DEUS TRINDADE, UNIDADE DOS HOMENS
A Comissão Teológica Internacional divulgou um documento intitulado “Deus Trindade, unidade dos homens – o monoteísmo cristão contra a violência”.
Fruto de um estudo levado a cabo nos últimos cinco anos sobre diversos aspetos do discurso cristão acerca de Deus, o documento debruça-se de modo particular sobre as teorias, segundo as quais existe uma relação necessária entre o monoteísmo e a violência, de modo particular as guerras de religião, exigindo assim um esclarecimento teológico específico.
A discussão em torno desta suposta relação entre monoteísmo e violência – lê-se na parte introdutória do documento – “revelou numerosos motivos de incompreensão da doutrina religiosa, a ponto de obscurecer o autêntico pensamento cristão do único Deus”.
Articulado em cinco capítulos, distribuídos por uma centena de páginas o documento, elaborado por uma subcomissão, foi debatido durante as sessões plenárias da Comissão entre 2009 e 2013. Foi aprovado pela mesma Comissão a 6 de Dezembro passado e seguidamente por D. Gherard Muller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé que é também Presidente da Comissão Teológica Internacional. Foi ele que autorizou a publicação.
Os cinco capítulos abordam cada um os seguintes temas: 1. Suspeitas acerca do monoteísmo; 2. A iniciativa de Deus no caminho de homens; 3. Deus para nos livrar da violência; 4. Fé perante a amplitude da razão; 5. Os filhos de Deus dispersos e reunidos.
Na apresentação do documento diz-se o seguinte:
O texto de reflexão teológica que apresentamos destina-se a evidenciar alguns aspectos do discurso cristão sobre Deus que, no contexto actual, exigem um esclarecimento teológico específico. A ocasião imediata deste esclarecimento é a teoria, exposta com argumentos de índole diversa, segundo a qual existe uma relação necessária entre o monoteísmo e as guerras de religião. A discussão em torno deste liame revelou numerosos motivos de incompreensão da doutrina religiosa, a ponto de obscurecer o autêntico pensamento cristão do único Deus.
Poderíamos resumir o fito do nosso discurso numa dupla pergunta: (a) Como é que a teologia católica se pode confrontar criticamente com a opinião cultural e política que estabelece uma relação intrínseca entre monoteísmo e violência? (b) Como é que a pureza religiosa da fé no único Deus se pode reconhecer como princípio e fonte do amor entre os homens?
A nossa reflexão pretende apresentar-se em chave de testemunho argumentado, e não de contraposição apologética. A fé cristã vê e reconhece, de facto, na excitação à violência em nome de Deus a máxima corrupção da religião. O cristianismo desemboca nesta convicção a partir da revelação da própria intimidade de Deus, que nos chega através de Jesus Cristo. A Igreja dos crentes é consciente do facto de que o testemunho dessa fé exige ser honrado por uma atitude de conversão permanente: que implica igualmente a "parresía" (ou seja, a franqueza corajosa) da necessária autocrítica.
No Capítulo I, propusemo-nos clarificar o tema do "monoteísmo" religioso na acepção que recebe e adquire em certas orientações da hodierna filosofia política. Estamos conscientes de que tal evolução exibe, hoje, um espectro muito diferenciado de posições teóricas, que vão desde o fundo clássico do ateísmo dito humanista às formas mais recentes do agnosticismo religioso e do laicismo político. A nossa reflexão visaria, antes de mais, sublinhar que a noção de monoteísmo, não destituída de significado para a história da nossa cultura, permanece ainda demasiado genérica, quando se utiliza como cifra de equivalência das religiões históricas que professam a unicidade de Deus (identificadas como Judaísmo, Islamismo, Cristianismo). Em segundo lugar, formulamos a nossa reserva crítica em face de uma simplificação cultural que reduz a alternativa à escolha entre um monoteísmo necessariamente violento e um politeísmo supostamente tolerante.
De qualquer forma, nesta reflexão sustém-nos a convicção, que por motivos vários consideramos partilhada por muitíssimos contemporâneos nossos, crentes e não-crentes, de que as guerras interreligiosas, como também a guerra contra a religião, são de todo insensatas.
Em seguida, como teólogos católicos e à luz da verdade de Jesus Cristo, procurámos ilustrar o nexo entre revelação de Deus e humanismo não-violento. Fizemo-lo mediante a reexposição de algumas implicações da doutrina peculiarmente apropriadas para iluminar o debate actual: quer no tocante à autêntica compreensão da confissão trinitária do Deus único, quer no que diz respeito à abertura da revelação cristológica para a recuperação do vínculo entre os homens.
No Capítulo II, indagamos o horizonte da fé bíblica, com especial atenção ao tema das suas "páginas difíceis": aquelas em que a revelação de Deus surge envolvida nas formas da violência entre os homens. Tentamos identificar os pontos de referência que a própria tradição escriturística realça – no seu seio – para a interpretação da Palavra de Deus. Com base neste reconhecimento, oferecemos um primeiro esboço de enquadramento antropológico e cristológico dos desenvolvimentos da interpretação do tema, requeridos pela condição histórica actual.
No Capítulo III, propomos um aprofundamento do evento da morte e da ressurreição de Jesus, na chave da reconciliação entre os homens. A oikonomia é aqui essencial à determinação da theologia. A revelação inscrita no acontecimento de Jesus Cristo, que torna universalmente relevante e apreciável a manifestação do amor de Deus, permite neutralizar a justificação religiosa da violência com base na verdade cristológica e trinitária de Deus.
No Capítulo IV, a nossa reflexão empenha-se na clarificação das aproximações e implicações filosóficas do pensamento de Deus. Abordam-se aqui, antes de mais, os pontos de discussão com o ateísmo actual, largamente presente e concentrado nas teses de um naturalismo antropológico radical. Por fim – também em prol do confronto interreligioso sobre o monoteísmo – propomos uma espécie de meditação filosófico- teológica sobre a integração entre a revelação da íntima disposição relacional de Deus e a concepção tradicional da sua absoluta simplicidade.
No Capítulo V, por último, condensamos os elementos da especificidade cristã que definem o empenho do testemunho eclesial na reconciliação dos homens com Deus e de uns com os outros. A revelação cristã purifica a religião, no próprio momento em que lhe restitui o seu significado fundamental para a experiência humana do sentido. Por isso, no nosso convite à reflexão temos bem presente a necessidade especial – sobretudo no horizonte cultural de hoje – de tratar sempre conjuntamente o conteúdo teológico e o desenvolvimento histórico da revelação cristã de Deus.
Pode ler-se o documento completo aqui
