PRIMAVERAR
Esquecemo-nos de que as estações se conjugam como
um verbo e que, por isso, a primavera não é apenas um fenómeno exterior, um
substantivo que descreve anualmente a natureza à nossa volta, mas é uma
realidade que posso dizer de mim: «eu primavero», «eu (re) começo a
primaverar».
Por um lado, a primavera faz de nós testemunhas da
revitalização do mundo. Desde o fio de erva à vegetação mais grandiosa, tudo
passa por um incrível processo de rejuvenescimento. A vida parece uma
rebentação, um contágio imparável, um sobressalto. O seu espetáculo
desassombrado enche-nos os olhos. Por outro lado, porém, esse ver não basta Não
somos testemunhas, mas protagonistas. A par das árvores com que nos cruzamos
rua fora ou das flores bravias que pontilham qualquer nesga de chão, somos
chamados a primaverar.
Uma das formas de conjugar a primavera é a
descoberta que cada um de nós vai fazendo, a tempo e fora do tempo, da aliança
entre a existência e o inacabado. Quando, de repente, tínhamos tudo para nos
pensarmos completos, gastos ou acabados, descobrimos que a vida é o aberto. A
verdadeira sabedoria, aquela que nos faz tocar o coração da vida, é a sabedoria
do inicial, do verde tenro, do primaveril, do incessante. Tem toda a razão a
sentença de Lao Tsé: «Quando ingressam na vida,/ os homens são tenros e
fracos;/ quando morrem/ são secos e duros.// Por isso, os duros e fortes/ são
companheiros da morte,/ e os tenros e frágeis/ são companheiros da vida».
O nosso juízo de arrumação e remate (e as
idealizações que projetamos a esse respeito) é enganador, mais não seja porque
a vida é viva, florescente, é uma sucessão infinda de começos. Desde que
nascemos estamos não só prontos para morrer, mas estamos sobretudo preparados
para nascer, as vezes que forem precisas. Primaverar é persistir numa atitude
de hospitalidade em relação à vida. Ao lado do previsto, irrompe o imprevisível
que precisamos aprender a acolher.
Misturado com aquilo que escolhemos, chega-nos o
que não escolhemos e que temos, na mesma, de viver, transformando-o em
oportunidade e desafio para a confiança. A primavera não tem uma linha
demarcada: transborda sempre e temos de preparar-nos para isso. Ela não fica a
alegrar apenas os canteiros muito bem ordenados. A sua floração inédita dá-nos
o endereço da torrente, para lá da vida que pensamos domesticada pelos nossos
cálculos.
Pobres de nós: achamos que conseguimos dominar
completamente o mundo com os nossos cinco sentidos! Precisaríamos na verdade,
de cinco mil para perceber um pequeno quinhão do que somos. Há quanto tempo não
caminhamos assobiando, ou não seguimos com um fio de erva nos lábios, sem mais,
sem pressas nem pretensões, acreditando simplesmente no valor de ser e que, por
isso, nos dão a possibilidade de estar, de vaguear, de medir o momento apenas
com o peso e a leveza da própria marcha?
Quando vamos de um lado para o outro estamos,
normalmente, presos aos motivos que justificam a deslocação. Mas - temos de
reconhecê-lo - uma viagem assim é demasiado curta E não é isso primaverar. Há
uma outra viagem que só começa quando as perguntas sobre o que fazemos ali
deixam de interessar. Estamos, por final. Viemos. Não é o saber ou a utilidade
que a definem, mas o próprio ser, a expressão profunda de si. A sabedoria dos
que primaveram não consiste, assim, num conhecimento prévio, mas em alguma
coisa que se descobre na habitação do próprio caminho.
José Tolentino Mendonça
In Expresso,
22.3.2014