MENINO DE CACO




Caco. Quebradiço. Quem não traz nas memórias gratas e gaiatas da infância a lembrança de um Menino Jesus de caco? De argila, pobres, de terracota, já melhores, ou porcelana, ainda mais e para menos, a imagem remota de um Menino, quebradiço, quebrado, uma perna partida, um braço tombado, um dedo, dois dedos caídos, por vezes a própria cabeça, sempre loira, já colada pelo pescoço a um peito, onde um coraçãozinho, também frágil, só o invisível coraçãozinho resistia a todos os infortúnios do acaso, do acidente ou da maldade, batendo, batendo, batendo silencioso e eterno como o barro habitado pelo hálito divino narrado pelas páginas originais da história que nos conta a nós mesmos.

Caco. Quem não guarda em algum recôndito lugar do tempo que viveu, infância, uma imagem de um Menino, o Menino Jesus, de caco, de caco quebradiço. E a legenda do Mistério, que a nossa inocência, ainda não estuprada pela “magia” do pai natal, acolhia com a naturalidade com que só os pequeninos acolhem as coisas sublimes: a imagem quebradiça é o Menino-Deus.

De caco, muitas vezes nem inteiro, mas ainda que sim, sempre de quebrar, era a imagem do Menino-Deus. Um menino de caco quebradiço, imagem de nós, era-nos apresentado como a imagem do Menino-Deus.

O Natal no Hospital – não o natal nos hospitais, que esse é carrossel e ilusão da mesma “magia” frustrante do gorducho ancião das barbas brancas, vermelhuscas as faces rechonchudas e as vestes – o Natal no Hospital, dizia, neste lugar maior da revelação da natureza cerâmica da nossa condição humana – somos de quebrar! – empurra o pensamento até aos dias antigos, ainda tão à mão e já tão longe, irrepetíveis, irrecuperáveis, inesquecíveis, quando a imagem do Menino de caco quebradiço não nos mentia nem iludia sobre nós, mesmo enquanto acreditámos que a singela pobreza das prendas que o amanhecer de Vinte e Cinco desvelava era o Menino, o Menino Jesus que as trazia.

No Hospital, o Menino de caco subsiste, subsiste sempre, como se indiferente à entrada gloriosa da História pelos umbrais do “admirável mundo novo”, que no Hospital, precisamente no Hospital, paradoxalmente no Hospital, encontra uma das mais poderosas expressões do seu poder. Mas aqui, aqui o Menino de caco permanece e permanecerá sempre em vigor porque a imagem do Menino-Deus, é a imagem de um menino-Homem e o menino-Homem é de quebrar. E o Hospital é onde os meninos-Homem quebradiços vêm encontrar-se com a translúcida consciência da fragilidade, a consciência de si frágeis, passageiros (adjectivo) passageiros (substantivo) de um cosmos argiloso amassado de pó e lágrimas e luar.

O Homem é sempre menino, mesmo quando se esquece e se faz grande e até calca para crescer e esquecer, ou porque esquece, que é de caco, como as imagens do Menino-Deus da infância dos meninos pobres. Alguns só conheceram o Menino-Deus esculpido em madeira, ou em marfim, ou os modelados e cinzelados e polidos em prata ou emoiro, brilhantes de novos ou com a patine do tempo a dizer da antiguidade do nome… alguns não conheceram em meninos, mas compraram, compraram destes, valiosos, muito valiosos e melhores que os outros, que os dos outros, e querem esquecer que não conheceram, em meninos, imagens valiosas do Menino-Deus…

Mesmo se de marfim ou de oiro, alguns até vestidos, em vez de nus, de linho ou sedas e damascos, as imagens do Menino-Deus-menino-Homem murmuram docemente que somos de caco e que o caco de que somos é caco que nos irmana e que Deus ama.

O Hospital narra o silêncio do caco ao Natal e o Natal do Hospital narra esse silencioso segredo, que os dias que nos percorrem, indignidade – exclusão do trabalho e do pão, muito ricos mais ricos e mais pobres e muito pobres mais pobres e o futuro hipotecado ao presente, renegado o passado –tornam urgente, que só a Dignidade não é de quebrar.

Não importa a matéria de que é feita a imagem do Menino-Deus; importa sim que as suas mãozinhas, mesmo se lhe faltam já dedinhos, desenham bênção no ar que respiramos, no ar que todos respiramos, deque quer que seja o Menino que veneramos.

Somos de caco. Somos de bênção.


Pe. José Nuno Silva (Capelão do Hospital de São João)