DOIS MODOS DE AGIR,
UMA MESMA FIDELIDADE
Há mais ou menos oito anos víamos como um Papa, o Papa João Paulo II, resistia até ao extremo das suas forças para levar até ao fim a missão que lhe fora confiada. Agora soubemos que outro Papa, o Papa Bento XVI, apresentou a sua renúncia.
Há oito anos, muito se discutia, dentro e fora da
Igreja, se João Paulo II devia "abdicar", já que estava
manifestamente incapacitado para exercer convenientemente o seu mandato, devido
à idade e à falta de saúde. Entre os fiéis católicos, porém, muitos defendiam
que o Papa devia permanecer na Sede de Pedro até ao fim dos seus dias. Era,
diziam, um testemunho para o mundo. Um mundo em que as pessoas idosas contam
pouco mais que nada, em que a imagem é tudo, um mundo que valoriza as pessoas
por aquilo que fazem e não pelo que são. O Papa Wojtyla surgia então como uma
luz, ténue é verdade, mas uma luz que iluminava caminhos de fidelidade e de
compromisso, bem para lá do "apetecer" ou da imagem a manter. E esta
foi a opção clara de João Paulo II. Discutível? Sim. E a atitude assumida hoje
por Bento XVI mostra, pelo menos, que há outros caminhos. Mas a posição de João
Paulo II foi, então e de facto, um testemunho de fidelidade e de entrega como
poucos.
Surpreendentemente, Bento XVI apresentou aos cardeais em Consistório a sua renúncia: "Bem consciente da gravidade deste acto - afirma o Papa -, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de bispo de Roma, sucessor de São Pedro." As razões são declaradas com uma lucidez, humildade e clareza notáveis: "... no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado."
Surpreendentemente, Bento XVI apresentou aos cardeais em Consistório a sua renúncia: "Bem consciente da gravidade deste acto - afirma o Papa -, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de bispo de Roma, sucessor de São Pedro." As razões são declaradas com uma lucidez, humildade e clareza notáveis: "... no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado."
Esta decisão apanhou o mundo inteiro de surpresa.
Percebeu-se pelas reacções dos próprios cardeais que, até para os colaboradores
mais directos do Papa, esta declaração não era de todo esperada. De facto,
assim reagiu o cardeal decano, Angelo Sodano: "Ouvimo-la [a sua comovida
comunicação] com um sentimento de perplexidade, quase completamente
incrédulos." Por muito apoiada e bem acompanhada que uma pessoa esteja, as
grandes decisões da vida são tomadas na solidão. Ainda mais quando a pessoa de
quem falamos é um Papa. Ainda mais quando a decisão que ele toma é algo que muito
raramente aconteceu na história da Igreja e que altera necessariamente o modo
de pensar e de actuar a que nos habituámos. Para quem tanto fora acusado de
tradicionalista e retrógrado, há que lhe reconhecer a liberdade e a coragem de
assumir uma opção que é tudo menos tradicional. Um Papa não abdica. Pelo menos
assim diz a tradição. Com esta renúncia, Bento XVI sabe que está a abrir novas
portas no modo de exercer o Papado, está a fazer Tradição.
O interessante, no meio de todo este acontecimento,
é que os cristãos não se sentem defraudados. Mesmo aqueles que defenderam que
João Paulo II devia permanecer na Cadeira de Pedro até morrer, sentem hoje uma
paz grande - depois da perplexidade própria da surpresa - ao lerem o discurso
de renúncia de Bento XVI. Porquê? É que a motivação que levou o Papa Wojtyla a
manter-se até morrer e que conduz o Papa Ratzinger a resignar é uma e a mesma
motivação. São tão-só dois modos antagónicos de viverem e exprimirem o amor
inquestionável à Igreja e ao mundo. Para um, o testemunho de ficar até ao fim
era, então, essencial para mostrar como "da cruz não se abdica"; para
o outro, a necessidade que o mundo actual tem de uma Igreja que possa responder
às "rápidas mudanças e às questões de grande relevância para a vida da
fé", requer um Papa cujo vigor Bento XVI sente escapar-lhe.
As opções são diferentes, mas a fidelidade à missão
de Pedro é a mesma: anunciar a liberdade com que Cristo nos libertou.
Miguel Almeida, S. J. (Público, 14/02/2013)


