TESTEMUNHO DE CARMELITA
Neste mês de
Outubro celebram-se duas grandes mulheres e mestras de vida e oração, Santa
Teresa de Ávila e Santa Teresinha do Menino Jesus. Apresentamos, assim, um
testemunho de uma irmã carmelita sobre a oração própria desta espiritualidade.
A ligação entre
a família carmelita e a família inaciana existe desde as suas origens. Teresa
de Ávila manifestava um profundo apreço pelos Padres da Companhia de Jesus, em
particular os seus dotes de acompanhamento espiritual. Da parte dos Jesuítas,
uma espiritualidade tão rica como é a da vida contemplativa é também um
estímulo e um desafio a aprofundar a expressão tão própria de santo Inácio, o
ser “contemplativos na acção”.
António
Valério, sj
Temo-vos acompanhado muito de perto, ao longo
destes dias, através da oração, porque sempre que rezamos no segredo do coração
onde mora o Senhor, é aí - no nosso coração - que são acolhidos todos aqueles
por quem rezamos. No Carmelo, rezar, é trazer ao coração e entregar a Deus,
presente no íntimo e no segredo, cada um dos Seus filhos. Deste modo, se anulam
as distâncias, o longe fica extraordinariamente perto, e o coração da Carmelita
torna-se uma grande casa para acolher, com toda a ternura, todos os filhos de
Deus, para os apresentar e confiar a Ele. Esta é a grande forma de presença da
Carmelita no mundo. Na Igreja, há muitas formas de estar presente aos outros.
Esta é uma delas.
A Carmelita fala, não tanto com palavras, nem se
impõe por uma presença física, mas faz-se presente por irradiação, fala com o
silêncio e a oração. A vida da Carmelita, poder-se-ia dizer que grita com o
silêncio, porque o silêncio está cheio de uma Presença que o habita. Se não
estivesse cheio de uma Presença, este silêncio seria mudo e nada teria a
comunicar. Por isso, antes de mais, este é o nosso modo de presença, e de estar
convosco aqui e agora. Por isso, não nos sentimos longe, nem distantes ou
ausentes do mundo, pelo contrário: levamo-vos no nosso coração com o Senhor. Aí
nos encontramos todos, pessoalmente, na grande e bela comunhão de fé que é a
Igreja.
- Qual é a
missão do Carmelo?
Começaria por vos partilhar, muito resumidamente, o
que é a missão do Carmelo. A missão do Carmelo é rezar pelas intenções de toda
a Igreja e de toda a humanidade, e manter vivo e contínuo, na Igreja e no
mundo, o espírito de oração.
Para nós, filhas de Santa Teresa, a oração não é
uma prática piedosa, não é uma devoção que se faz nalgumas horas do dia, mas a
oração é a ocupação essencial e que preenche o dia inteiro.
A oração estende-se ao longo de todo o dia, e como
é isto possível? Como é possível rezar o dia inteiro?
- Testemunho
pessoal
Aqui, poderei partilhar-vos então, um pouco o que é
a minha experiência, como Carmelita, como me pediram. Se entendo a oração como
uma coisa que tenho que fazer, entre outras muitas coisas, se a entendo como
uma prática de piedade como tantas outras, ou pronunciar simplesmente, fórmulas
e jaculatórias, é impossível rezar o dia inteiro; a oração que fui aprendendo
com Santa Teresa, não é isso.
A oração é uma relação; é, como Santa Teresa o
descreve, “um trato de amizade com Deus, estando, muitas vezes a sós, com Quem
sabemos que nos ama” (V 8, 5); a oração é uma relação com um Tu, Alguém que
está vivo, e que é a pessoa de Jesus. E este estar muitas vezes a sós com Ele,
não se reduz aos momentos orantes, aos momentos explícitos da oração litúrgica,
pessoal ou comunitária, mas ao tecido da vida inteira.
O caminho da oração, como todo o caminho, tem
sempre um início; mas começa verdadeiramente quando se dá o encontro profundo
da nossa pessoa com a pessoa de Cristo, como um dia aconteceu também na vida de
Santa Teresa, diante do Cristo chagado, atado à coluna; foi aí que ela se
encontrou verdadeiramente com Jesus e a sua vida tomou um rumo decisivo; este
encontro não é um encontro com uma ideia acerca de Deus, ou com coisas que li
ou me disseram acerca d’Ele, mas é um encontro com a Pessoa viva de Jesus, que
compreendemos nos aceita e ama incondicionalmente, assim como somos; é um
encontro que nos marca para sempre, e a partir desse dia - como acontece nas
relações de amizade na nossa vida que tiveram um primeiro encontro – nada fica
mais igual na nossa vida.
A seguir a esse primeiro encontro, sucedem-se outros,
a nossa pessoa vai mudando e transformando-se lentamente e, com o tempo, esta
relação vai-se tornando habitual, contínua, chegando ao ponto de já não sabemos
mais viver sem ela. Toda a relação é tecida de encontros no tempo que a
aprofundam e a consolidam e, na oração, é o mesmo.
Esta relação que é a oração, está sujeita, no
tempo, a uma evolução, a um processo de crescimento e amadurecimento, como
sucede nas nossas relações humanas, e será feita ora de palavras, ora de
silêncio, de experiências de presença e experiências de ausência, de simples
presença, ou de simples olhar para Ele e deixar-se olhar, em silêncio.
Um Carmelo, seja ele onde estiver, é um espaço,
pela forma como Santa Teresa o concebeu e organizou, por acção do Espírito
Santo nela, todo preparado para acontecer este diálogo habitual com Jesus ao
longo de todo o dia, esta relação íntima com Ele e, através d’Ele com o Pai, no
Espírito Santo: os momentos de silêncio, o trabalho em silêncio, a vida
fraterna com as Irmãs da Comunidade, os momentos orantes são os meios para
acontecer esta relação com Jesus e estar nesta união com Ele, neste coração a
coração, a que chamamos oração. Os momentos orantes prolongam-se ao longo de
todo o dia, ao ponto de Santa Teresa dizer: “Também entre as panelas, anda o
Senhor”. Sem esta relação habitual com Jesus, ao longo de todo o dia, que
sentido teria o Carmelo na Igreja?
Quando amamos alguém e nos sentimos amados, ou
estamos enamorados, não precisamos de fazer esforços para trazer à memória quem
amamos: essa pessoa está presente, estamos em relação constante com ela, no
interior e no segredo do nosso coração e da nossa memória.
A oração tem muito desta experiência: é a
experiência de um enamoramento que começou num encontro, acontecido, na maioria
das vezes, quando menos o pensávamos e nos mudou interiormente; e esta relação
com Jesus tece-se, ao longo dos dias e de toda a vida, num enamorar-se d’Ele de
dia para dia, no contacto com a Sua Palavra, com os acontecimentos de cada dia,
nas relações com as minhas Irmãs de Comunidade, e esta experiência nunca está
terminada. Está sempre em crescimento.
Quem reza é sempre um enamorado: um enamorado de
Deus e dos homens, seus irmãos. É alguém que se encontrou com Cristo e se
deixou seduzir e fascinar por Ele e o Seu modo de ser e viver, e quanto mais
d’Ele se enamora, mais se torna dos homens seus irmãos. Por isso, Santa Teresa
uniu admiravelmente no Carmelo a vida de oração e a relação fraterna com as
Irmãs, onde esta é o espelho da outra.
A experiência de intimidade com Deus - a oração -
se por um lado acontece no mais íntimo do nosso coração, onde o Pai vê em
segredo, não é senão para atirar-nos para fora de nós próprios, para a relação
com os outros; o orante, o homem da intimidade com Deus, é sempre um homem para
os outros, sente a urgência de sair de si e do seu egoísmo, para ir ao encontro
do outro. É por isso que o Carmelo é todo missionário. Pelo amor, vai aonde
quer, abraça quem quer e precisa, vai ao Céu, desce aos abismos; nada fica fora
deste amor que abarca todos os tempos e lugares.
O Céu é a vivência, por excelência, da relação: com
Deus e com os outros. Por isso, o Carmelo, antecipa já no tempo, o que seremos
por toda a eternidade: relação com Deus e, n’Ele, com os outros. E isto é a
oração.
Carmelo de
Fátima (Essejota, 15.10.2014)
