MENSAGEM DE NATAL 2012

1. Ocorre este ano o natal enquanto vivemos o Ano da Fé. Temos, por isso, uma ocasião privilegiada para celebrar o natal da fé em Jesus Cristo, o Filho de Deus, “que foi concebido pelo poder do Espírito Santo e nasceu da Virgem Maria” (Símbolo dos Apóstolos).
A profissão da fé na incarnação do Verbo de Deus, parte integrante do Credo da Igreja, concentra em si a riqueza do natal e a sua razão de ser. O natal dos cristãos consiste, em primeiro lugar, na renovação da profissão de fé, segundo a qual, o Menino Jesus do presépio é o único “Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigénito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos” (Credo de Niceia-Constantinopla).
Face a todas as tradições nascidas à volta da quadra natalícia alheias ao seu sentido original, convido os filhos da Igreja a um natal de fé professada, que oferece fundamentos sólidos para a alegria e a festa de Deus e dos homens.

2. A celebração da liturgia do natal, sobretudo na missa, constitui o ponto mais alto do natal cristão, porque nos oferece a possibilidade de reconhecer, na fé, a razão de ser da incarnação do Verbo de Deus e de agradecer a Sua vinda ao nosso encontro.
Como diz o Credo, “por nós homens e para nossa salvação desceu dos céus”. Eis a grande motivação que suporta toda a alegria reinante nos corações e transbordante em muitos sinais de alegria e salvação presentes nas famílias, na Igreja e na sociedade em geral.
Numa atitude de gratidão a Deus pelo amor que nos tem e pela salvação trazida ao mundo por Jesus Cristo, o Verbo Incarnado, celebremos todos a liturgia do natal com espírito festivo.
Que nenhum cristão, mesmo que se considere pouco praticante, deixe de participar na missa do natal. Convido especialmente os que andam distantes da vida da Igreja ou os que vivem situações económicas, familiares e humanas difíceis a reencontrarem de novo a alegria e a paz de coração, em Deus, que é amor feito homem em Jesus. Ouso mesmo incentivar os não crentes, a entrar numa igreja nesta quadra, a contemplar o presépio, a ouvir a voz do silêncio ou a permanecer durante a Missa, pois pode ali revelar-se-lhes o espírito do natal e abrir-se-lhes a porta da fé.

3. O natal da fé professada e celebrada constitui o maior apelo à fé vivida enquanto fonte de uma cultura de comunhão, partilha e dom.
No contexto da crise económica em que nos encontramos, esta cultura manifestase visivelmente em gestos concretos de solidariedade e em atitudes reais de amor, pois o natal potencia a capacidade de as pessoas saírem ao encontro dos outros e torna-se a maior força impulsionadora da fraternidade humana.
Nascido do amor de Deus, que é único, total e nada reserva para si, o natal revelanos que o amor humano pode ultrapassar muitos dos seus limites. A justiça e a solidariedade nas relações sociais, laborais e familiares, juntamente com o amor e a caridade são, por um lado, as exigências que brotam do natal, e, por outro, as razões superiores para que o celebremos.

A toda a comunidade diocesana formulo os melhores votos de santo e feliz natal.

Coimbra, 16 de dezembro de 2012
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra
MENSAGEM DE BOAS FESTAS DE NATAL
Conferência Episcopal Portuguesa

Neste tempo de Natal, queremos levar a cada um dos nossos concidadãos, especialmente aos cristãos das nossas dioceses, uma mensagem de solidariedade e de esperança.
Celebramos o nascimento de Cristo, Deus infinito que Se fez um de nós, assumindo todas as vicissitudes dos seres humanos. Nasceu numa gruta da periferia de Belém, pois Maria e José não conseguiram encontrar uma casa na cidade para os acolher.
O presente clima social não sugere muito «Boas Festas». Escasseiam empregos e bens materiais. É urgente estreitar os laços da família e dos vários círculos de relações e solidariedades; é fundamental comunicarmos com Deus, que em Jesus se torna o mais próximo dos nossos próximos.
Contemplar o mistério da encarnação de Jesus é acolher o pobre, como nos recorda a Mensagem enviada pelo recente Sínodo dos Bispos: «Nas nossas comunidades, deve dar-se um lugar privilegiado aos pobres, um lugar que não exclui ninguém, mas pretende ser um reflexo de como Jesus Se ligou a eles. A presença do pobre nas nossas comunidades é misteriosamente poderosa: muda as pessoas, mais do que um discurso; ensina fidelidade, permite compreender a fragilidade da vida, pede oração; em suma, leva a Cristo. O gesto da caridade, por sua vez, exige ser acompanhado pelo empenho em favor da justiça, com um apelo que a todos envolve, pobres e ricos» (n. 12).
Só quem oferece Natal aos outros pode ter Natal para si. Que os gestos de entreajuda, solidariedade e partilha se multipliquem. A autêntica alegria das Boas Festas está na dádiva altruísta e generosa.
Haverá Boas Festas se o outro for o centro das nossas atenções e serviços, vencendo confortos e rotinas egoístas, tal como Deus que fez de nós o seu centro, oferecendo‑se em pessoa no Jesus do Natal em Belém.
Haverá Boas Festas se soubermos presentear tempo, carinho e ofertas a pessoas que vivem sozinhas, a doentes, crianças ou idosos, e a obras de serviço social. Que a tradicional troca de prendas seja aproveitada para escolher ofertas que sejam ajuda para quem precisa.
Haverá Boas Festas se deixarmos que Jesus nasça no melhor dos presépios, que é o nosso coração, e, neste Ano da Fé, aderirmos mais de alma e coração à pessoa de Jesus. Ele será a nossa força para «intensificar o testemunho de caridade» (Bento XVI, Porta Fidei, 14). Como recordou também recentemente o Santo Padre, falando a nossa língua, «a fé não é um peso, mas uma profunda alegria que transforma toda a vida» (2012.11.28).
O Natal é também uma especial festa da família. Tudo o que possamos fazer para reforçar os laços familiares será humanamente louvável e agradável a Deus, que Se fez da nossa família pelo seu nascimento, nosso irmão universal. Em tempos de crise, mais essencial se torna a solidariedade familiar, o acolhimento e ajuda aos membros que passam por maiores dificuldades.
Queremos fazer eco do cântico dos anjos na noite de Natal: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens que Ele ama», independentemente de culturas, ideologias e credos. A cada um de vós e às vossas famílias desejamos um santo Natal.

Fátima, 11 de dezembro de 2012
Conselho Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa
COMO UMA CIGARRA DA NOITE


Quando falamos de cigarra, talvez associemos imediatamente às, agora saudosas, longas e quentes noites de Verão; ou, então, pensemos na não muito distante afirmação polémica, inspirada na célebre fábula de La Fontaine, de que Portugal é "um país com muitas cigarras e poucas formigas".
Porém, nem só de ociosidade se faz a vida de uma cigarra. Aliás, chegou mesmo a ser, para S. Francisco de Assis, exemplo de um frade contemplativo e devoto, na medida em que passava grande parte da noite a cantar os louvores de Deus. A comparação é tomada de S. Jerónimo, que usa a expressão «esto cicada noctium» (Epist. 22, Ad Eustochium: PL 22, 405). S. Boaventura conta até como uma cigarra incentivou S. Francisco e os seus companheiros a louvar a Deus durante oito dias:
«Em Santa Maria da Porciúncula, uma cigarra foi instalar-se numa figueira mesmo junto da cela do homem de Deus. O seu canto levava-o muitas vezes a louvar a Deus, pois aprendera a admirar a magnificência do Criador, masmo nas coisas mais pequeninas. Um dia, chamou por ela. E a cigarra, como guiada do alto, veio poisar-lhe na mão. Disse-lhe ele: «Canta, irmã cigarra! Com a tua música estridente louva o Senhor que te criou!» Ela obedeceu e pôs-se a ziziar na mão do Santo, e só parou quando ele lhe deu ordens para regressar à sua árvore. Aí ficou durante uma semana, vindo todos os dias dar o seu concerto e voltando em seguida ao seu poiso, conforme ele lhe mandava. Por fim, disse ele aos companheiros: «Vamos fazer as despedidas à nossa irmã cigarra, que tanto nos deleitou com os seus descantes e durante oito dias nos incentivou nos louvores de Deus».  Recebendo a permissão de ir embora, foi-se e não voltou mais àquele lugar, como se não quisesse transgredir a ordem recebida». (S. Boaventura, Legenda Maior, VIII, 9).
Na verdade, trata-se de uma imagem bem adequada daquilo que deve ser um padre em «peregrinação nos desertos do mundo contemporâneo» (Bento XVI, na homilia de abertura do Ano da Fé), onde «são necessárias sobretudo pessoas de fé que, com a sua própria vida, indiquem o caminho para a Terra prometida e mantenham viva a esperança» (idem).
Ao celebrar um ano de sacerdócio, também eu quero cantar os louvores de Deus, confiado de que «por amor de Sião não me calarei, por amor de Jerusalém não terei repouso, enquanto a sua justiça não despontar como a aurora e a sua salvação como facho ardente» (Is 62, 1).  

Pe. João Pedro Silva