MENSAGEM DO PAPA BENTO XVI
PARA A XXVIII JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE
NO RIO DE JANEIRO, EM JULHO DE 2013



«Ide e fazei discípulos entre as nações!» (cf. Mt 28,19)

Queridos jovens,

Desejo fazer chegar a todos vós a minha saudação cheia de alegria e afeto. Tenho a certeza que muitos de vós regressastes a casa da Jornada Mundial da Juventude em Madrid mais «enraizados e edificados em Cristo, firmes na fé» (cf. Col 2,7). Este ano, inspirados pelo tema: «Alegrai-vos sempre no Senhor» (Fil 4,4) celebramos a alegria de ser cristãos nas várias Dioceses. E agora estamos a preparar-nos para a próxima Jornada Mundial, que será celebrada no Rio de Janeiro, Brasil, em julho de 2013.
Desejo, em primeiro lugar, renovar-vos o convite para participardes nesse importante evento. A conhecida estátua do Cristo Redentor, que se eleva sobre aquela bela cidade brasileira, será o símbolo eloquente deste convite: os seus braços abertos são o sinal do acolhimento que o Senhor reservará a todos quantos vierem até Ele, e o seu coração retrata o imenso amor que Ele tem por cada um e cada uma de vós. Deixai-vos atrair por Ele! Vivei essa experiência de encontro com Cristo, junto com tantos outros jovens que se reunirão no Rio para o próximo encontro mundial! Deixai-vos amar por Ele e sereis as testemunhas de que o mundo precisa.
Convido a preparardes-vos para a Jornada Mundial do Rio de Janeiro, meditando desde já sobre o tema do encontro: «Ide e fazei discípulos entre as nações» (cf. Mt 28,19). Trata-se da grande exortação missionária que Cristo deixou para toda a Igreja e que permanece atual ainda hoje, dois mil anos depois. Agora este mandato deve ressoar fortemente no vosso coração. O ano de preparação para o encontro do Rio coincide com o Ano da fé, no início do qual o Sínodo dos Bispos dedicou os seus trabalhos à «nova evangelização para a transmissão da fé cristã». Por isso alegro-me que também vós, queridos jovens, sejais envolvidos neste impulso missionário de toda a Igreja: fazer conhecer Cristo é o dom mais precioso que podeis fazer aos outros.

1. Um chamamento urgente
A história mostra-nos muitos jovens que, através do dom generoso de si mesmos, contribuíram grandemente para o Reino de Deus e para o desenvolvimento deste mundo, anunciando o Evangelho. Com grande entusiasmo, levaram a Boa Nova do Amor de Deus manifestado em Cristo, com meios e possibilidades muito inferiores àqueles de que dispomos hoje em dia. Penso, por exemplo, no Beato José de Anchieta, jovem jesuíta espanhol do século XVI, que partiu em missão para o Brasil quando tinha menos de vinte anos e se tornou um grande apóstolo do Novo Mundo. Mas penso também em tantos de vós que se dedicam generosamente à missão da Igreja: disto mesmo tive um testemunho surpreendente na Jornada Mundial de Madri, em particular na reunião com os voluntários.
Hoje, não poucos jovens duvidam profundamente que a vida seja um bem, e não veem com clareza o próprio caminho. De um modo geral, diante das dificuldades do mundo contemporâneo, muitos se perguntam: E eu, que posso fazer? A luz da fé ilumina esta escuridão, fazendo-nos compreender que toda a existência tem um valor inestimável, porque é fruto do amor de Deus. Ele ama mesmo quem se distanciou ou se esqueceu d’Ele: tem paciência e espera; mais que isso, deu o seu Filho, morto e ressuscitado, para nos libertar radicalmente do mal. E Cristo enviou os seus discípulos para levar a todos os povos este alegre anúncio de salvação e de vida nova.
A Igreja, para continuar esta missão de evangelização, conta também convosco. Queridos jovens, vós sois os primeiros missionários no meio dos jovens da vossa idade! No final do Concílio Ecuménico Vaticano II, cujo cinquentenário celebramos neste ano, o Servo de Deus Paulo VI entregou aos jovens e às jovens do mundo inteiro uma Mensagem que começava com estas palavras: «É a vós, rapazes e raparigas de todo o mundo, que o Concílio quer dirigir a sua última mensagem, pois sereis vós a recolher o facho das mãos dos vossos antepassados e a viver no mundo no momento das mais gigantescas transformações da sua história, sois vós quem, recolhendo o melhor do exemplo e do ensinamento dos vossos pais e mestres, ides constituir a sociedade de amanhã: salvar-vos-eis ou perecereis com ela». E concluía com um apelo: «Construí com entusiasmo um mundo melhor que o dos vossos antepassados!» (Mensagem aos jovens, 8 de dezembro de 1965).
Queridos amigos, este convite é extremamente atual. Estamos a passar por um período histórico muito particular: o progresso técnico deu-nos oportunidades inéditas de interação entre os homens e entre os povos, mas a globalização destas relações só será positiva e fará crescer o mundo em humanidade se estiver fundada não sobre o materialismo mas sobre o amor, a única realidade capaz de encher o coração de cada um e unir as pessoas. Deus é amor. O homem que esquece Deus fica sem esperança e torna-se incapaz de amar o seu semelhante. Por isso é urgente testemunhar a presença de Deus para que todos possam experimentá-la: está em jogo a salvação da humanidade, a salvação de cada um de nós. Qualquer pessoa que entenda essa necessidade, não poderá deixar de exclamar com São Paulo: «Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho» (1 Cor 9,16).

2. Tornai-vos discípulos de Cristo
Este chamamento missionário é dirigido a vós também por outro motivo: é necessário para o nosso caminho de fé pessoal. O Beato João Paulo II escrevia: «É dando a fé que ela se fortalece» (Encíclica Redemptoris missio, 2). Ao anunciar o Evangelho, vós mesmos cresceis num enraizamento cada vez mais profundo em Cristo, tornais-vos cristãos maduros. O compromisso missionário é uma dimensão essencial da fé: não se crê verdadeiramente, se não se evangeliza. E o anúncio do Evangelho não pode ser senão consequência da alegria de ter encontrado Cristo e ter descoberto n’Ele a rocha sobre a qual construir a própria existência. Comprometendo-vos no serviço aos demais e no anúncio do Evangelho, a vossa vida, muitas vezes fragmentada entre tantas atividades diversas, encontrará no Senhor a sua unidade; construir-vos-eis também a vós mesmos; crescereis e amadurecereis em humanidade.
Mas, que significa ser missionário? Significa acima de tudo ser discípulo de Cristo e ouvir sem cessar o convite a segui-Lo, o convite a fixar o olhar n’Ele: «Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração» (Mt 11,29). O discípulo, de fato, é uma pessoa que se põe à escuta da Palavra de Jesus (cf. Lc 10,39), a quem reconhece como o Mestre que nos amou até ao dom da sua vida. Trata-se, portanto, de cada um de vós se deixar plasmar diariamente pela Palavra de Deus: ela vos transformará em amigos do Senhor Jesus, capazes de fazer outros jovens entrar nesta mesma amizade com Ele.
Aconselho-vos a guardar na memória os dons recebidos de Deus, para poderdes transmiti-los ao vosso redor. Aprendei a reler a vossa história pessoal, tomai consciência também do maravilhoso legado recebido das gerações que vos precederam: tantos cristãos nos transmitiram a fé com coragem, enfrentando obstáculos e incompreensões. Não o esqueçamos jamais! Fazemos parte de uma longa cadeia de homens e mulheres que nos transmitiram a verdade da fé e contam connosco para que outros a recebam. Ser missionário pressupõe o conhecimento deste património recebido que é a fé da Igreja: é necessário conhecer aquilo em que se crê, para podê-lo anunciar. Como escrevi na introdução do YouCat, o Catecismo para jovens que vos entreguei no Encontro Mundial de Madrid, «tendes de conhecer a vossa fé como um especialista em informática domina o sistema operacional de um computador. Tendes de compreendê-la como um bom músico entende uma partitura. Sim, tendes de estar enraizados na fé ainda mais profundamente que a geração dos vossos pais, para enfrentar os desafios e as tentações deste tempo com força e determinação» (Prefácio).

3. Ide!
Jesus enviou os seus discípulos em missão com este mandato: «Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura! Quem crer e for batizado será salvo» (Mc 16,15-16). Evangelizar significa levar aos outros a Boa Nova da salvação, e esta Boa Nova é uma pessoa: Jesus Cristo. Quando O encontro, quando descubro até que ponto sou amado por Deus e salvo por Ele, nasce em mim não apenas o desejo, mas a necessidade de fazê-lo conhecido pelos demais. No início do Evangelho de João, vemos como André, depois de ter encontrado Jesus, se apressa em conduzir a Ele o seu irmão Simão (cf. 1,40-42). A evangelização parte sempre do encontro com o Senhor Jesus: quem se aproximou d’Ele e experimentou o seu amor, quer logo partilhar a beleza desse encontro e a alegria que nasce dessa amizade. Quanto mais conhecemos a Cristo, tanto mais queremos anunciá-lo. Quanto mais falamos com Ele, tanto mais queremos falar d’Ele. Quanto mais somos conquistados por Ele, tanto mais desejamos levar outras pessoas para Ele.
Pelo Batismo, que nos gera para a vida nova, o Espírito Santo vem habitar em nós e inflama a nossa mente e o nosso coração: é Ele que nos guia para conhecer a Deus e entrar numa amizade sempre mais profunda com Cristo. É o Espírito que nos impulsiona a fazer o bem, servindo os outros com o dom de nós mesmos. Depois, através do sacramento da Confirmação, somos fortalecidos pelos seus dons, para testemunhar de modo sempre mais maduro o Evangelho. Assim, o Espírito de amor é a alma da missão: Ele impele-nos a sair de nós mesmos para «ir» e evangelizar. Queridos jovens, deixai-vos conduzir pela força do amor de Deus, deixai que este amor vença a tendência de fechar-se no próprio mundo, nos próprios problemas, nos próprios hábitos; tende a coragem de «sair» de vós mesmos para «ir» ao encontro dos outros e guiá-los ao encontro de Deus.

4. Alcançai todos os povos
Cristo ressuscitado enviou os seus discípulos para dar testemunho da sua presença salvífica a todos os povos, porque Deus, no seu amor superabundante, quer que todos sejam salvos e ninguém se perca. Com o sacrifício de amor na Cruz, Jesus abriu o caminho para que todo o homem e toda a mulher possa conhecer a Deus e entrar em comunhão de amor com Ele. E constituiu uma comunidade de discípulos para levar o anúncio salvífico do Evangelho até aos confins da terra, a fim de alcançar os homens e as mulheres de todos os lugares e de todos os tempos. Façamos nosso esse desejo de Deus!
Queridos amigos, estendei o olhar e vede ao vosso redor: tantos jovens perderam o sentido da sua existência. Ide! Cristo precisa de também de vós. Deixai-vos envolver pelo seu amor, sede instrumentos desse amor imenso, para que alcance a todos, especialmente aos «afastados». Alguns encontram-se geograficamente distantes, enquanto outros estão longe porque a sua cultura não dá espaço para Deus; alguns ainda não acolheram o Evangelho pessoalmente, enquanto outros, apesar de o terem recebido, vivem como se Deus não existisse. A todos abramos a porta do nosso coração; procuremos entrar em diálogo com simplicidade e respeito: este diálogo, se vivido com uma amizade verdadeira, dará os seus frutos. Os «povos», aos quais somos enviados, não são apenas os outros Países do mundo, mas também os diversos âmbitos de vida: as famílias, os bairros, os ambientes de estudo ou de trabalho, os grupos de amigos e os locais de lazer. O jubiloso anúncio do Evangelho destina-se a todos os âmbitos da nossa vida, sem exceção.
Gostaria de destacar dois campos, nos quais deve fazer-se ainda mais solícito o vosso empenho missionário. O primeiro é o das comunicações sociais, em particular o mundo da internet. Como tive já oportunidade de dizer-vos, queridos jovens, «senti-vos comprometidos a introduzir na cultura deste novo ambiente comunicador e informativo os valores sobre os quais assenta a vossa vida! [...] A vós, jovens, que vos encontrais quase espontaneamente em sintonia com estes novos meios de comunicação, compete de modo particular a tarefa da evangelização deste “continente digital”» (Mensagem para o XLIII Dia Mundial das Comunicações Sociais, 24 de maio de 2009). Aprendei, portanto, a usar com sabedoria este meio, levando em conta também os perigos que ele traz consigo, particularmente o risco da dependência, de confundir o mundo real com o virtual, de substituir o encontro e o diálogo direto com as pessoas por contatos na rede.
O segundo campo é o da mobilidade. Hoje são sempre mais numerosos os jovens que viajam, seja por motivos de estudo ou de trabalho, seja por diversão. Mas penso também em todos os movimentos migratórios, que levam milhões de pessoas, frequentemente jovens, a transferir-se e mudar de Região ou País, por razões económicas ou sociais. Também estes fenómenos podem tornar-se ocasiões providenciais para a difusão do Evangelho. Queridos jovens, não tenhais medo de testemunhar a vossa fé também nesses contextos: para aqueles com quem vos deparareis, é um dom precioso a comunicação da alegria do encontro com Cristo.

5. Fazei discípulos!
Penso que já várias vezes experimentastes a dificuldade de envolver os jovens da vossa idade na experiência da fé. Frequentemente tereis constatado que em muitos deles, especialmente em certas fases do caminho da vida, existe o desejo de conhecer a Cristo e viver os valores do Evangelho, mas tal desejo é acompanhado pela sensação de ser inadequados e incapazes. Que fazer? Em primeiro lugar, a vossa solicitude e a simplicidade do vosso testemunho serão um canal através do qual Deus poderá tocar o seu coração. O anúncio de Cristo não passa somente através das palavras, mas deve envolver toda a vida e traduzir-se em gestos de amor. A ação de evangelizar nasce do amor que Cristo infundiu em nós; por isso, o nosso amor deve conformar-se sempre mais ao d’Ele. Como o bom Samaritano, devemos manter-nos solidários com quem encontramos, sabendo escutar, compreender e ajudar, para conduzir, quem procura a verdade e o sentido da vida, à casa de Deus que é a Igreja, onde há esperança e salvação (cf. Lc 10,29-37). Queridos amigos, nunca esqueçais que o primeiro ato de amor que podeis fazer ao próximo é partilhar a fonte da nossa esperança: quem não dá Deus, dá muito pouco. Aos seus apóstolos, Jesus ordena: «Fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei» (Mt 28,19-20). Os meios que temos para «fazer discípulos» são principalmente o Batismo e a catequese. Isto significa que devemos conduzir as pessoas que estamos a evangelizar ao encontro com Cristo vivo, particularmente na sua Palavra e nos Sacramentos: assim poderão crer n’Ele, conhecerão a Deus e viverão da sua graça. Gostaria que cada um de vós se perguntasse: Alguma vez tive a coragem de propor o Batismo a jovens que ainda não o receberam? Convidei alguém a seguir um caminho de descoberta da fé cristã? Queridos amigos, não tenhais medo de propor aos jovens da vossa idade o encontro com Cristo. Invocai o Espírito Santo: Ele vos guiará para entrardes sempre mais no conhecimento e no amor de Cristo, e vos tornará criativos na transmissão do Evangelho.

6. Firmes na fé
Diante das dificuldades na missão de evangelizar, às vezes sereis tentados a dizer como o profeta Jeremias: «Ah! Senhor Deus, eu não sei falar, sou muito novo». Mas, também a vós, Deus responde: «Não digas que és muito novo; a todos a quem eu te enviar, irás» (Jr 1,6-7). Quando vos sentirdes inadequados, incapazes e frágeis para anunciar e testemunhar a fé, não tenhais medo. A evangelização não é uma iniciativa nossa nem depende primariamente dos nossos talentos, mas é uma resposta confiante e obediente à chamada de Deus, e portanto não se baseia sobre a nossaforça, mas na d’Ele. Isso mesmo experimentou o apóstolo Paulo: «Trazemos esse tesouro em vasos de barro, para que todos reconheçam que este poder extraordinário vem de Deus e não de nós» (2 Cor 4,7).
Por isso convido-vos a enraizar-vos na oração e nos sacramentos. A evangelização autêntica nasce sempre da oração e é sustentada por esta: para poder falar de Deus, devemos primeiro falar com Deus. E, na oração, confiamos ao Senhor as pessoas às quais somos enviados, suplicando-Lhe que toque o seu coração; pedimos ao Espírito Santo que nos torne seus instrumentos para a salvação dessas pessoas; pedimos a Cristo que coloque as palavras nos nossos lábios e faça de nós sinais do seu amor. E, de modo mais geral, rezamos pela missão de toda a Igreja, de acordo com a ordem explícita de Jesus: «Pedi, pois, ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!» (Mt 9,38). Sabei encontrar na Eucaristia a fonte da vossa vida de fé e do vosso testemunho cristão, participando com fidelidade na Missa ao domingo e sempre que possível também durante a semana. Recorrei frequentemente ao sacramento da Reconciliação: é um encontro precioso com a misericórdia de Deus que nos acolhe, perdoa e renova os nossos corações na caridade. E, se ainda não o recebestes, não hesiteis em receber o sacramento da Confirmação ou Crisma preparando-vos com cuidado e solicitude. Junto com a Eucaristia, esse é o sacramento da missão, porque nos dá a força e o amor do Espírito Santo para professar sem medo a fé. Encorajo-vos ainda à prática da adoração eucarística: permanecer à escuta e em diálogo com Jesus presente no Santíssimo Sacramento, torna-se ponto de partida para um renovado impulso missionário.
Se seguirdes este caminho, o próprio Cristo vos dará a capacidade de ser plenamente fiéis à sua Palavra e de testemunhá-Lo com lealdade e coragem. Algumas vezes sereis chamados a dar provas de perseverança, particularmente quando a Palavra de Deus suscitar reservas ou oposições. Em certas regiões do mundo, alguns de vós sofrem por não poder testemunhar publicamente a fé em Cristo, por falta de liberdade religiosa. E há quem já tenha pagado com a vida o preço da própria pertença à Igreja. Encorajo-vos a permanecer firmes na fé, certos de que Cristo está ao vosso lado em todas as provas. Ele vos repete: «Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus» (Mt 5,11-12).

7. Com toda a Igreja
Queridos jovens, para permanecer firmes na confissão da fé cristã nos vários lugares onde sois enviados, precisais da Igreja. Ninguém pode ser testemunha do Evangelho sozinho. Jesus enviou em missão os seus discípulos juntos: o mandato «fazei discípulos» é formulado no plural. Assim, é sempre como membros da comunidade cristã que prestamos o nosso testemunho, e a nossa missão torna-se fecunda pela comunhão que vivemos na Igreja: seremos reconhecidos como discípulos de Cristo pela unidade e o amor que tivermos uns com os outros (cf. Jo 13,35). Agradeço ao Senhor pela preciosa obra de evangelização que realizam as nossas comunidades cristãs, as nossas paróquias, os nossos movimentos eclesiais. Os frutos desta evangelização pertencem a toda a Igreja: «um é o que semeia e outro o que colhe», dizia Jesus (Jo 4,37).
A propósito, não posso deixar de dar graças pelo grande dom dos missionários, que dedicam toda a sua vida ao anúncio do Evangelho até os confins da terra. Do mesmo modo bendigo o Senhor pelos sacerdotes e os consagrados, que ofertam inteiramente as suas vidas para que Jesus Cristo seja anunciado e amado. Desejo aqui encorajar os jovens chamados por Deus a alguma dessas vocações, para que se comprometam com entusiasmo: «Há mais alegria em dar do que em receber!» (At 20,35). Àqueles que deixam tudo para segui-Lo, Jesus prometeu o cêntuplo e a vida eterna (cf. Mt 19,29).
Dou graças também por todos os fiéis leigos que se empenham por viver o seu dia-a-dia como missão, nos diversos lugares onde se encontram, tanto em família como no trabalho, para que Cristo seja amado e cresça o Reino de Deus. Penso particularmente em quantos atuam no campo da educação, da saúde, do mundo empresarial, da política e da economia, e em tantos outros âmbitos do apostolado dos leigos. Cristo precisa do vosso empenho e do vosso testemunho. Que nada – nem as dificuldades, nem as incompreensões – vos faça renunciar a levar o Evangelho de Cristo aos lugares onde vos encontrais: cada um de vós é precioso no grande mosaico da evangelização!

8. «Aqui estou, Senhor!»
Em suma, queridos jovens, queria vos convidar a escutar no íntimo de vós mesmos a chamada de Jesus para anunciar o seu Evangelho. Como mostra a grande estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, o seu coração está aberto para amar a todos sem distinção, e os seus braços estendidos para alcançar a cada um. Sede vós o coração e os braços de Jesus. Ide testemunhar o seu amor, sede os novos missionários animados pelo seu amor e acolhimento. Segui o exemplo dos grandes missionários da Igreja, como São Francisco Xavier e muitos outros.
No final da Jornada Mundial da Juventude em Madrid, dei a bênção a alguns jovens de diferentes continentes que partiam em missão. Representavam a multidão de jovens que, fazendo eco às palavras do profeta Isaías, diziam ao Senhor: «Aqui estou! Envia-me» (Is 6,8). A Igreja tem confiança em vós e está-vos profundamente grata pela alegria e o dinamismo que trazeis: usai os vossos talentos generosamente ao serviço do anúncio do Evangelho. Sabemos que o Espírito Santo se dá a quantos, com humildade de coração, se tornam disponíveis para tal anúncio. E não tenhais medo! Jesus, Salvador do mundo, está connosco todos os dias, até ao fim dos tempos (cf. Mt28,20).
Dirigido aos jovens de toda a terra, este apelo assume uma importância particular para vós, queridos jovens da América Latina. De fato, na V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada em Aparecida, no ano de 2007, os bispos lançaram uma «missão continental». E os jovens, que constituem a maioria da população naquele continente, representam uma força importante e preciosa para a Igreja e para a sociedade. Por isso sede vós os primeiros missionários. Agora que a Jornada Mundial da Juventude retorna à América Latina, exorto todos os jovens do continente: transmiti aos vossos coetâneos do mundo inteiro o entusiasmo da vossa fé.
A Virgem Maria, Estrela da Nova Evangelização, também invocada sob os títulos de Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora de Guadalupe, acompanhe cada um de vós em vossa missão de testemunhas do amor de Deus. A todos, com especial carinho, concedo a minha Bênção Apostólica.

Vaticano, 18 de outubro de 2012.

BENEDICTUS PP XVI
CORPO NACIONAL DE ESCUTAS – CNE: 
CAMINHO DE ESPERANÇA
Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa


O Corpo Nacional de Escutas completa 90 anos de existência a 27 de maio de 2013. Ao assinalar esta efeméride, queremos manifestar o grande apreço que nutrimos pelo CNE, pois este tem prestado um valoroso e inegável contributo para a educação integral dos jovens, assente no ideal do serviço, em comunhão com a Igreja.
Na Nota Pastoral que em 1995 publicámos sobre o CNE, acentuámos a importância do Escutismo como «Escola de Educação humana e cristã»; agora é nosso desejo sublinhar a importância do CNE na construção de uma sociedade animada pela esperança que brota da fé.
Refletir sobre o caminho percorrido é inspirador de novas linhas de orientação e, por isso, é também nosso desejo convidar todo o CNE a não deixar de elevar as suas metas e ideais na abertura permanente ao Espírito Santo, como aliás decorre da própria pedagogia escutista onde se propõe sempre ir «mais além».

1.    Breve enquadramento histórico
Ao longo dos 90 anos de existência, o CNE evidenciou inequivocamente a sua capacidade de adaptação a cada período histórico em concreto – mesmo no contexto de tantas e profundas mudanças em Portugal no decurso do século XX – sem, contudo, perder a sua identidade. Esse facto objetivo ressalta da apreciação do percurso já traçado pelo Escutismo Católico Português, e é apoiado, em última análise, pela vitalidade de que goza ainda hoje o CNE.
Este longo «raide» foi percorrido por todos os que, ao longo de 90 anos, ajudaram a construir o Escutismo Católico Português, e continua hoje a ser percorrido, quer no silêncio discreto junto de uma unidade escutista local, quer no desempenho de funções de maior visibilidade. Tudo concorre para fazer do CNE aquilo que hoje é.
Sem podermos recordar todas as grandes figuras que alicerçaram o «edifício» já construído – e foram de facto muitas –, é forçoso evocar nesta efeméride o contributo essencial e basilar dado por D. Manuel Vieira de Matos e Monsenhor Avelino Gonçalves. Como é sabido, inspirado pelo desfile de um numeroso grupo de escuteiros italianos por ocasião do Congresso Eucarístico Internacional, que teve lugar em Roma em 1922, o prelado bracarense, recorrendo ao inestimável contributo de Monsenhor Avelino Gonçalves, veio a empreender a nobre tarefa de trazer para Portugal a obra nascente do Escutismo Católico.
O Escutismo tinha já provas dadas em várias partes do mundo, com assinalável sucesso educativo, mas a sua inserção na missão evangelizadora da Igreja encontrava-se ainda em fase embrionária, tendo na pessoa do Padre jesuíta francês Jacques Sevin a principal fonte inspiradora. O seu processo de canonização está introduzido, tendo o Papa Bento XVI já aprovado o decreto das suas «virtudes heroicas», sendo agora Venerável. Dada a forma como nasceu e se desenvolveu, o CNE esteve sempre em sintonia com esse projeto inovador de Escutismo Católico, o que lhe atribui notável eclesialidade.
Considerando o percurso efetuado, a celebração deste aniversário do CNE é também ocasião para assinalar o contributo de todos os que se dedicaram de alma e coração a este projeto educativo e se empenharam no desenvolvimento desta Associação de fiéis. Queremos sublinhar e agradecer o mérito dos dirigentes em manter a identidade cristã do Escutismo. Para tal, importa investir na sua formação humana e cristã.

2. Palavra de Deus e Escutismo
Numa mensagem dirigida a escuteiros católicos italianos (da AGESCI) em 1997, o Papa João Paulo II afirmava: «O vosso fundador, Baden-Powell, gostava de indicar os dois grandes livros que deveis sempre saber ler: o livro da natureza e o livro da Palavra de Deus, a Bíblia. Trata‑se de uma indicação segura e fecunda. Amando a natureza, vivendo nela e respeitando-a, aprendei a unir a vossa voz aos milhares de vozes do bosque que louvam o Senhor; imersos nela, continuai a celebrar os vossos momentos de oração e as vossas liturgias, que permanecerão no coração dos jovens como experiências inesquecíveis. Cultivando a vossa tradição de amor e de estudo da Bíblia, encontrareis veredas e estradas sempre novas para uma catequese original e eficaz, inserida no caminho da catequese da Igreja».
No ano seguinte, num discurso dirigido à Conferência Internacional Católica do Escutismo, afirmou ainda João Paulo II: «O encontro entre o método escutista e as intuições do Pe. Sevin, S.J., permitiu elaborar uma pedagogia baseada nos valores evangélicos».
Já em 2007, por ocasião do centenário do Escutismo, o Papa Bento XVI escreveu: «Fecundado pelo Evangelho, o Escutismo não é só um lugar de autêntico crescimento humano, mas também o lugar de uma proposta cristã forte e de uma verdadeira maturação espiritual e moral, assim como de um autêntico caminho de santidade».
Todos estes textos sublinham a íntima ligação entre o Evangelho e a pedagogia escutista, pese embora o facto de, na sua génese, o Movimento Escutista não estar vinculado a nenhuma confissão religiosa em particular. Em todo o caso, é inegável a influência religiosa nos escritos e propostas de Baden-Powell, de tal forma que chegou a afirmar que o Movimento é todo baseado na religião (1).
Sendo o fundador do Escutismo de forte tradição cristã anglicana, a sua intuição original estava também informada do espírito cristão, nomeadamente no que à Palavra de Deus diz respeito. Isto é, mesmo sem o referir explicitamente, a Palavra de Deus é a fonte inspiradora do Escutismo e, consequentemente, é também a Luz para o caminho de todos os escuteiros. Isso é particularmente visível nos Princípios e na Lei do Escuta, onde se identifica claramente a influência da Palavra de Deus: há um claro paralelismo entre os Mandamentos da Lei, bem como o seu cumprimento no Mandamento Novo, e os dez artigos da Lei do Escuta, tal como as bem-‑aventuranças são efetivamente um código de vida para os escuteiros.
Se o Escutismo está inegavelmente ligado à Palavra de Deus, daí resulta uma dupla e permanente missão: conhecer, aprofundar e viver a partir da Palavra, e encontrar na mesma Palavra o conteúdo e o fundamento para a Missão pois, como reafirmou o Sínodo sobre a Palavra de Deus, «a missão de anunciar a Palavra de Deus é dever de todos os discípulos de Jesus Cristo, em consequência do seu batismo» (2).
Afirma ainda Bento XVI: «A solicitude pelo mundo juvenil implica a coragem de um anúncio claro; devemos ajudar os jovens a ganharem confiança e familiaridade com a Sagrada Escritura, para que seja uma bússola que indica a estrada a seguir. Para isso, precisam de testemunhas e mestres, que caminhem com eles e os orientem para amarem e por sua vez comunicarem o Evangelho, sobretudo aos da sua idade, tornando-se eles mesmos arautos autênticos e credíveis» (3).

3. Escutismo e comunhão
Na Carta Apostólica de João Paulo II «No início do Novo Milénio», o Santo Padre formulou um importante desafio a todos os católicos: «Fazer da Igreja a casa e a escola da comunhão» (4).
Esse desafio, sendo formulado genericamente para a Igreja universal, é também dirigido especificamente a cada Igreja local e a cada Movimento eclesial, como é o caso do CNE. Consequentemente, essa é também uma missão prioritária para o Escutismo Católico Português.
Tal como explica o Sumo Pontífice, «antes de programar iniciativas concretas, é preciso promover uma espiritualidade da comunhão» (5). No caso do Escutismo, essa promoção é já facilitada pelo facto de um dos seus elementos constituintes ser precisamente o chamado «Sistema de Patrulhas», onde a comunhão entre os elementos permite potenciar o desenvolvimento de cada um, representando por isso a maior riqueza do grupo. Este elemento essencial da pedagogia escutista, reproduzido de alguma forma nas diferentes instâncias da Associação, mesmo entre adultos, pode assim ser catalisador da referida espiritualidade de comunhão, desde que:
– cada pessoa tenha o olhar do coração voltado para o mistério da Trindade, que habita em si e cuja luz há de ser percebida também no rosto dos irmãos;
– cada pessoa tenha a capacidade de partilhar as alegrias e as tristezas do irmão, oferecendo-lhe uma verdadeira e profunda amizade, unidos no Corpo místico de Cristo;
– cada pessoa tenha a capacidade de ver o que há de bom no outro, valorizando-o como dom de Deus;
– cada pessoa aceite levar «o fardo do outro» (Gl 6,2) rejeitando qualquer forma de egoísmo (6).
Em todo esse processo, a comunhão sacramental apresenta-se como elemento determinante para que a vida possa, também ela, ser comunhão. Essa é, em síntese, a caminhada espiritual a percorrer.
Finalmente, a comunhão, que o Corpo Nacional de Escutas é chamado a viver, expressa-‑se interna e externamente.
Em primeiro lugar, a própria expressão «Corpo» aponta no sentido da unidade e da comum pertença a algo, não obstante as diferenças. Essa dimensão materializa-se na busca de um rumo comum e torna-se particularmente visível na forma como os Agrupamentos, Núcleos e Regiões articulam as suas metas, planos e ações com o nível nacional. Todos os esforços devem ser feitos nesse sentido, para preservar a unidade do CNE.
Em segundo lugar, a comunhão vivida internamente tem também uma expressão eclesial imprescindível. Desde logo, o pressuposto de que o CNE faz parte da Igreja deve estar sempre presente, inclusive na definição de objetivos e na partilha da comum missão da Igreja. A forma imediata de aferir a solidez deste laço eclesial encontra-se na relação com os Assistentes eclesiásticos das diferentes instâncias, pois cabe-lhes representar a Hierarquia da Igreja no Movimento. Mas a dimensão eclesial remete igualmente para a busca permanente de comunhão com outras instâncias eclesiais de pastoral. A comunhão com outros grupos ou Movimentos é muito importante pois a todos cabe a missão de, «com a vivacidade dos carismas que lhes foram concedidos pelo Espírito Santo para o nosso tempo, oferecer a sua contribuição específica para favorecer nos fiéis a perceção desta sua pertença ao Senhor (Rm 14,8)» (7).

4. Escutismo ao serviço da esperança
O Escutismo surgiu com o objetivo muito concreto de transmitir esperança aos jovens que viviam na ociosidade, entregues a vícios e sem quaisquer horizontes de vida. Desde logo estimulou os jovens a ser artífices do seu próprio desenvolvimento, motivando-os através do jogo e propondo-lhes a adesão pessoal a um quadro de valores sintetizado na Lei escutista. Essa proposta cedo se revelou frutuosa, porquanto se assistiu a uma extraordinária expansão do Movimento que, se era manifestação evidente do interesse que despertava entre os jovens, não era menos prova cabal do reconhecimento geral, da parte de diferentes instituições da sociedade, das virtudes pedagógicas do Escutismo.
Ora, isso deve-se em parte ao facto de o Escutismo ter a capacidade de fazer brotar de dentro de cada jovem as suas mais nobres qualidades, colocando-as ao serviço de Deus e dos irmãos. Dessa forma, o Escutismo veio dar resposta a algumas visões mais céticas sobre a juventude dos «novos tempos», reafirmando que vale a pena acreditar numa nova humanidade, vale a pena acreditar em cada jovem, vale a pena ter esperança. Esse dado continua hoje a ser marcante na sociedade, representando mesmo um dos mais importantes contributos do Escutismo no mundo atual sobretudo considerando que, como referia João Paulo II em 2003, se assistia na Europa a uma espécie de «ofuscamento da esperança» (8).
Baden-Powell, na sua derradeira mensagem, deixava entrever parte do fundamento da esperança, ao afirmar: «Procurai deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrastes e, quando vos chegar a vez de morrer, podeis morrer felizes sentindo que ao menos não desperdiçastes o tempo e fizestes todo o possível por praticar o bem» (9). Apelava assim a uma vida plena, com sentido, entregue ao serviço do bem. No entanto, o principal fundamento da esperança ultrapassa os limites da vida presente, iluminando-a de forma sempre nova e renovada: «A verdadeira e grande esperança do ser humano, que reside apesar de todas as desilusões, só pode ser Deus – o Deus que nos amou, e ama ainda agora “até ao fim”, “até à plena consumação” (Jo 13,1 e 19,30)» (10).
Na medida em que os «deveres para com Deus» são um pilar essencial do Escutismo, e considerando que isso pressupõe o acolhimento de Deus e o reconhecimento dos seus dons na vida quotidiana, pode-se afirmar que o escutismo é um caminho de esperança, pois conduz verdadeiramente a Deus.
Daí resulta que o Movimento Escutista se afigure como uma força ao serviço da esperança de que o mundo tanto necessita, sendo também para a Igreja um precioso instrumento de evangelização, pois ao contribuir para uma vida de abertura a Deus está a apresentar ao mundo o motivo fundamental pelo qual vale a pena ter esperança. Instrumento de evangelização quer através do reconhecimento da Natureza enquanto obra criada por Deus, quer no serviço aos outros segundo a opção preferencial pelos mais pobres, e em todos os outros aspetos pelos quais o Escutismo aproxima as crianças e os jovens de Cristo.

5. Desafios presentes e futuros
Ao assinalar este aniversário, o CNE é também estimulado a uma visão prospetiva sobre a sociedade, para que o contributo educativo que prestou ao longo destes 90 anos mantenha a sua pertinência no presente e no futuro, adaptando as suas respostas às necessidades reais e prementes.
De entre outros, apontamos cinco desafios que se apresentam hoje ao CNE e que podem definir o seu futuro:
– Desafio da identidade. De uma forma ou de outra, a reflexão sobre a identidade do CNE foi acompanhando todo o seu percurso desde a fundação. No entanto, hoje esse aspeto revela-se particularmente emergente, dada a crescente multiculturalidade, bem como o fenómeno da globalização. Acresce ainda o facto de as correntes relativistas e secularistas se manifestarem cada vez mais em determinados grupos, movimentos e associações. Por isso, a capacidade de preservar a sua identidade, enquanto Escutismo Católico Português, é extremamente importante, já que, sendo membro da Organização Mundial do Movimento Escutista é, ao mesmo tempo, Movimento da Igreja e, por isso, está enraizado na fé da Igreja (11) e participa da sua missão.
– Desafio da abertura. Associações que, como o CNE, são numericamente muito expressivas, apresentam estruturas complexas e um elevado número de atividades. Esse facto não deve ser argumento para uma menor abertura do Escutismo à comunidade local e a outras associações ou projetos. O desafio aqui referido consiste na capacidade de harmonizar as duas dimensões de forma equilibrada, permitindo que, sem perder a sua especificidade, o CNE dê um importante contributo para o exterior.
– Desafio da integração. É sabido que o CNE é também um Movimento de fronteira, sendo essa uma das suas notas mais específicas. Com efeito, a sua missão passa pela capacidade de cativar os que ainda não estão inteiramente em sintonia de valores ou ideais, para lhes propor um caminho mais excelente do que todos os outros: o caminho da fé cristã vivida em Igreja e traduzida em caridade. Esse objetivo é exigente e rigoroso, e requer grande clareza de objetivos, bem como a apresentação da verdade a cada pessoa, mesmo que esta possa ser difícil de aceitar. O amor obriga a defender a verdade. Por isso, saber integrar sem perder a linha orientadora revela-se um importante e exigente desafio.
– Desafio da comunhão. Como atrás foi explicitado, a espiritualidade da comunhão é essencial para que as atividades conduzam à referida comunhão. No caso específico do CNE, importa sublinhar a importância da comunhão eclesial, sobretudo com outros grupos paroquiais e com outros Movimentos. A busca de uma mesma meta, não obstante as diferenças, é a única via para a comunhão e, portanto, para o acolhimento do desígnio divino de unidade (cf. Jo 17,11).
– Desafio da evangelização. Este desafio pressupõe tudo o que atrás foi dito: onde houver uma clara identidade católica, onde a abertura ao exterior estiver presente, o Movimento será seguramente evangelizador, numa lógica de integração na verdade e, sobretudo, se a comunhão corresponder a uma íntima ligação a Deus, acolhida e vivida em Igreja, na especificidade do método escutista. Além disso, para ser um Movimento evangelizador, cada escuteiro e Dirigente deve procurar ter na Palavra de Deus o seu alimento quotidiano para que possa crer o que lê, ensinar o que crê e viver o que ensina (12). Daí resulta a evangelização e a necessidade de articular a formação escutista com a catequese paroquial.

A melhor forma de viver o Escutismo consiste em fazê-lo de forma autêntica, segundo a sua pedagogia própria, na adaptação aos tempos novos e na fidelidade aos seus princípios. Se cada escuteiro estiver «Sempre Alerta» praticando dedicadamente o «Serviço», irá descobrir que «há mais felicidade em dar que em receber» (At 20,35) e esse é o caminho de encontro profundo com Jesus Cristo. Nesse sentido, o Escutismo é naturalmente instrumento de evangelização.
Saber integrar esse potencial educativo na missão da Igreja é a tarefa do Escutismo Católico, e é o que se espera também do CNE, para benefício da Igreja. Por isso, é nosso desejo exortar o Escutismo Católico Português a perseverar na missão que lhe é confiada desde a sua fundação: contribuir para que as crianças e jovens descubram Cristo como o sentido último das suas vidas.
É certo que muitos desafios se colocam aos jovens atualmente, como afirmava o Papa Bento XVI: «Apesar das dificuldades, não vos deixeis desanimar e não renuncieis aos vossos sonhos! Pelo contrário, cultivai no coração desejos grandes de fraternidade, de justiça e de paz. O futuro está nas mãos de quem sabe procurar e encontrar razões fortes de vida e de esperança» (13).
Nas mãos de Nossa Senhora, Mãe dos Escutas, entregamos essas altas aspirações, pedindo a bênção materna de Santa Maria para todos os lobitos, exploradores e moços, pioneiros e marinheiros, caminheiros e companheiros, e também para todos os Dirigentes. Maria, estrela-‑do-mar, brilhe sobre cada um de vós, e guie sempre o vosso caminho!

Fátima, 15 de novembro de 2012 


NOTAS:
1 - BADEN-POWELL, O Rasto do Fundador, 153.
2 - BENTO XVI, Exortação Apostólica «Verbum Domini», 94.
3 -Ibidem.
4 -JOÃO PAULO II, Carta Apostólica «Novo Millennio Ineunte», 43.
5 -Ibidem.
6 - Ibidem.
7 -BENTO XVI, Exortação Apostólica «Sacramentum Caritatis», 76.
8 -JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica «Ecclesia in Europa», 7.
9 -BADEN-POWELL, Última Mensagem.
10 - BENTO XVI, Carta Encíclica «Spe Salvi», 27.
11 - BENTO XVI, Os Movimentos na Igreja – Presença do Espírito e Esperança para os Homens, 56.
12 - Do Ritual da Ordenação dos Diáconos.
13 - BENTO XVI, Mensagem para a Jornada Mundial da Juventude de 2010, 7.