TRABALHAR




Trabalhamos muito. Trabalhamos muitas horas. Trabalhamos horas e horas sem fim. Trabalhamos ao fim-de-semana. Trabalhamos todos os fins-de-semana. Trabalhamos mesmo muito.

Às vezes fico com a impressão de que esta mensagem é aquela que temos de transmitir aos outros, como se fosse o natural e como se fosse condenável e criticável dizer o contrário ou simplesmente não dizer que se trabalha muito.

Quantas e quantas vezes, em conversas com amigos, familiares, conhecidos e até com pessoas com quem trabalhamos, não fazemos esse discurso? Não quer dizer que num dado momento ou numa determinada fase do ano, por contingências várias, a afirmação “Trabalho muito” ou “Tenho trabalhado muito” não corresponda à mais pura verdade. Não quer dizer que seja proferida até mais como um desabafo, como um lamento ou simplesmente como uma constatação.

Nos tempos que correm, sabemos, aliás, como o trabalho, em qualquer área, se tem revelado exigente a todos os níveis e em termos de horários também, sem que, muitas vezes, saliente-se, haja opção. Mas sinto que, por vezes, todos nós caímos na tentação de revestir essa afirmação de um certo orgulho, como se trabalhar horas e horas sem fim, sem horários, sem fins-de-semana, por sistema, e tantas vezes sem um objetivo claro e significativo para a nossa vida, fosse por si só um acto revelador da capacidade ou até da superioridade de quem se dedica assim tanto. Como se essa afirmação preenchesse a nossa vida e lhe desse mais cor, mais vida, mais agitação.

No fundo, numa sociedade em que o Mais parece imperar, trabalhar mais parece ser o que todos devemos fazer, sem hipótese de escolha, o que todos devemos desejar e, principalmente, o que todos devemos proclamar, com satisfação, constantemente, seguindo o ritmo acelerado dos tempos.

Mas será que já nos demos ao trabalho de pensar no trabalho? Será que já equacionamos qual o valor que damos ao trabalho e, se trabalhamos muito, por que razão o fazemos? É claro que estas interrogações não têm de ser permanentes, até porque, felizmente, nem sempre se justificam, mas poderão ser úteis quando sentimos necessidade de pôr as coisas em perspetiva. Nessa altura, devemo-nos lembrar de que o trabalho dignifica. O trabalho honra. E se for bem feito, isto é, se nele investirmos os nossos talentos, se nele colocarmos o melhor que Deus nos deu, frutifica. Por sua vez, o fruto que resulta do nosso empenho e da nossa dedicação é fruto bom. E será tanto ou mais proveitoso se o colocarmos ao serviço dos outros e do bem comum. E para isso não precisamos de gritar a todos que trabalhamos muito, as nossas ações falarão por nós.

Isabel Castro (Essejota, 12.03.2014)