ANO DA VIDA CONSAGRADA
NOTA PASTORAL
Caríssimos irmãos e irmãs da Diocese de Coimbra
A Igreja inicia no primeiro domingo do Advento o
Ano da Vida Consagrada, que se prolongará por 2015.
É uma feliz oportunidade para recordarmos o passado
com gratidão, uma vez que somos testemunhas do lugar que ocuparam e do bem que
fizeram os consagrados ao longo dos séculos. À Igreja deixaram um legado imenso
de santidade e vivência radical do Evangelho, bem como um percurso
extraordinário de evangelização dos povos. À nossa Diocese de Coimbra deixaram
o testemunho da proximidade na ação social e caritativa, da promoção académica
e cultural e da profundidade no cultivo da vida espiritual assente nos valores
do Evangelho.
O Ano da Vida Consagrada deve ajudar-nos a viver o
futuro com paixão. Ao conhecermos melhor o modo de vida dos consagrados as suas
motivações, poderemos sentir-nos interpelados pela grandeza do amor de Deus que
os chama e que os leva a fazer uma opção de vida fundada na fé. Num tempo em
que é difícil assumir compromissos para toda a vida, os consagrados testemunham
que a sua grande paixão por Deus e pela humanidade, sinal de um amor maior, é
caminho a percorrer também no nosso tempo. Os conselhos evangélicos de pobreza,
castidade e obediência, assumidos com heroicidade, ajudam a entender o mundo de
outra maneira e a valorizar os outros por amor.
No meio de todas as nuvens escuras que ensombram a
humanidade, são necessárias muitas luzes de esperança para orientar o nosso
futuro. Os consagrados, na variedade das suas vocações, são um grande fermento
desse clarão de esperança que tanta falta faz à Igreja e ao mundo. Pedimos, por
isso, ao Senhor, que conceda à Igreja e à nossa Diocese muitas e santas vocações
de consagração.
Aos queridos irmãos e irmãs consagrados presentes
na Diocese de Coimbra ou dela originários, manifesto em nome desta Igreja
Particular toda a gratidão que lhes devemos por serem entre nós sinal claro do
Reino dos Céus e dos valores eternos.
Às comunidades cristãs convido a acolher com o
coração aberto as propostas que, ao longo deste ano, os consagrados irão fazer
para dar a conhecer a sua vocação, e convido a rezar por eles, para que sejam
fiéis a Cristo e à Igreja, segundo o dom que receberam.
A todos exorto a trabalhar em favor da promoção da
consagração por amor do Reino dos Céus e a invocar o
Espírito Santo a fim de podermos ver uma nova primavera na Igreja.
Invoco para todos a materna proteção de Nossa
Senhora e a bênção de Deus.
Coimbra, 28 de novembro de 2014
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra
***
CONGREGAÇÃO PARA OS INSTITUTOS DE VIDA
CONSAGRADA
E AS SOCIEDADES DE VIDA APOSTÓLICA
E AS SOCIEDADES DE VIDA APOSTÓLICA
ANO DA VIDA CONSAGRADA
ALEGRAI-VOS
Carta Circular aos Consagrados e
Consagradas
Do Magistério do Papa Francisco
« Queria dizer-vos uma palavra, e
a palavra é alegria.
Onde quer que haja consagrados, aí está a alegria! ».
Onde quer que haja consagrados, aí está a alegria! ».
Papa Francisco
Caríssimos
Irmãos e Irmãs,
1. «A alegria do Evangelho enche o coração e a vida
inteira daqueles que se encontram com Jesus. Com Jesus Cristo, nasce e renasce
sem cessar a alegria » [1].
O início da Evangelii gaudium soa,
na linha do magistério do papa Francisco, com surpreendente vitalidade,
apelando ao mistério admirável da Boa-Nova que, ao ser acolhida no coração de
uma pessoa, transforma a sua vida. É-nos contada a parábola da alegria: o
encontro com Jesus acende em nós a beleza originária, a beleza do rosto no qual
resplandece a glória do Pai (cf. 2Cor 4, 6), no frutto da
alegria.
Esta Congregação para os Institutos de Vida
Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica convida-vos a refletir sobre o
tempo de graça que nos é dado viver, sobre o especial convite que o Papa dirige
à vida consagrada.
Acolher tal magistério significa renovar a vida
segundo o Evangelho, não no sentido de radicalidade entendida como modelo de
perfeição e, muitas vezes, de separação, mas no sentido de adesãototo corde [2] ao encontro de salvação que transforma a vida: «
Trata-se de deixar tudo para seguir o Senhor. Não, não quero dizer radical. A
radicalidade evangélica não é só para os religiosos: a todos se exige. Mas os
religiosos seguem o Senhor de modo especial, de modo profético. Espero de vós
esse testemunho. Os religiosos devem ser homens e mulheres capazes de despertar
o mundo » [3].
Dentro das limitações humanas, nas preocupações do
dia a dia, os consagrados e as consagradas vivem a fidelidade, dão razão da
alegria que vivem, convertem-se em testemunho luminoso, anúncio eficaz,
companhia e proximidade para com as mulheres e homens do nosso tempo que
procuram a Igreja como casa paterna [4]. Francisco
de Assis, tomando o Evangelho como forma de vida, « fez crescer a fé, renovou a
Igreja; e, ao mesmo tempo, renovou a sociedade, tornando-a mais fraterna, mas
sempre com o Evangelho, com o testemunho. Pregai sempre o Evangelho e, se for
necessário, pregai-o também com as palavras! » [5].
Muitas são as sugestões que nascem da escuta das
palavras do Santo Padre, mas interpela-nos particularmente a simplicidade
absoluta com a qual o papa Francisco propõe o seu magistério, conformando-se
com a genuinidade desarmante do Evangelho. Palavra sine glossa [6], espalhada com o gesto amplo do bom semeador que, cheio
de confiança, não faz discriminação de terreno.
Um convite autorizado que nos é dirigido com plena
confiança; um convite a renunciarmos às argumentações institucionais e às
justificações pessoais; uma palavra provocadora que questiona o nosso viver,
por vezes entorpecido e sonolento, e com frequência indiferente ao desafio: «
Se tivésseis fé como um grão de mostarda » (Lc 17, 5). Um convite
que nos incentiva a elevar o espírito para darmos razão ao Verbo que habita no
meio de nós, ao Espírito que cria e renova constantemente a sua Igreja.
Esta Carta surge a partir deste
convite e pretende dar início a uma reflexão partilhada, ao mesmo tempo que se
apresenta como simples meio para um confronto leal entre o Evangelho e Vida.
Este Dicastério desencadeia assim um percurso comum, lugar de reflexão
fraterna, pessoal, institucional, rumo a 2015, ano que a Igreja dedica à vida
consagrada. Alimentamos o desejo de que ousadas decisões evangélicas venham a
ser postuladas e se produzam frutos de renovação e de fecunda alegria: «O
primado de Deus é, para a existência humana, plenitude de significado e de
alegria, porque o ser humano é feito para Deus e não descansa enquanto não
encontrar nele a paz » [7].
ALEGRAI-VOS, EXULTAI-VOS,
REJUBILAI
Alegrai-vos com Jerusalém, rejubilai
com ela, vós todos que a amais; regozijai-vos com ela, vós todos que estáveis
de luto por ela.
Porque assim diz o Senhor: « Vou fazer
com que a paz corra para Jerusalém como um rio, e a riqueza das nações, como
uma torrente transbordante. Os seus filhinhos serão levados ao colo e
acariciaclos sobre os seus regaços.
Como a mãe consola o seu filho, assim
Eu vos consolarei: em Jerusalém sereis consolados.
Ao verdes isto, os vossos corações
pulsarão de alegria, e os vossos ossos retomarão vigor, como erva fresca. A mão
do Senhor manifestar-se-á aos seus servos ».
Isaías 66, 10.12-14
À escuta
2. Com a palavra alegria (em
hebraico: s´imh. â/s´amah. , gyl) a Sagrada Escritura pretende
exprimir uma série de experiências coletivas e pessoais, particularmente
ligadas ao culto religioso e às festas, e destinadas a reconhecer o sentido da
presença de Deus na história de Israel.
Na Bíblia, há treze verbos e substantivos
diferentes para descrever a alegria de Deus, das pessoas e da própria criação,
no diálogo da salvação.
No Antigo Testamento, é nos Salmos e no profeta
Isaías que estes termos aparecem mais vezes. Com uma variação linguística
criativa e original, surge com frequência o convite à alegria e proclama-se a
alegria da proximidade de Deus, alegria por tudo o que Ele criou e fez. Nos
Salmos encontramos, centenas de vezes, as expressões mais eficazes para indicar,
juntamente com aalegria, quer o fruto da presença benevolente de Deus e
os ecos jubilosos que esta provoca, quer a afirmação da grande promessa que
ilumina o horizonte futuro do povo. No que diz respeito ao profeta Isaías, a
segunda e a terceira partes do seu livro estão, precisamente, ritmadas por esse
frequente apelo à alegria, orientado para o futuro: será superabundante (cf. Is 9,
2); o céu, o deserto e a terra exultarão de alegria (Is 35, 1; 44,
23; 49, 13); os prisioneiros libertados chegarão a Jerusalém, gritando de
alegria (Is 35,9s.; 51, 11).
No Novo Testamento, o termo mais frequente está
ligado à raiz char (chàirein, charà), mas
também se encontram outros termos como agalliáomai, euphrosy´ne,
que geralmente comportam um júbilo total, abarcando simultaneamente o passado e
o futuro. A alegria é o dom messiânico por excelência, como o
próprio Jesus promete: «A minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja
completa » (Jo 15, 11; 16, 24; 17, 13). Lucas, a partir dos
acontecimentos que antecedem o nascimento do Salvador, assinala o jubiloso
difundir-se da alegria (cf. Lc 1, 14.44.47; 2, 10; cf. Mt2,
10). Esta acompanha a difusão da Boa-Nova como um efeito que se expande (cf. Lc 10,
17; 24, 41.52) e que é sinal típico da presença e implantação do Reino (cf. Lc 15,
7.10.32; At 8, 39; 11, 23; 15, 3; 16, 34; cf. Rm 15,
10-13; etc.).
Para Paulo, a alegria é um fruto do Espírito (cf. Gl 5,
22) e uma nota típica e estável do Reino (cf.Rm 14, 17), que se
consolida também através da tribulação e das provas (cf. 1Ts 1,
6). Na oração, na caridade, na constante ação de graças deve encontrar-se a
fonte da alegria (cf. 1Ts 5, 16; Fl 3, 1; Cl 1,11s.):
nas tribulações, o Apóstolo dos Gentios sente-se cheio de alegria e
participante da glória que todos esperamos (cf. 2Cor 6, 10; 7,
4; Cl 1, 24). O triunfo final de Deus e as núpcias do
Cordeiro completarão toda a alegria e júbilo (cf. Ap 19,
7), fazendo estalar umAleluia cósmico (Ap 19, 6).
Vejamos o sentido do texto: « Alegrai-vos com
Jerusalém; rejubilai com ela, vós todos que a amais. Regozijai-vos com ela » (Is 66,
10). Trata-se do final da terceira parte do profeta Isaías; os capítulos 65 e
66 de Isaías estão intimamente unidos, completando-se mutuamente, como era
evidente já na conclusão da segunda parte de Isaías (capítulos 54 e 55).
Em ambos os capítulos é evocado o passado, por
vezes até com imagens cruas: são um convite a esquecê-lo, porque Deus quer
fazer brilhar uma nova luz, uma confiança que curará infidelidades e crueldades
sofridas. A maldição, fruto da não observância da Aliança, desaparecerá, porque
Deus quer fazer de « Jerusalém um motivo de júbilo, e do seu povo uma fonte de
alegria » (cf. Is 65, 18). Saberão por experiência que a
resposta de Deus virá ainda antes de a súplica ser formulada (cf. Is65,
24). Este é o contexto que continuará também nos primeiros versículos de Isaías
66, aflorando aqui e além, e evidenciando obtusidade de coração e de ouvidos
perante a bondade do Senhor e a sua Palavra de esperança.
É muito sugestiva a imagem de Jerusalém mãe,
inspirada nas promessas de Isaías 49, 18-29 e 54, 1-3: a terra de Judá enche-se
com os que regressam da dispersão, depois da humilhação. Dir-se-ia que os
rumores da « libertação » « engravidaram » Sião de nova vida e esperança. Deus,
o Senhor da vida, levará até ao fim a gestação, fazendo nascer sem sofrimento
os novos filhos. Assim, Sião-mãe fica rodeada de novos filhos, amamentando-os a
todos com abundância e ternura. Uma imagem dulcíssima, fascinante para Santa
Teresa de Lisieux, que nela encontrou uma decisiva chave de interpretação da
sua espiritualidade [8].
Um conjunto de vocábulos intensos: alegrai-vos, exultai, transbordai;
e também consolações,delícia, abundância, prosperidade, carícias,
etc. A relação de fidelidade e de amor tinha falhado, caíra-se na tristeza e na
esterilidade; agora, o poder e a santidade de Deus tornavam a dar sentido e
plenitude de vida e de felicidade. Estas exprimem-se em termos que têm a sua
raiz nos afetos de todo o ser humano, e que provocam sensações únicas de
ternura e segurança.
Delicado e verdadeiro perfil de um Deus que vibra
com entranhas maternas e com intensas emoções contagiantes; uma alegria vinda
do coração (cf. Is 66, 14) que, a partir de Deus – rosto
materno e braço que ergue –, e se difunde num povo desfigurado por mil
humilhações, e, por isso, com ossos frágeis; uma transformação gratuita que
festivamente se estende a « novos céus e nova terra » (cf. Is 66,
22), para que todos os povos conheçam a glória do Senhor, fiel e redentor.
Esta é a beleza
3. « Esta é a beleza da consagração: é a alegria, a
alegria... » [9]. A alegria de levar a todos a
consolação de Deus. São palavras do papa Francisco no encontro com os
seminaristas, os noviços e noviças. « Não há santidade na tristeza » [10], continua o Santo Padre, « não andeis tristes como os
que não têm esperança », escrevia São Paulo (1Ts 4, 13).
A alegria não é um adorno inútil, mas exigência e
fundamento da vida humana. Nas preocupações de cada dia, todo o homem e mulher
procura alcançar a alegria e permanecer nela com todo o seu ser.
No mundo há, muitas vezes, um déficit de alegria.
Não somos chamados a realizar gestos épicos nem a proclamar palavras
altissonantes, mas a testemunhar a alegria que brota da certeza de sentir-se
amado, da confiança de ser salvo.
A nossa memória curta e a nossa experiência fraca
impedem-nos muitas vezes de procurar as « terras da alegria », onde saborear o
reflexo de Deus. Temos mil e um motivos para viver na alegria. A sua raiz
alimenta-se da escuta crente e perseverante da Palavra de Deus. Na escola do
Mestre, escuta-se o « esteja em vós a minha alegria e a vossa alegria seja
completa » (Jo 15, 11), e treinamo-nos com exercícios de alegria
perfeita.
«A tristeza e o medo devem dar lugar à alegria:
“Alegrai-vos... exultai... transbordai de alegria” – diz o profeta (66, 10). É
um grande convite à alegria. […] Cada cristão, mas sobretudo nós, somos
chamados a levar esta mensagem de esperança, que dá serenidade e alegria: a
consolação de Deus, a sua ternura para com todos. Mas só o poderemos fazer, se
experimentarmos, nós primeiro, a alegria de ser consolados por Ele, de ser
amados por Ele. […] Existem pessoas consagradas que têm medo da consolação de
Deus e se amofinam, porque têm medo dessa ternura de Deus. Mas não tenhais
medo. Não tenhais medo. O nosso Deus é o Senhor da consolação, o Senhor da
ternura. O Senhor é pai e Ele disse que procederá conosco como faz uma mãe com
o seu filho – com ternura. Não tenhais medo da consolação do Senhor » [11].
Ao chamar-vos
4. «Ao chamar-vos, Deus diz-vos: “És importante
para mim, Eu amo-te; conto contigo”. Jesus diz isto a cada um de nós! Daqui
nasce a alegria! A alegria do momento no qual Jesus olhou para mim. Compreender
e sentir isto é o segredo da nossa alegria. Sentir-se amado por Deus, sentir
que, para Ele, nós não somos números, mas pessoas; e sentir que é Ele que nos
chama » [12].
O papa Francisco leva-nos a olhar para o fundamento
espiritual da nossa humanidade, para vermos o que nos é dado gratuitamente por
livre soberania divina e livre resposta humana:
« Então Jesus olhou para ele com simpatia e
respondeu: “Falta-te apenas uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o
dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me” » (Mc 10,
21).
O Papa faz memória: «Na Última Ceia, Jesus
dirige-se aos Apóstolos com estas palavras:
“Não fostes vós que me escolhestes; fui Eu que vos
escolhi” (Jo 15, 16); estas palavras recordam a todos, não só a nós
sacerdotes, que a vocação é sempre uma iniciativa de Deus. Foi Cristo que vos
chamou a segui-lo na vida consagrada, e isto significa realizar constantemente
um “êxodo” de vós mesmos para centrardes a vossa existência em Cristo e no seu
Evangelho, na vontade de Deus, despojando-vos dos vossos projetos, a fim de
poderdes afirmar com São Paulo: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em
mim” (Gl 2, 20) » [13].
O Papa convida-nos a uma peregrinação ao
passado, um caminho sapiencial para nos encontrarmos nas estradas da Palestina
ou junto da barca do humilde pescador da Galileia; convida-nos a contemplar os
inícios de um caminho, ou melhor, de um acontecimento que, tendo sido
inaugurado por Cristo, nos leva a deixar as redes na margem, o banco dos
impostos na beira da estrada, as veleidades do zelote entre as intenções do
passado. Todos meios desapropriados para estar com Ele.
Convida-nos a parar algum tempo, como peregrinação
interior, diante do horizonte da primeira hora, onde os espaços têm o calor da
relação amiga, a inteligência é levada a abrir-se ao mistério, a decisão
estabelece que é bom pôr-se no seguimento daquele Mestre que só tem « palavras
de vida eterna » (cf. Jo 6, 68). Convida-nos a fazer de toda a
« existência uma peregrinação de transformação no amor » [14].
O papa Francisco chama-nos a deter o nosso espírito
no fotograma da partida: «A alegria do momento no qual Jesus olhou para mim» [15]; a evocar significados e exigências subentendidos na
nossa vocação: «É a resposta a um chamamento, a um chamamento de amor » [16]. Estar com Cristo requer que partilhemos com Ele a
vida, opções, obediência de fé, bem-aventurança dos pobres, radicalidade do
amor.
Trata-se de renascer vocacionalmente. « Convido
todo o cristão […] a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo
ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de o procurar
dia a dia sem cessar » [17].
Paulo leva-nos a essa visão fundamental: « Ninguém
pode pôr outro alicerce diferente do que já foi posto » (1Cor 3,
11). O termo vocação indica este dado gratuito, como um depósito de vida que
não cessa de renovar a humanidade e a Igreja no mais profundo do seu ser.
Na experiência da vocação, o próprio Deus é o
sujeito misterioso do chamamento. Ouvimos uma voz que nos chama à vida e ao
discipulado pelo Reino. O papa Francisco, ao recordá-lo – « tu és importante
para mim» –, usa o discurso direto, na primeira pessoa, de modo a que a
consciência desperta. Chama-me a ser consciente da minha ideia, do meu juízo,
para pedir comportamentos coerentes com a consciência de mim próprio, com o
chamamento que sinto, o meu chamamento pessoal: « Gostaria de dizer a quantos
se sentem indiferentes a Deus, à fé; a quantos estão distantes de Deus, ou a
quem o abandonou; também a nós, com as nossas “distâncias” e os nossos
“abandonos” de Deus, talvez pequenos, mas demasiado frequentes na vida
quotidiana: Olha no fundo do teu coração, olha no íntimo de ti mesmo e
interroga-te: tens um coração que aspira a algo de grande, ou um coração
entorpecido pelas coisas? O teu coração conservou a inquietação da procura, ou
permitiste que ele fosse sufocado pelos bens que, no fim, o atrofiam? » [18].
A relação com Jesus Cristo precisa de ser
alimentada com a inquietação da procura; torna-nos conscientes da gratuidade do
dom da vocação e ajuda-nos a justificar as razões que levaram à opção inicial,
e que permanecem na perseverança: « Deixar-se conquistar por Cristo significa
estar sempre orientado para aquilo que está à minha frente, rumo à meta que é
Cristo (cf. Fl 3, 14) »[19].
Permanecer constantemente à escuta de Deus requer que estas perguntas se tornem
as coordenadas que marcam o nosso tempo quotidiano.
Este mistério indizível que trazemos dentro de nós
e que participa do inefável mistério de Deus só pode ser interpretado à luz da
fé: «A fé é a resposta a uma Palavra que interpela pessoalmente, a um Tu que
nos chama pelo nome » [20] e, « enquanto
resposta a uma Palavra que precede, será sempre um ato de memória; contudo,
esta memória não o fixa no passado, porque, sendo memória de uma promessa,
torna-se capaz de se abrir ao futuro, de iluminar os passos ao longo do caminho
» [21]. «A fé contém precisamente a memória da
história de Deus conosco; a memória do encontro com Deus, que toma a
iniciativa, que cria e salva, que nos transforma; a fé é memória da sua Palavra
que inflama o coração, das suas ações salvíficas, pelas quais nos dá vida,
purifica, cuida de nós e alimenta. […] Quem traz em si a memória de Deus,
deixa-se guiar pela memória de Deus em toda a sua vida, e sabe despertá-la no
coração dos outros » [22]. Memória de ser chamado
aqui e agora.
Encontrados,
alcançados, transformados
5. O Papa pede-nos para relermos a nossa história
pessoal e a verificarmos no olhar de amor de Deus, porque, se a vocação é
sempre iniciativa sua, cabe-nos a livre adesão à economia divino-humana, como
relação de vida no ágape, caminho de discipulado, « luz no caminho
da Igreja »[23]. Na vida no Espírito não há tempos
acabados; ela abre-se constantemente ao mistério quando faz discernimento para
conhecer o Senhor e captar a realidade a partir dele. Ao chamar-nos, Deus
faz-nos entrar no seu repouso e pede-nos que repousemos nele, como contínuo
processo de conhecimento de amor. Ecoa em nós a Palavra « andas inquieta e
preocupada com muitas coisas » (Lc 10, 41). Na via amoris [24] progride-se renascendo: a velha criatura renasce
para uma nova forma. « Por isso, se alguém está em Cristo, é uma nova criatura
» (2Cor 5, 17).
O papa Francisco dá um nome a este renascer: « Esta
estrada tem um nome, um semblante: o rosto de Jesus Cristo. É Ele que nos
ensina a tornarmo-nos santos. É Ele que, no Evangelho, nos indica o caminho: a
via das bem-aventuranças (cf. Mt 5, 1-12). Esta é a vida dos
Santos: pessoas que, por amor a Deus, na sua vida não lhe puseram condições » [25].
A vida consagrada é chamada a encarnar a Boa-Nova,
no seguimento de Cristo, o Crucificado ressuscitado; a fazer
próprio o « modo de existir e de agir de Jesus como Verbo encarnado em relação
ao Pai e aos irmãos » [26]. Concretamente, é
assumir o seu estilo de vida, adotar as suas atitudes interiores, deixar-se
invadir pelo seu espírito, assimilar a sua lógica surpreendente e a sua escala
de valores, partilhar os seus risos e as suas esperanças: « Guiados pela
certeza humilde e feliz de quem foi encontrado, alcançado e
transformado pela Verdade que é Cristo, e não pode deixar de anunciá-la
» [27].
O permanecer em Cristo permite-nos colher a
presença do Mistério que habita em nós e nos dilatar o coração segundo a medida
do seu coração de Filho. Quem permanece no seu amor, como o ramo ligado à
videira (cf. Jo 15, 1-8), entra na familiaridade com Cristo e
produz fruto: « Permanecer em Jesus! Permanecer ligado a Ele, dentro dele, com
Ele, falando com Ele » [28].
« Cristo é o selo na fronte, é o selo no coração:
na fronte, porque o professamos sempre; no coração, porque o amamos sempre; é o
selo no braço, porque atuamos sempre » [29]. A
vida consagrada, com efeito, é um constante chamamento a seguir Cristo e a
imitá-lo. « Toda a vida de Jesus, a sua forma de tratar os pobres, os seus
gestos, a sua coerência, a sua generosidade simples e quotidiana e, finalmente,
a sua total entrega, tudo é precioso e fala à nossa vida pessoal » [30].
O encontro com o Senhor põe-nos em movimento,
impele-nos a sair da autorreferencialidade [31]. A
relação com o Senhor não é estática nem intimista: «Quem coloca Cristo no
centro da sua vida, descentraliza-se! Quanto mais te unes a Jesus e mais Ele se
torna o centro da tua vida, tanto mais Ele te faz sair de ti mesmo, te
descentraliza e abre aos outros » [32]. « Não
estamos no centro; estamos, por assim dizer, “deslocados”, estamos ao serviço
de Cristo e da Igreja » [33].
A vida cristã é determinada por verbos de
movimento, mesmo quando vivida na dimensão monástica e contemplativo-claustral;
é uma contínua procura.
« Não se pode perseverar numa evangelização cheia
de ardor, se não se estiver convencido, por experiência própria, de que não é a
mesma coisa ter conhecido Jesus ou não o conhecer; não é a mesma coisa caminhar
com Ele ou caminhar tateando; não é a mesma coisa poder escutá-lo ou ignorar a
sua Palavra; não é a mesma coisa poder contemplá-lo, adorá-lo, descansar nele,
ou não o poder fazer. Não é a mesma coisa procurar construir o mundo com o seu
Evangelho, em vez de o fazer unicamente com a própria razão. Sabemos bem que a
vida com Jesus se torna muito mais plena, e, com Ele, é mais fácil encontrar
sentido para cada coisa » [34].
O papa Francisco exorta-nos à inquietação
da procura, como aconteceu com Agostinho de Hipona: uma « inquietação do
coração que o leva ao encontro pessoal com Cristo; que o leva a compreender que
aquele Deus que ele procurava longe de si é o Deus próximo de cada ser humano,
o Deus próximo do nosso coração, mais íntimo a nós do que nós mesmos ». É uma
procura que continua: « Agostinho não se detém, não se acomoda, não se fecha em
si mesmo, como aquele que já chegou à meta, mas continua o caminho. A inquietação
da busca da verdade, da busca de Deus, torna-se inquietação de o conhecer
cada vez mais e de sair de si mesmo para o dar a conhecer aos outros. É
precisamente a inquietação do amor » [35].
Na alegria
do sim fiel
6. Quem encontrou o Senhor e o segue com fidelidade
é um mensageiro da alegria do Espírito.
« Só graças a esse encontro – ou reencontro – com o
amor de Deus, que se converte em amizade feliz, é que somos resgatados da nossa
consciência isolada e da autorreferencialidade » [36].
Quem é chamado é convocado para si mesmo, isto é, para o seu poder ser. Talvez
possamos dizer que a crise da vida consagrada passa também pela incapacidade de
reconhecer esse profundo chamamento, mesmo naqueles que já vivem essa vocação.
Vivemos uma crise de fidelidade, entendida como
adesão consciente a um chamamento que é um percurso, um caminho, desde o seu
início misterioso até ao seu misterioso fim.
Talvez se esteja também numa crise de humanização.
Estamos a viver os limites de uma coerência total, feridos pela incapacidade de
realizar, no tempo, a nossa vida como vocação unitária e caminho fiel.
Um caminho quotidiano, pessoal e fraterno, marcado
pelo descontentamento, pela amargura que nos fecha na tristeza, como que numa
permanente saudade, por estradas inexploradas e sonhos por realizar, torna-se
um caminho solitário. A nossa vida, chamada à relação na construção do amor,
pode transformar-se numa charneca desabitada. Somos convidados, em qualquer
idade, a revisitar o centro profundo da vida pessoal, onde encontram
significado e verdade as motivações do nosso viver com o Mestre, discípulos e
discípulas do Mestre.
A fidelidade é consciência do amor que nos orienta
para o Tu de Deus e para qualquer outra pessoa, de maneira constante e
dinâmica, enquanto sentimos em nós a vida do Ressuscitado:
«Os que se deixam salvar por Ele são libertados do
pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento » [37].
O discipulado fiel é graça e exercício de amor,
exercício de caridade oblativa: « Quando caminhamos sem a Cruz, quando
edificamos sem a Cruz ou confessamos um Cristo sem Cruz, não somos discípulos
do Senhor: somos mundanos, somos bispos, padres, cardeais, papas, mas não
discípulos do Senhor » [38].
Perseverar até ao Gólgota, sentir as dilacerações
das dúvidas e do renegar, alegrar-se com a maravilha e com a estupefação da
Páscoa até à manifestação do Pentecostes e à evangelização aos povos, são
etapas da fidelidade alegre porque quenótica, vivida durante a vida
inteira, mesmo na prova do martírio e, ao mesmo tempo, participante da vida
ressuscitada de Cristo: «É da Cruz, supremo ato de misericórdia e de amor, que
se renasce como nova criatura (Gl 6, 15) » [39].
No lugar teologal em que Deus, revelando-se, nos
revela a nós mesmos, o Senhor pede-nos, portanto, para voltarmos a procurar, fides
quaerens: « Procura a justiça, a fé, o amor e a paz com todos os que, de
coração puro, invocam o Senhor » (2Tm 2, 22).
A peregrinação interior começa na oração: «A
primeira coisa necessária para um discípulo é estar com o Mestre, ouvi-lo,
aprender dele. E isto é sempre válido, é um caminho que dura a vida inteira.
[…] Se, no nosso coração, não há o calor de Deus, do seu amor, da sua ternura,
como podemos nós, pobres pecadores, inflamar o coração dos outros? » [40]. Este itinerário dura a vida inteira, enquanto o
Espírito Santo, na humildade da oração, nos convence do senhorio de Cristo em
nós: « Todos os dias, o Senhor chamanos a segui-lo, corajosa e fielmente;
fez-nos o grande dom de nos escolher como seus discípulos; convida-nos a
anunciá-lo jubilosamente como o Ressuscitado, mas pede-nos para o fazermos, no
dia a dia, com a palavra e o testemunho da nossa vida, no quotidiano. O Senhor
é o único, o único Deus da nossa vida e convida-nos a despojar-nos dos numerosos
ídolos e adorá-lo só a Ele » [41].
O Papa apresenta a oração como a fonte da fecundidade
missionária: « Cultivemos a dimensão contemplativa, mesmo no turbilhão dos
compromissos mais urgentes e pesados. E quanto mais a missão vos chamar para
irdes às periferias existenciais, tanto mais o vosso coração se mantenha unido
ao de Cristo, cheio de misericórdia e de amor » [42].
O estar com Jesus leva a ter um olhar contemplativo
da história, para vermos e escutarmos em toda a parte a presença do Espírito e,
de forma privilegiada, discernirmos a sua presença, a fim de vivermos o tempo
como tempo de Deus.
Quando falta um olhar de fé, « a vida perde
gradualmente sentido, o rosto dos irmãos torna-se opaco, impossibilitando
descobrir nele o rosto de Cristo; os acontecimentos da história tornam-se
ambíguos, senão mesmo vazios de esperança» [43].
A contemplação abre-nos à atitude profética. O
profeta é um homem « que tem os olhos penetrantes e que escuta e diz as
palavras de Deus; […] um homem de três tempos: promessa do passado,
contemplação do presente, coragem para indicar o caminho do futuro » [44].
Por fim, a fidelidade no discipulado passa e é
comprovada pela experiência da fraternidade, lugar teológico, no qual somos
chamados a apoiar-nos no sim jubiloso do Evangelho: «É a Palavra de Deus que
suscita a fé, que a alimenta e regenera. É a Palavra de Deus que sensibiliza os
corações, que os converte a Deus e à sua lógica, que é tão diferente da nossa;
é a Palavra de Deus que renova continuamente as nossas comunidades » [45].
O Papa convida-nos, portanto, a renovar e
qualificar com alegria e paixão a nossa vocação, porque o ato totalizante do
amor é um processo constante: « Amadurece, amadurece, amadurece »[46], num progresso permanente em que o sim da nossa vontade
à Sua une vontade, intelecto e sentimento. «O amor nunca está “concluído” e
completado; transforma-se ao longo da vida, amadurece e, por isso mesmo,
permanece fiel a si próprio » [47].
CONSOLAI,
CONSOLAI O MEU POVO
Consolai, consolai o meu povo,
diz o vosso Deus.
Falai ao coração de Jerusalém.
Isaías 40, 1-2
diz o vosso Deus.
Falai ao coração de Jerusalém.
Isaías 40, 1-2
À escuta
7. Com uma peculiaridade estilística,
que voltará a encontrar-se mais adiante (cf. Is 51, 17; 52, 1:
« Desperta, desperta! »), os oráculos da segunda parte de Isaías (40-55) lançam
o apelo a ir em ajuda de Israel exilado, que tende a fechar-se no vazio de uma
memória falhada. O contexto histórico pertence claramente à fase do prolongado
exílio do povo em Babilónia (587-538 a.C.), com toda a consequente humilhação e
o sentido de impotência daí resultante. Todavia, a desagregação do Império
Assírio sob a pressão da nova potência emergente, a persa, guiada pelo astro
nascente que era Ciro, leva o profeta a intuir que poderia vir daí uma
libertação inesperada; o que, de facto, sucederá. O profeta, sob a inspiração
de Deus, dá voz pública a essa possibilidade, interpretando os movimentos
políticos e militares como ação guiada misteriosamente por Deus através de
Ciro, e proclama que a libertação está próxima e o regresso à terra dos pais
está iminente.
As palavras que Isaías emprega – consolai...
falai ao coração – encontram-se com uma certa frequência no Antigo
Testamento; têm especial relevância as passagens onde se encontram diálogos de
ternura e afeto. Como quando Rute reconhece que Booz « a consolou e lhe falou
ao coração » cf. Rt 2, 12); ou então, na famosa página ele
Oséias, que diz à sua esposa (Gomer) querer atraí-la ao deserto para lhe «
falar ao coração » (cf. Os 2, 16-17), em ordem a uma nova
estação de fidelidade. Mas também há outros paralelismos semelhantes, como o
diálogo de Siquém, filho de Hamor, enamorado de Dina (cf. Gn 34,
1-5) ou o do levita de Efraim, que fala à concubina que o abandonou (cf. Jz 19,
3).
Trata-se, portanto, de uma linguagem que deve ser
interpretada no contexto do amor, e não do encorajamento; portanto, ação e
palavra ao mesmo tempo delicadas e encorajadoras, mas que aludem aos laços
afetivos e intensos de Deus, « esposo » de Israel. E a consolação deve
ser epifania de uma pertença recíproca, jogo de intensa empatia, de comoção e
ligação vital.
Não são, portanto, palavras superficiais e
adoçadas, mas Misericórdia e visceralidade, preocupação, abraço que fortalece e
paciente proximidade para reencontrar as estradas da confiança.
Levar o
abraço de Deus
8. « Hoje, as pessoas precisam
certamente de palavras, mas sobretudo têm necessidade de quem testemunhe a
misericórdia, a ternura do Senhor que aquece o coração, desperta a esperança,
atrai para o bem. A alegria de levar a consolação de Deus! » [48].
O papa Francisco confia aos consagrados e
consagradas essa missão: encontrar o Senhor que nos consola como uma mãe, e
consola o povo de Deus. Da alegria do encontro com o Senhor e do seu chamamento
brota o serviço na Igreja, a missão: levar aos homens e mulheres do nosso tempo
a consolação de Deus; testemunhar a sua misericórdia [49].
Na visão de Jesus, a consolação é dom do Espírito,
o Paráclito, o Consolador que nos consola nas provas e acende uma
esperança que não desilude. Assim, a consolação cristã torna-se conforto,
encorajamento, esperança: é presença operante do Espírito (cf. Jo 14,
16-17), fruto do Espírito, e o «fruto do Espírito é caridade, alegria, paz,
paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, temperança » (Gl 5,
22).
Num mundo que vive de desconfiança, de desânimo e
depressão, numa cultura em que os homens e mulheres se deixam levar por
fragilidades e fraquezas, por individualismos e interesses pessoais, é-nos
pedido que introduzamos a confiança na possibilidade de uma felicidade
verdadeira, de uma esperança possível, que não se apoie unicamente nos
talentos, nas qualidades, no saber, mas em Deus. Todos podem encontrá-lo; basta
procurá-lo de coração sincero.
Os homens e mulheres do nosso tempo esperam
palavras de consolação, proximidade, perdão, alegria verdadeira. Somos chamados
a levar a todos o abraço de Deus, que se inclina sobre nós com ternura de mãe:
consagrados, sinal de humanidade plena, facilitadores e não controladores da
graça [50], marcados pelo sinal da consolação.
A ternura
faz-nos bem
9. Testemunhas de comunhão para além das nossas
maneiras de ver e dos nossos limites, somos, portanto, chamados a levar o
sorriso de Deus; e a fraternidade é o primeiro e mais credível Evangelho que
podemos contar. Pede-se-nos para humanizar as nossas comunidades: « Cuidai da
amizade entre vós, da vida de família, do amor entre vós. E que o mosteiro não
seja um purgatório, mas uma família. Os problemas existem e existirão, mas como
se faz numa família, com amor, procurai uma solução com caridade; não destruais
esta em nome daquela; que não haja competição. Cuidai da vida de comunidade,
pois quando a vida de comunidade é vida de família, o Espírito Santo
encontra-se no seio da comunidade. Sempre com um coração grande. Deixai passar,
não vos vanglorieis, suportai tudo, sorri com o coração. E o sinal disto é a alegria
» [51].
A alegria consolida-se na experiência da
fraternidade, qual lugar teológico, onde cada um é responsável da fidelidade ao
Evangelho e do crescimento de cada um. Quando uma fraternidade se alimenta do
mesmo Corpo e Sangue de Jesus, reúne-se à volta do Filho de Deus para partilhar
o caminho de fé guiado pela Palavra, torna-se uma só coisa com Ele; é uma
fraternidade em comunhão, que sente o amor gratuito e vive em festa, livre,
alegre, cheia de coragem.
«Uma fraternidade sem alegria é uma fraternidade
que se apaga. […] Uma fraternidade rica de alegria é um verdadeiro dom do Alto
para os irmãos que sabem pedi-lo e que sabem aceitar-se uns aos outros,
empenhando-se na vida fraterna com confiança na ação do Espírito » [52].
No tempo em que a fragmentação leva a um
individualismo estéril e de massa, e a fraqueza das relações desagrega e
asfixia a atenção pelo humano, somos convidados a humanizar as relações de
fraternidade para favorecer a comunhão dos espíritos e dos corações ao estilo
do Evangelho, porque « existe uma comunhão de vida entre todos aqueles que
pertencem a Cristo. Uma comunhão que nasce da fé » e que faz da « Igreja, na
sua verdade mais profunda, comunhão com Deus, familiaridade com Deus, comunhão
de amor com Cristo e com o Pai no Espírito Santo, que se prolonga numa comunhão
Fraterna » [53].
Para o papa Francisco, o selo da fraternidade é a
ternura, uma « ternura eucarística », porque « a ternura faz-nos bem ». A
fraternidade tem « uma enorme força de convocação. […] A fraternidade religiosa,
mesmo com todas as diferenças possíveis, é uma experiência de amor que
ultrapassa os conflitos » [54].
A
proximidade como companhia
10. Somos chamados a realizar um êxodo de nós
mesmos, num caminho de adoração e de serviço[55]. «
Sair pela porta para procurar e encontrar! Ter a coragem de ir contra a
corrente dessa cultura eficientista, dessa cultura da rejeição. O encontro e o
acolhimento de todos, a solidariedade e a fraternidade, são os elementos que
tornam a nossa civilização verdadeiramente humana. Temos de ser servidores
da comunhão e da cultura do encontro! Quero-vos quase obsessivos neste
aspecto. E fazê-lo sem ser presunçosos » [56].
«O fantasma que se deve combater é a imagem da vida
religiosa entendida como refúgio e conforto face a um mundo exterior difícil
e complexo » [57]. O Papa exorta-nos a « sair do
ninho » [58], para habitarmos na vida dos homens e
mulheres do nosso tempo, e a nos entregarmos a Deus e ao próximo.
«A alegria nasce da gratuidade de um encontro! […]
E a alegria do encontro com Ele e do seu chamamento faz com que não nos
fechemos, mas que nos abramos; leva ao serviço na Igreja. São Tomás dizia: “Bonum
est diffusivum sui” (o bem difunde-se). E a alegria também se difunde. Não
tenhais medo de mostrar a alegria de haverdes respondido ao chamamento do
Senhor, à sua escolha de amor, e de testemunhar o seu Evangelho no serviço à
Igreja. E a alegria, a verdadeira alegria, é contagiosa; contagia... faz-nos ir
em frente » [59].
Perante o testemunho contagioso de alegria, de
serenidade, de fecundidade, o testemunho da ternura e do amor, da caridade
humilde, sem prepotência, muitos sentem a necessidade de vir ver[60].
Várias vezes o papa Francisco indicou o caminho
da atração, do contágio, como caminho para fazer crescer a Igreja, caminho
da nova evangelização. «A Igreja deve atrair. Despertai o mundo! Sede
testemunhas de um modo diferente de fazer, de agir, de viver! É possível viver
diversamente neste mundo. […] Eu espero de vós um tal testemunho » [61].
Confiando-nos a missão de despertar o mundo,
o Papa impele-nos a encontrar as histórias dos homens e mulheres de hoje à luz
de duas categorias pastorais, que têm as suas raízes na novidade do Evangelho:
a proximidade e o encontro, duas modalidades,
através das quais o próprio Deus se revelou na história a ponto de encarnar.
Na estrada de Emaús, como Jesus com os discípulos,
acolhamos na companhia quotidiana as alegrias e dores das pessoas, dando «
calor ao coração » [62], esperando com ternura os
cansados, os fracos, para que o caminho feito em comum tenha em Cristo luz e
significado.
O nosso caminho « amadurece até à paternidade
pastoral, até à maternidade pastoral e, quando um sacerdote não é pai da sua
comunidade, quando uma religiosa não é mãe de todos aqueles com os quais
trabalha, torna-se triste. Eis o problema. Por isso vos digo: a raiz da
tristeza na vida pastoral consiste precisamente na falta de paternidade e
maternidade, que vem do viver mal esta consagração; esta, pelo contrário,
deve-nos conduzir à fecundidade » [63].
A inquietação
do amor
11. Ícones vivos da maternidade e da
proximidade da Igreja, vamos ao encontro dos que esperam a Palavra da
consolação, inclinando-nos com amor materno e espírito paterno sobre os pobres
e os fracos.
O Papa convida-nos a não privatizar o amor,
mas, com a inquietação de quem procura, « procurar sempre, sem tréguas, o bem
do outro, da pessoa amada » [64].
A crise de sentido do homem moderno e a crise
económica e moral da sociedade ocidental e das suas instituições não são um
acontecimento passageiro dos tempos em que vivemos, mas desenham um momento
histórico de excepcional importância. Somos chamados então, como Igreja, a sair
para ir às periferias geográficas, urbanas e existenciais – as do mistério do
pecado, da dor, das injustiças, da miséria –, aos lugares recônditos da alma,
onde cada pessoa experimenta a alegria e o sofrimento do viver [65].
« Vivemos numa cultura do desencontro, uma cultura
da fragmentação, uma cultura na qual o que não me serve é jogado fora […].
Hoje, encontrar um sem-abrigo morto de frio não é notícia ». «A pobreza é uma
categoria teologal porque o Filho de Deus humilhou-se, para caminhar pelas
estradas. […] Uma Igreja pobre para os pobres começa por dirigir-se à carne de
Cristo. Se nos fixarmos na carne de Cristo, começamos a compreender qualquer
coisa, a compreender o que é esta pobreza, a pobreza do Senhor » [66]. Viver a bem-aventurança dos pobres significa ser
sinal de que a angústia da solidão e do limite é vencida pela alegria de quem é
verdadeiramente livre em Cristo e aprendeu a amar.
Durante a sua visita pastoral a Assis, o papa
Francisco perguntava de que devia despojar-se a Igreja. E respondia: «De
qualquer ação que não é para Deus, que não é de Deus; do medo de abrir as
portas para ir ao encontro de todos, sobretudo dos mais pobres, dos
necessitados, dos distantes, sem esperar; certamente, não para se perder no
naufrágio do mundo, mas para levar com coragem a luz de Cristo, a luz do
Evangelho, também à escuridão, aonde não se vê, aonde pode acontecer que se
tropece; despojar-se da tranquilidade aparente que as estruturas oferecem,
estruturas certamente necessárias e importantes, mas que nunca devem obscurecer
a única verdadeira força que a Igreja tem em si: Deus. Ele é a nossa força! » [67].
Eis um convite a « não ter medo da novidade que o
Espírito Santo faz em nós, não ter medo da renovação das estruturas. A Igreja é
livre. Condu-la o Espírito Santo. É o que Jesus nos ensina no Evangelho: a
liberdade necessária para encontrar sempre a novidade do Evangelho na nossa
vida e também nas estruturas. A liberdade de escolher odres novos para esta
novidade » [68]. Somos convidados a ser homens e
mulheres audazes, de fronteira: «A nossa fé não é uma fé-laboratório, mas uma
fé-caminho, uma fé histórica. Deus revelou-se como história, não como um
compêndio de verdades abstratas. […] Não é preciso levar a fronteira para casa,
mas viver na fronteira e ser audazes » [69].
Juntamente com o desafio da bem-aventurança dos
pobres, o Papa convida a visitar as fronteiras do pensamento e da
cultura, a favorecer o diálogo, inclusive a nível intelectual, para darmos
razão da esperança, na base de critérios éticos e espirituais, interrogando-nos
sobre o que é bom. A fé nunca limita o espaço da razão, mas abre-o a uma visão
integral do homem e da realidade, e defende do perigo de reduzir o homem a «
material humano » [70].
A cultura, chamada a servir constantemente a
humanidade em todas as condições, se for autêntica, rasga caminhos
inexplorados, passagens que fazem respirar esperança, consolidam o sentido da
vida, conservam o bem comum. Um autêntico processo cultural « faz crescer a
humanização integral e a cultura do encontro e do relacionamento; este é o modo
cristão de promover o bem comum, a alegria de viver. E aqui convergem fé e
razão, a dimensão religiosa com os diferentes aspectos da cultura humana: arte,
ciência, trabalho, literatura » [71]. Uma
autêntica busca cultural encontra a história e abre caminhos para procurar o
rosto de Deus.
Os lugares onde se elabora e comunica o saber são
também os lugares onde se cria uma cultura da proximidade, do encontro e do
diálogo, abaixando as defesas, abrindo as portas, construindo pontes [72].
PARA REFLEXÃO
12. O mundo, como rede global em que todos estamos
integrados, onde nenhuma tradição local pode ambicionar ter o monopólio da
verdade, onde as tecnologias têm efeitos que atingem a todos, lança um desafio
constante ao Evangelho e a quem vive a vida à maneira do Evangelho.
O papa Francisco está a realizar, neste momento
histórico, através de opções e modalidades de vida, uma hermenêutica viva do
diálogo Deus-mundo. Introduz-nos num estilo de sabedoria, que, radicada no
Evangelho e na escatologia do humano, lê o pluralismo, procura o equilíbrio,
convida a habilitar a capacidade de ser responsáveis da mudança, para que a
verdade do Evangelho seja comunicada cada vez melhor, enquanto nos movemos «
por entre as limitações da linguagem e das circunstâncias » [73] e, conscientes destes limites, cada um de nós se
torna « fraco com os fracos... tudo para todos » (1Cor 9, 22).
Somos convidados a cultivar uma dinâmica
generativa, não simplesmente administrativa, para acolher os acontecimentos
espirituais, presentes nas nossas comunidades e no mundo; movimentos e graça,
que o Espírito realiza em cada pessoa, vista como pessoa. Somos convidados a
empenhar-nos na desestruturação de modelos sem vida para narrar o humano
marcado por Cristo e nunca revelado de forma absoluta nas linguagens e nos
modos.
O papa Francisco convida-nos a uma sabedoria que
seja sinal de uma consistência dúctil, capacidade dos consagrados de se moverem
segundo o Evangelho, de atuarem e fazerem escolhas segundo o Evangelho, sem se
perderem nas diversas esferas de vida, linguagens, relações e mantendo o
sentido da responsabilidade, dos laços que nos ligam, da restrição dos nossos
limites, da infinidade das formas como a vida se exprime. Um coração
missionário é um coração que conheceu a alegria da salvação de Cristo e
partilha-a como consolação no sinal do limite humano: « Sabe que ele mesmo deve
crescer na compreensão do Evangelho e no discernimento das sendas do Espírito,
e assim não renuncia ao bem possível, ainda que corra o risco de se sujar com a
lama da estrada » [74].
Acolhamos as solicitações que o Papa nos propõe
para olhar para nós próprios e para o mundo com os olhos de Cristo, e assim
ficar inquietos.
As
perguntas do papa Francisco
• Queria dizer-vos uma palavra, e a palavra é alegria. Onde
estão os consagrados, os seminaristas, as religiosas e os religiosos, os
jovens, há sempre alegria, há sempre júbilo! É a alegria do vigor, é a alegria
de seguir Jesus; a alegria que nos dá o Espírito Santo, não a alegria do mundo.
Há alegria! Mas, onde nasce a alegria? [75].
• Olha no fundo do teu coração, olha no íntimo de
ti mesmo, e interroga-te: tens um coração que aspira a algo de grande ou um
coração entorpecido pelas coisas? O teu coração conservou a inquietação da
procura ou permitiste que ele fosse sufocado pelos bens, que terminam por
atrofiá-lo? Deus espera por ti, procura-te: o que lhe respondes? Apercebeste
desta situação da tua alma? Ou dormes? Acreditas que Deus te espera ou, para
ti, esta verdade não passa de « palavras »?[76].
• Somos vítimas desta cultura do provisório.
Gostaria que pensásseis nisto: como posso ser livre, como posso libertar-me
desta cultura do provisório? [77].
• Esta é uma responsabilidade, em primeiro lugar
dos adultos, dos formadores: dar um exemplo de coerência aos mais jovens.
Queremos jovens coerentes? Sejamos nós coerentes! Caso contrário, o Senhor nos
dirá o que dizia dos fariseus ao povo de Deus: « Fazei o que dizem, mas não o
que fazem! » Coerência e autenticidade! [78].
• Podemos perguntar-nos: eu vivo inquieto por Deus,
por anunciá-lo, por dá-lo a conhecer? Ou então deixo-me fascinar por aquela
mundanidade espiritual que leva a fazer tudo por amor-próprio? Nós,
consagrados, pensamos nos interesses pessoais, no funcionalismo das obras, no
carreirismo. Mas podemos pensar em tantas coisas... Por assim dizer, «
acomodei-me » na minha vida cristã, na minha vida sacerdotal, na minha vida
religiosa, e até na minha vida de comunidade, ou conservo a força da
inquietação por Deus, pela sua Palavra, que me leva a « sair » e ir rumo aos
outros? [79].
• Como vivemos a inquietação do amor? Cremos no
amor a Deus e ao próximo, ou somos nominalistas a este propósito? Não de modo
abstrato, não somente pelas palavras, mas o irmão concreto que encontramos, o
irmão que está ao nosso lado! Deixamo-nos inquietar pelas suas necessidades, ou
permanecemos fechados em nós mesmos, nas nossas comunidades, que com frequência
são para nós « comunidades-comodidades »? [80].
• Este é um bom caminho para a santidade! Não falar
mal dos outros. « Mas, padre, há problemas... »: di-lo ao superior, di-lo à
superiora, ao bispo, que pode remediar. Não o digas a quem nada pode fazer.
Isto é importante: fraternidade! Mas diz-me, tu falarás mal da tua mãe, do teu
pai, dos teus irmãos? Nunca. E porque o fazes na vida consagrada, no seminário,
na vida presbiteral? Só isto: pensai, pensai... Fraternidade! Este amor
fraterno! [81].
• Aos pés da cruz, Maria é a mulher da dor e, ao
mesmo tempo, da vigilante espera de um mistério, maior que a dor, que está para
se cumprir. Tudo parece realmente acabado; toda a esperança poderíamos dizer
que se apagou. Também ela, naquele momento, poderia ter exclamado, recordando
as promessas da anunciação: não se cumpriram, fui enganada. Mas não o disse.
Contudo ela, bem-aventurada porque acreditou, desta sua fé vê brotar um futuro
novo e aguarda com esperança o amanhã de Deus. Às vezes, penso: nós sabemos
esperar o amanhã de Deus? Ou queremos o hoje? O amanhã de Deus é para ela o
amanhecer da Páscoa, daquele primeiro dia da semana. Far-nos-á bem pensar, em
contemplação, no abraço do Filho com a Mãe. A única lâmpada acesa no sepulcro
de Jesus é a esperança da Mãe, que naquele momento é a esperança de toda a
Humanidade. Pergunto a mim e a vós: nos mosteiros, esta lâmpada ainda está
acesa? Nos mosteiros, espera-se o amanhã de Deus? [82].
• A inquietação do amor impele-nos sempre a ir ao
encontro do outro, sem esperar que seja o outro a manifestar a sua necessidade.
A inquietação do amor oferece-nos a dádiva da fecundidade pastoral, e nós
devemos perguntar-nos, cada um de nós: como está a minha fecundidade
espiritual, a minha fecundidade pastoral? [83].
• Uma fé autêntica exige sempre um desejo profundo
de mudar o mundo. Eis a pergunta que nos devemos fazer: temos também nós
grandes visões e estímulos? Somos também nós audazes? O nosso sonho voa alto? O
zelo devora-nos (cf. Sl 69, 10), ou somos medíocres e
satisfazemo-nos com as nossas programações apostólicas de laboratório? [84].
Ave
Maria, Mãe da Alegria
13. « Alegra-te, cheia de graça»
(Lc 1, 28). «A saudação do Anjo a Maria constitui um convite à
alegria, a um júbilo profundo; anuncia o fim da tristeza […]. Trata-se de uma
saudação que marca o início do Evangelho, da Boa-Nova » [85].
Junto a Maria, a alegria expande-se: o Filho que
traz no seio é o Deus da alegria, do júbilo que contagia, que envolve. Maria
abre de par em par as portas do coração e corre para Isabel.
« Feliz de realizar o seu desejo, delicada no seu
dever, solícita na sua alegria, apressou-se a dirigir-se para a montanha. Onde,
se não para os cimos, devia solicitamente tender aquela que já estava cheia de
Deus? » [86].
Dirige-se « apressadamente » (Lc 1, 39)
para levar ao mundo o feliz anúncio, a todos a alegria irreprimível que acolhe
no seio: Jesus, o Senhor. Apressadamente: não é apenas a velocidade
com que Maria se move. Exprime-nos a sua diligência, a atenção solícita com que
enfrenta a viagem, o seu entusiasmo.
« Eis a serva do Senhor » (Lc 1, 38). A
serva do Senhor corre apressadamente, para se tornar criada dos
seres humanos.
Em Maria, é a Igreja toda que caminha junta: na
caridade de quem se move ao encontro daquele que é mais frágil; na esperança de
quem sabe que será acompanhado neste seu andar, e na fé de quem tem um dom
especial a partilhar.
Em Maria, cada um de nós, levado pelo vento do
Espírito, vive a própria vocação a ir!
Estrela da nova evangelização,
ajudai-nos a refulgir
com o testemunho da comunhão,
do serviço, da fé ardente e generosa,
da justiça e do amor aos pobres,
para que a alegria do Evangelho
chegue até aos confins da Terra
e nenhuma periferia fique privada da sua luz.
Mãe do Evangelho vivo,
manancial de alegria para os pequeninos,
rogai por nós.
Ámen. Aleluia! [87]
ajudai-nos a refulgir
com o testemunho da comunhão,
do serviço, da fé ardente e generosa,
da justiça e do amor aos pobres,
para que a alegria do Evangelho
chegue até aos confins da Terra
e nenhuma periferia fique privada da sua luz.
Mãe do Evangelho vivo,
manancial de alegria para os pequeninos,
rogai por nós.
Ámen. Aleluia! [87]
Roma, 2 de fevereiro de 2014
Festa da Apresentação do Senhor
Festa da Apresentação do Senhor
João Braz Card. de Aviz
Prefeito
Prefeito
José Rodríguez Carballo, O.F.M.
Arcebispo Secretário
Arcebispo Secretário
[1] Francisco,
Exortação Apostólica Evangelii
gaudium (24 de novembro de 2013), Cidade do Vaticano, Libreria
Editrice Vaticana [LEV], 2013, n. 1.
[2] Com todo o
coração (NdE).
[3] Antonio
Spadaro, «Sede profetas verdadeiros e não brinqueis a sê-lo: Diálogo do
Papa com os Superiores-Gerais dos Institutos de vida religiosa, 29 de novembro
de 2013 », inL’Osservatore Romano, ed. portuguesa, n. 2, domingo, 9 de
janeiro de 2014, p. 8.
[5] Id., « Anunciai
o Evangelho, se necessário também com palavras » – usando a expressão de São
Francisco, o Papa
confiou a sua mensagem aos jovens reunidos em Santa Maria dos Anjos(Assis,
4 de outubro de 2013) –, in L’Osservatore Romano, ed. portuguesa,
n. 41, domingo, 13 de outubro de 2013, p. 9.
[6] Sem glosa, sem
comentário (NdE).
[7] João Paulo II,
Exortação Apostólica pós-sinodal Vida
consagrada (25 de março de 1996), n. 27; AAS 88
(1996), pp. 377-486.
[8] Entre outras
citações, cf. Santa Teresa do Menino Jesus, Obras completas, Cidade
do Vaticano, LEV/Ed. OCD, 1997: Manuscrito A, 76v; B, 1r; C,
3r; Carta 196.
[9] Francisco, «
Autênticos e coerentes » – com os seminaristas e as noviças, o papa Francisco
fala sobre a beleza da consagração (Roma, 6 de julho de 2013) –, in L’Osservatore
Romano, ed. portuguesa, n. 28, domingo, 14 de julho de 2013, p. 5.
[11] Id., «A
evangelização faz-se de joelhos » – na missa conclusiva das jornadas dedicadas
aos seminaristas e às noviças no Ano da Fé (Roma, 7 de julho de 2013)
–, in L’Osservatore Romano, ed. portuguesa, n. 28, domingo, 14 de
julho de 2013, p. 7.
[12] Id., «
Autênticos e coerentes », loc. cit., p. 5.
[13] Id., «Um
caminho de adoração e serviço » – às Superioras- Gerais, o Pontífice recordou
que a consagrada deve ser mãe e não « solteirona » (Roma, 8 de maio de
2013) –, in L’Osservatore Romano, ed. portuguesa, n. 19, domingo,
12 de maio de 2013, p. 2.
[14] Id., «
Para subir ao monte da perfeição » – mensagem do Pontífice aos Carmelitas, por
ocasião do Capítulo Geral (Roma, 22 de agosto de 2013) –, in L’Osservatore
Romano, ed. portuguesa, n. 37, domingo, 15 de setembro de 2013, p. 5.
[15] Id., «
Autênticos e coerentes », loc. cit., p. 4.
[16] Ibidem.
[18] Id., «Com
a inquietação no coração » – aos capitulares agostinianos, o Sumo Pontífice
pediu que se ponham sempre em busca de Deus e do próximo (Roma, 28 de
agosto de 2013) –, inL’Osservatore Romano, ed. portuguesa, n. 35,
domingo, 31 de agosto de 2013, p. 6.
[19] Id., «
Caminhos criativos radicados na Igreja » – o papa Francisco com os seus irmãos
jesuítas, no dia da memória de Santo Inácio de Loiola (Roma, 31 de
julho de 2013) –, inL’Osservatore Romano, ed. portuguesa, n. 31,
domingo, 4 de agosto de 2013, p. 28.
[22] Id., «
Memória de Deus » – na missa, na Praça de São Pedro, no dia que lhes é
dedicado, o Papa falou da missão do catequista (Roma, 29 de setembro
de 2013) –, in L’Osservatore Romano, ed. portuguesa, n. 40,
domingo, 6 de outubro de 2013, p. 5.
[23] Id., «Um
caminho de adoração e serviço », loc. cit., p. 2.
[24] O caminho do
amor (NdE).
[25] Francisco, «
Não super-homens, mas amigos de Deus » – no Angelus, no dia de
Todos os Santos (Roma, 1 de novembro de 2013) –, in L’Osservatore
Romano, ed. portuguesa, n. 45, domingo, 7 de novembro de 2013, p. 8.
[26] João Paulo
II, Exortação Apostólica pós-sinodal Vida
consagrada (25 de março de 1996), n. 22; AAS 88
(1996), pp. 377-486.
[27] Francisco, «
Nas encruzilhadas das estradas » – aos bispos, sacerdotes, religiosos,
religiosas e seminaristas, durante as JMJ, o Papa confiou a missão de formar os
jovens na fé (Rio de Janeiro, 27 de julho de 2013) –, in L’Osservatore
Romano, ed. portuguesa, n. 31, domingo, 4 de agosto de 2013, p. 12.
[28] Id., «A
vocação do ser catequista » – aos catequistas, o Pontífice encorajou a não ter
medo de sair de si mesmo para ir ao encontro do próximo (Roma, 27 de
setembro de 2013) –, inL’Osservatore Romano, ed. portuguesa, n. 40,
domingo, 6 de outubro de 2013, p. 4.
[29] Ambrósio, De
Isaac et anima, 75; PL 14, cols. 556-557.
[32] Id., «A
vocação do ser catequista », loc. cit., p. 4.
[33] Id., «
Caminhos criativos radicados na Igreja », loc. cit., p. 28.
[35] Id., «Com a
inquietação no coração », loc. cit., p. 6.
[38] Id., «A
nossa vida é um caminho » – homilias aos cardeais eleitores (Roma, 14
de março de 2013) –, in L’Osservatore Romano, ed. portuguesa, n.
11, domingo, 17 de março de 2013, p. 9.
[39] Id., «A
evangelização faz-se de joelhos », loc. cit., p. 7.
[40] Id., «A
vocação de ser catequista », loc. cit., p. 4.
[41] Id., «
Coerência entre palavra e vida » – em São Paulo Extramuros, o Papa exortou a
abandonar os ídolos e a adorar o Senhor (Roma, 14 de abril de 2013) –,
in L’Osservatore Romano, ed. portuguesa, n. 16, domingo, 21 de
abril de 2013, p. 9.
[42] Id., «A
evangelização faz-se de joelhos », loc. cit., p. 7.
[43]Congregação para os
Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, Instrução Repartir
de Cristo. Um renovado empenho da vida consagrada no Terceiro Milénio(19
de maio de 2002), n. 25; EnchVat 21, pp. 372-510.
[44] Francisco, «O
homem de olho penetrante » – meditação matinal na capela da Casa de
Santa Marta (16 de dezembro de 2013) –, in L’Osservatore
Romano, ed. típica, segunda e terça-feira, 16-17 de dezembro de 2013, CLIII
(289), p. 7. A edição portuguesa não reproduz o texto.
[45] Id., «A
atração que faz crescer a Igreja » – encontro com os sacerdotes, os religiosos,
as religiosas e os leigos, na catedral de São Rufino (Assis, 4 de
outubro de 2013) –, in L’Osservatore Romano, ed. portuguesa, n. 41,
domingo, 13 de outubro de 2013, p. 6.
[46] Id., «
Autênticos e coeremes », loc. cit., p. 5.
[47] Bento XVI,
Carta Encíclica Deus
caritas est (25 de dezembro de 2005), n. 17; AAS 98
(2006), pp. 217-252.
[48] Francisco, «A
evangelização faz-se de joelhos », loc. cit., p. 7.
[49] ]Cf. Id., «
Autênticos e coerentes », loc. cit., p. 4.
[51] Id., «
Para uma clausura de grande humanidade » – recomendações às Clarissas, na
Basílica de Santa Clara (Assis, 4 de outubro de 2013) –, in L’Osservatore
Romano, ed. portuguesa, n. 41, domingo, 13 de outubro de 2013, p. 7.
[52] Congregação
para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica,
Instrução sobre a vida fraterna em comunidade. « Congregavit nos in
unum Christi amor » (2 de fevereiro de 1994), n. 28; Ench/Vat 14,
pp. 345-537.
[53] Francisco, «Uma
grande família entre o céu e a terra » – na audiência geral, o Papa Francisco
falou sobre a comunhão dos Santos (Roma, 30 de outubro de 2013) –, in L’Osservatore
Romano, ed. portuguesa, n. 44, domingo, 31 de outubro de 2013, p. 16.
[54] Antonio
Spadaro, Sede profetas verdadeiros e não brinqueis a sê-lo, op.
cit., pp. 10 e 11.
[55] Cf.
Francisco, «Um caminho de adoração e serviço », loc. cit., p. 2.
[56] Id., « Nas
encruzilhadas das estradas », loc. cit., pp. 11 e 12.
[57] Antonio
Spadaro, Sede profetas verdadeiros e não brinqueis a sê-lo, op.
cit., p. 10.
[58] Cf. Ibidem,
p. 9.
[59] Francisco, «
Autênticos e coerentes », loc. cit., p. 4.
[60] Cf. Id., «A
humildade é a força do Evangelho » – meditação matinal na capela da Casa
de Santa Marta (1 de outubro de 2013) –, in L’Osservatore
Romano, ed. típica, quarta-feira, 2 de outubro de 2013, CLIII (225), p. 8.
A edição portuguesa não reproduz o texto.
[61] Antonio
Spadaro, Sede profelas verdadeiros e não brinqueis a sê-lo, op.
cit., p. 8.
[62] Cf. Francisco,
« Para uma lgreja que reconduz o homem a casa » – Encontro com os Bispos do
Brasil no Palácio Arquiepiscopal do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, 27 de julho
de 2013) –, inL’Osservatore Romano, ed. portuguesa, n. 31, 4 de
agosto de 2013, p. 16.
[63] Id., « Autênticos
e coerentes », loc. cit., p. 5.
[64] Id., «Com a
inquietação no coração », loc. cit., p. 6.
[65] Cf. Id., «Uma
Igreja que vai ao encontro de todos » – vigília de oração presidida pelo papa
Francisco por ocasião do dia dos movimentos, das novas comunidades, das
associações e das agregações laicais no Ano da Fé (Roma, 18 de maio de 2013) –,
in L’Osservatore Romano, ed. portuguesa, n. 21, domingo, 26 de maio
de 2013, p. 10.
[66] Ibidem,
p. 11.
[67] Id., «Uma
Igreja despojada da mundanidade » – encontro com os pobres, os desempregados e
os imigrantes assistidos pela Cáritas (Assis, 4 de outubro de 2013) –,
in L’Osservatore Romano, ed. portuguesa, n. 41, domingo, 13 de
outubro de 2013, p. 4.
[68] Id., «
Renovação sem temores » – meditação matinal na capela da Casa de Santa Marta (6
de julho de 2013) –, in L’Osservatore Romano, ed. típica, domingo,
7 de julho de 2013, CLIII (154), p. 7. A edição portuguesa não reproduz o
texto.
[69] Antonio
Spadaro, «
Entrevista ao papa Francisco », in L’Osservatore Romano, ed.
portuguesa, n. 39, domingo, 29 de setembro de 2013, p. 21.
[70] Cf.
Francisco, «O
apocalipse que não virá » – discurso ao mundo académico e cultural (Cagliari,
22 de setembro de 2013) –, in L’Osservatore Romano, ed.
portuguesa, n. 39, domingo, 29 de setembro de 2013, p. 8.
[71] Id., «
Favorecer diálogo e encontro » – discurso do Papa à classe dirigente do Brasil (Rio
de Janeiro, 27 de julho de 2013) –, in L’Osservatore Romano, ed.
portuguesa, n. 31, domingo, 4 de agosto de 2013, p. 13.
[72] Cf. Id., «
Homens de fronteira » – discurso do Papa aos membros equipe da revista La
Civiltà Cattolica (Roma, 14 de junho de 2013) –, in L’Osservatore
Romano, ed. portuguesa, n. 25, domingo, 23 de junho de 2013, p. 13.
[74] Ibidem.
[75] Id., «
Autênticos e coerentes », loc. cit., p. 4.
[76] Id., «Com a
inquietação no coração », loc. cit., p. 6.
[77] Id., «
Autênticos e coerentes », loc. cit., p. 4.
[78] Ibidem,
p. 5.
[79] Id., «Com a
inquietaçao no coraçao », loc. cit., p. 6.
[80] Ibidem,
p. 7.
[81] Id., «
Autênticos e coerentes », loc. cit., p. 5.
[82] Id., «
Aqueles que sabem esperar » – às monjas camaldulenses, o Papa indicou Maria
como modelo de esperança (Roma, 21 de novembro de 2013) –, in L’Osservatore
Romano, ed. portuguesa, n. 48, domingo, 28 de novembro de 2013, p. 5.
[83] Id., «Com a
inquietação no coração », loc. cit., p. 7.
[84] Id., «O
Evangelho anuncia-se com a doçura » – na Igreja de Jesus o Papa celebra a missa
de agradecimento pela canonização de Pedro Fabro (Roma, 3 de janeiro de 2014) –,
inL’Osservatore Romano, ed. portuguesa, n. 2, domingo, 9 de janeiro de
2014, p. 7.
[85] Bento XVI, «A
força silenciosa que venceu o ruído das potências do mundo ». Reflexão proposta
pelo Pontífice durante a audiência geral de quarta-feira na sala Paulo VI [Audiência
Geral, Roma, 19 de dezembro de 2012], in: L’Osservatore Romano,
ed. portuguesa, n. 51, sábado, 22 de dezembro de 2012, p. 3.
[86] Ambrósio, Expositio
Evangelii secundum Lucam, II, 19; CCL 14, p. 39.
