OBRIGADO PAI NATAL!



Não sei se devia ser eu a dizer-vos mas, na verdade, as crianças não acreditam no Pai Natal. E não imaginam que cento e muitos quilos de ternura, uns pares de renas, algumas toneladas de presentes e o trenó voem, assim, sem uma ventoinha estridente e colorida, ou uma qualquer coisa ruidosa que anuncie, desde muito longe, que a bondade das pessoas está, outra vez, mais ou menos para chegar. Já agora, as crianças também condescendem a propósito das chaminés. E percebem que, mesmo com os exaustores deste país de braços caídos, se (de esgalgarão) tombassem por elas abaixo todos os presentes do Pai Natal acordariam até os mais rebeldes dorminhocos. Há, portanto, qualquer coisa de muito emaranhado nisto tudo. E eu não entendo que haja quem deixe que se misturem histórias batoteiras no espírito do Natal.

Imagino que só alguém assustadiço - por nos sentir capazes de acreditar que a bondade das pessoas estaria, outra vez, mais ou menos para chegar - vos tenha dito, um dia, que o pai Natal, afinal, era mentira. Pois bem: chegou a altura de falarmos verdade. O Pai Natal… existe! É assim como um avó do céu. Um pai de todos pais. Um pirata - dos bons! – que resgata os tesouros que os pais escondem, todos os dias, dentro de si, como se fossem tolices de criança. «Estou triste», «tenho medo» ou «quero colo» são as verdadeiras renas do país do Natal. Mal balbuciam, mesmo de forma trapalhona, estas palavras com o seu quê de “abracadabra, e logo os pais são erguidos (não se sabe por quem) e, em silêncio, o seu olhar pesadão sobrevoa cordilheiras, longos prados, lagos, bosques e outros lugares onde o silêncio os torna mais pensativos e mais bonitos. E, sem nunca saírem do lugar, são levados, até a um mimo farfalhudo que os aninha e aconchega. As palavras que nunca nos dizemos são as verdadeiras renas do país do Natal!
Não, quem gosta de nós não surge sempre que precisamos. Na verdade, as pessoas que nos tornam especiais aparecem quando menos as esperamos. E sempre que nos sentem e nos imaginam, enfeitam-nos de luz e são… o Pai Natal. Parece mentira mas é verdade: é o mimo que faz com que seja Natal mais ou menos todos os dias.

Não sei se devia ser eu a dizer-vos mas, na verdade, as crianças só acreditam no Pai Natal porque, sempre que dão mimo a essa história batoteira, os pais ganham a luz misteriosa que só as pessoas que confiam nas suas mentiras parecem acarinhar. E é só porque ficam enternecidas ao roçarem o seu olhar no deles - quando, de língua de fora, fazem as melhores das suas letras, sempre que escrevem ao Pai Natal – que os desculpam, mesmo que alguém lhes tenha já dito, uma e outra e outras vezes, que é feio que se minta. Mas os pais ficam presentes tão coloridos quando, um bocadinho atabalhoados, se atropelam nas suas histórias, que o coração duma criança vacila, de ternura. Então quando mentem sobre renas e chaminés parecem mais pais, quando menos os esperamos, e deixam de ser os mais rebeldes dos dorminhocos! Se nos faltam as fotografias que podíamos ter deles quando nos fitam como se fossemos o seu presente, é porque tudo o que é mágico (e nos faz sentir especiais) nos enche de enfeites que, mesmo que se arme em atrevida, qualquer película que ouse apanhar-nos de surpresa, se atrapalha com a luz e se comove. E, logo que se compenetra, já só apanha o rasto que todas as pessoas que se sentem amadas deixam no céu, sempre que sobrevoam as outras que vivem - pesadonas – invejosas por não conseguirem acreditar que cento e muitos quilos de ternura, uns pares de renas, algumas toneladas de presentes e o trenó voam, assim, sem uma ventoinha estridente e colorida.

Obrigado Pai Natal! Obrigado por ajudares tantas pessoas – que parecem rezingonas, sorumbáticas, feias, hostis ou enfadonhas – a descobrirem, por um bocadinho, que podem brincar, outra vez. Sem uma qualquer coisa ruidosa que anuncie, desde muito longe, que a bondade está, outra vez, mais ou menos para chegar – obrigado por deixares que, mesmo sem nunca saírem do lugar, elas sejam levadas até a um mimo farfalhudo que as aninhe e aconchegue. Se, ainda assim, neste enorme faz-de-conta, existires (como acredito…), gostava de te pedir que, como um pirata dos bons, resgatasses os tesouros que os pais escondem, todos os dias, dentro de si, como se fossem tolices de criança. E lhes dissesses que «estou triste», «tenho medo» ou «quero colo» - como todas as palavras que nunca nos dizemos - são as verdadeiras renas do país do Natal.

Eduardo Sá, Pais & Filhos

MENSAGEM DE NATAL 2012

1. Ocorre este ano o natal enquanto vivemos o Ano da Fé. Temos, por isso, uma ocasião privilegiada para celebrar o natal da fé em Jesus Cristo, o Filho de Deus, “que foi concebido pelo poder do Espírito Santo e nasceu da Virgem Maria” (Símbolo dos Apóstolos).
A profissão da fé na incarnação do Verbo de Deus, parte integrante do Credo da Igreja, concentra em si a riqueza do natal e a sua razão de ser. O natal dos cristãos consiste, em primeiro lugar, na renovação da profissão de fé, segundo a qual, o Menino Jesus do presépio é o único “Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigénito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos” (Credo de Niceia-Constantinopla).
Face a todas as tradições nascidas à volta da quadra natalícia alheias ao seu sentido original, convido os filhos da Igreja a um natal de fé professada, que oferece fundamentos sólidos para a alegria e a festa de Deus e dos homens.

2. A celebração da liturgia do natal, sobretudo na missa, constitui o ponto mais alto do natal cristão, porque nos oferece a possibilidade de reconhecer, na fé, a razão de ser da incarnação do Verbo de Deus e de agradecer a Sua vinda ao nosso encontro.
Como diz o Credo, “por nós homens e para nossa salvação desceu dos céus”. Eis a grande motivação que suporta toda a alegria reinante nos corações e transbordante em muitos sinais de alegria e salvação presentes nas famílias, na Igreja e na sociedade em geral.
Numa atitude de gratidão a Deus pelo amor que nos tem e pela salvação trazida ao mundo por Jesus Cristo, o Verbo Incarnado, celebremos todos a liturgia do natal com espírito festivo.
Que nenhum cristão, mesmo que se considere pouco praticante, deixe de participar na missa do natal. Convido especialmente os que andam distantes da vida da Igreja ou os que vivem situações económicas, familiares e humanas difíceis a reencontrarem de novo a alegria e a paz de coração, em Deus, que é amor feito homem em Jesus. Ouso mesmo incentivar os não crentes, a entrar numa igreja nesta quadra, a contemplar o presépio, a ouvir a voz do silêncio ou a permanecer durante a Missa, pois pode ali revelar-se-lhes o espírito do natal e abrir-se-lhes a porta da fé.

3. O natal da fé professada e celebrada constitui o maior apelo à fé vivida enquanto fonte de uma cultura de comunhão, partilha e dom.
No contexto da crise económica em que nos encontramos, esta cultura manifestase visivelmente em gestos concretos de solidariedade e em atitudes reais de amor, pois o natal potencia a capacidade de as pessoas saírem ao encontro dos outros e torna-se a maior força impulsionadora da fraternidade humana.
Nascido do amor de Deus, que é único, total e nada reserva para si, o natal revelanos que o amor humano pode ultrapassar muitos dos seus limites. A justiça e a solidariedade nas relações sociais, laborais e familiares, juntamente com o amor e a caridade são, por um lado, as exigências que brotam do natal, e, por outro, as razões superiores para que o celebremos.

A toda a comunidade diocesana formulo os melhores votos de santo e feliz natal.

Coimbra, 16 de dezembro de 2012
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra
MENSAGEM DE BOAS FESTAS DE NATAL
Conferência Episcopal Portuguesa

Neste tempo de Natal, queremos levar a cada um dos nossos concidadãos, especialmente aos cristãos das nossas dioceses, uma mensagem de solidariedade e de esperança.
Celebramos o nascimento de Cristo, Deus infinito que Se fez um de nós, assumindo todas as vicissitudes dos seres humanos. Nasceu numa gruta da periferia de Belém, pois Maria e José não conseguiram encontrar uma casa na cidade para os acolher.
O presente clima social não sugere muito «Boas Festas». Escasseiam empregos e bens materiais. É urgente estreitar os laços da família e dos vários círculos de relações e solidariedades; é fundamental comunicarmos com Deus, que em Jesus se torna o mais próximo dos nossos próximos.
Contemplar o mistério da encarnação de Jesus é acolher o pobre, como nos recorda a Mensagem enviada pelo recente Sínodo dos Bispos: «Nas nossas comunidades, deve dar-se um lugar privilegiado aos pobres, um lugar que não exclui ninguém, mas pretende ser um reflexo de como Jesus Se ligou a eles. A presença do pobre nas nossas comunidades é misteriosamente poderosa: muda as pessoas, mais do que um discurso; ensina fidelidade, permite compreender a fragilidade da vida, pede oração; em suma, leva a Cristo. O gesto da caridade, por sua vez, exige ser acompanhado pelo empenho em favor da justiça, com um apelo que a todos envolve, pobres e ricos» (n. 12).
Só quem oferece Natal aos outros pode ter Natal para si. Que os gestos de entreajuda, solidariedade e partilha se multipliquem. A autêntica alegria das Boas Festas está na dádiva altruísta e generosa.
Haverá Boas Festas se o outro for o centro das nossas atenções e serviços, vencendo confortos e rotinas egoístas, tal como Deus que fez de nós o seu centro, oferecendo‑se em pessoa no Jesus do Natal em Belém.
Haverá Boas Festas se soubermos presentear tempo, carinho e ofertas a pessoas que vivem sozinhas, a doentes, crianças ou idosos, e a obras de serviço social. Que a tradicional troca de prendas seja aproveitada para escolher ofertas que sejam ajuda para quem precisa.
Haverá Boas Festas se deixarmos que Jesus nasça no melhor dos presépios, que é o nosso coração, e, neste Ano da Fé, aderirmos mais de alma e coração à pessoa de Jesus. Ele será a nossa força para «intensificar o testemunho de caridade» (Bento XVI, Porta Fidei, 14). Como recordou também recentemente o Santo Padre, falando a nossa língua, «a fé não é um peso, mas uma profunda alegria que transforma toda a vida» (2012.11.28).
O Natal é também uma especial festa da família. Tudo o que possamos fazer para reforçar os laços familiares será humanamente louvável e agradável a Deus, que Se fez da nossa família pelo seu nascimento, nosso irmão universal. Em tempos de crise, mais essencial se torna a solidariedade familiar, o acolhimento e ajuda aos membros que passam por maiores dificuldades.
Queremos fazer eco do cântico dos anjos na noite de Natal: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens que Ele ama», independentemente de culturas, ideologias e credos. A cada um de vós e às vossas famílias desejamos um santo Natal.

Fátima, 11 de dezembro de 2012
Conselho Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa