nostalgia de tempos passados,
idealizados porque deles esquecemos os sofrimentos e dificuldades; longe do
cristão o pessimismo de quem pensa que apenas o ser humano tem a capacidade de
fazer mover o mundo; mas, igualmente, longe do cristão a ingenuidade de julgar
que a novidade vale por si mesma.
E, no entanto, sempre que damos espaço a Deus no
coração de cada um e no das nossas comunidades, surge algo de novo e
surpreendente. É raro que, na Igreja, o que foi pensado e programado se realize
tal como foi sonhado pelos homens: Deus é sempre surpreendente, e traz sempre
consigo a novidade que nunca imaginámos, as forças que nunca julgámos ter. Deus
ultrapassa-nos sempre, convida-nos a ir mais longe.
À primeira vista, o início de mais um ano pastoral
pouco trará de novo: colocam-se na gaveta os horários de Verão e das férias,
retomam-se aqueles do tempo de trabalho; regressam as crianças da catequese, os
jovens e os adultos, as reuniões, os encontros de oração e partilha espiritual,
as atividades dos Centros Sociais e da Caridade que nunca estiveram parados
durante as férias, mas cujo ritmo foi reduzido.
E, no entanto, cada ano que recomeça convida não só
à realização do que foi planeado e sonhado nos programas pastorais elaborados
em Maio e Junho como - sobretudo - à tomada de consciência de que cada cristão
e cada comunidade cristã só o é verdadeiramente quando dá espaço a Deus em cada
momento da sua existência.
No final do ano, naquilo que hão-de ser as
"avaliações" que por essas alturas faremos, não havemos de olhar para
este ano que agora começa e procurar se tudo aquilo a que nos propusemos foi ou
não realizado com eficácia (isso fazem as empresas e as organizações humanas),
mas se o Espírito de Deus encontrou ou não a possibilidade de nos surpreender e
de realizar em nós a novidade que apenas Deus e a nossa conversão a Ele trazem
consigo.
D. Nuno Brás, Voz da Verdade, 08.09.2013
