Desde que
a Maria João e eu fizemos dez anos de casados que estou para escrever sobre o
casamento. Depois caí na asneira de ler uns livros profissionais sobre o
casamento e percebi que eu não percebo nada sobre o casamento.
Confesso
que a minha ambição era a mais louca de todas: revelar os segredos de um
casamento feliz. Tendo descoberto que são desaconselháveis os conselhos que ia
dar, sou forçado a avisar que, quase de certeza, só funcionam no nosso
casamento.
Mas vou
dá-los à mesma, porque nunca se sabe e porque todos nós somos muito mais
parecidos do que gostamos de pensar.
O
casamento feliz não é nem um contrato nem uma relação. Relações temos nós com
toda a gente. É uma criação. É criado por duas pessoas que se amam.
O nosso
casamento é um filho. É um filho inteiramente dependente de nós. Se nós nos
separarmos, ele morre. Mas não deixa de ser uma terceira entidade.
Quando
esse filho é amado por ambos os casados - que cuidam dele como se cuida de um
filho que vai crescendo -, o casamento é feliz. Não basta que os casados se
amem um ao outro. Têm também de amar o casamento que criaram.
O nosso
casamento é uma cultura secreta de hábitos, métodos e sistemas de comunicação.
Todos foram criados do zero, a partir do material do eu e do tu originais.
Foram
concordados, são desenvolvidos, são revistos, são alterados, esquecidos e
discutidos. Mas um casamento feliz com dez anos, tal como um filho de dez anos,
tem uma personalidade mais rica e mais bem sustentada, expressa e divertida do
que um bebé com um ano de idade.
Eu só vivo
desta maneira - que é o nosso casamento - vivendo com a Maria João, da maneira
como estamos um com o outro, casados. Nada é exportável. Não há bocados do
nosso casamento que eu possa levar comigo, caso ele acabe.
O casamento
é um filho carente que dá mais prazer do que trabalho. Dá-se de comer ao bebé
mas, felizmente, o organismo do bebé é que faz o trabalho dificílimo, embora
automático, de converter essa comida em saúde e crescimento.
Também o
casamento precisa de ser alimentado mas faz sozinho o aproveitamento do que lhe
damos. Às vezes adoece e tem de ser tratado com cuidados especiais. Às vezes os
casamentos têm de ir às urgências. Mas quanto mais crescem, menos emergências
há e melhor sabemos lidar com elas.
Se calhar, os casais apaixonados que têm filhos também ganhariam em pensar no primeiro filho que têm como sendo o segundo. O filho mais velho é o casamento deles. É irmão mais velho do que nasce e ajuda a tratar dele. O bebé idealmente é amado e cuidado pela mãe, pelo pai e pelo casamento feliz dos pais.
Se calhar, os casais apaixonados que têm filhos também ganhariam em pensar no primeiro filho que têm como sendo o segundo. O filho mais velho é o casamento deles. É irmão mais velho do que nasce e ajuda a tratar dele. O bebé idealmente é amado e cuidado pela mãe, pelo pai e pelo casamento feliz dos pais.
Se o
primeiro filho que nasce é considerado o primeiro, pode apagar o casamento ou
substitui-lo. Os pais jovens - os homens e as mulheres - têm de tomar conta de
ambos os filhos. Se a mãe está a tratar do filho em carne e osso, o pai, em vez
de queixar-se da falta de atenção, deve tratar do mais velho: do casamento
deles, mantendo-o romântico e atencioso.
Ao
contrário dos outros filhos, o primeiro nunca sai de casa, está sempre lá. Vale
a pena tratar dele. Em contrapartida, ao contrário dos outros filhos,
desaparece para sempre com a maior das facilidades e as mais pequenas
desatenções. O casamento feliz faz parte da família e faz bem a todos os que
também fazem parte dela.
Os livros
que li dão a ideia de que os casamentos felizes dão muito trabalho. Mas se dão
muito trabalho como é que podem ser felizes? Os livros que li vêem o casamento
como uma relação entre duas pessoas em que ambas transigem e transaccionam para
continuarem juntas sem serem infelizes. Que grande chatice!
Quando
vemos o trabalho que os filhos pequenos dão aos pais, parece-nos muito e mal
pago, porque não estamos a receber nada em troca. Só vemos a despesa: o miúdo
aos berros e a mãe aflita, a desfazer-se em mimos.
É a mesma
coisa com os casamentos felizes. Os pais felizes reconhecem o trabalho que os
filhos dão mas, regra geral, acham que vale a pena. Isto é, que ficaram a
ganhar, por muito que tenham perdido. O que recebem do filho compensa o que lhe
deram. E mais: também pensam que fizeram bem ao filho. Sacrificam-se mas
sentem-se recompensados. Num casamento feliz, cada um pensa que tem mais a
perder do que o outro, caso o casamento desapareça. Sente que, se isso
acontecer, fica sem nada. É do amor. Só perdeu o casamento deles, que eles
criaram, mas sente que perdeu tudo: ela, o casamento deles e ele próprio, por
já não se reconhecer sozinho, por já não saber quem é - ou querer estar com
essa pessoa que ele é.
Se o
casamento for pensado e vivido como uma troca vantajosa - tu dás-me isto e eu
dou-te aquilo e ambos ficamos melhores do que se estivéssemos sozinhos -, até
pode ser feliz, mas não é um casamento de amor.
Quando se
ama, não se consegue pensar assim. E agora vem a parte em que se percebe que
estes conselhos de nada valem - porque quando se ama e se é amado, é fácil
ser-se feliz. É uma sorte estar-se casado com a pessoa que se ama, mesmo que
ela não nos ame.
Ouvir um
casado feliz a falar dos segredos de um casamento feliz é como ouvir um
bilionário a explicar como é que se deve tomar conta de uma frota de aviões
particulares - quantos e quais se devem comprar e quais as garrafas que se deve
ter no bar, para agradar aos convidados.
Dirijo-me
então às únicas pessoas que poderão aproveitar os meus conselhos: homens
apaixonados pelas mulheres com quem estão casados.
E às
mulheres apaixonadas pelos homens com quem estão casadas? Não tenho nada a
dizer. Até porque a minha mulher continua a ser um mistério para mim. É um
mistério que adoro, mas constitui uma ignorância especulativa quase total.
Assim
chego ao primeiro conselho: os homens são homens e as mulheres são mulheres. A
mulher pode ser muito amiga, mas não é um gajo. O marido pode ser muito amigo,
mas não é uma amiga.
Nos livros
profissionais, dizem que a única grande diferença entre homens e mulheres é a
maneira como "lidam com o conflito": os homens evitam mais do que as
mulheres. Fogem. Recolhem-se, preferem ficar calados.
Por acaso
é verdade. Os livros podem ser da treta mas os homens são mais fugidios.
Em vez de
lutar contra isso, o marido deve ceder a essa cobardia e recolher-se sempre que
a discussão der para o torto. Não pode ser é de repente. Tem de discutir
(dizê-las e ouvi-las) um bocadinho antes de fugir.
Não pode é
sair de casa ou ir ter com outra pessoa. Deve ficar sozinho, calado, a fumegar
e a sofrer. Ele prende-se ali para não dizer coisas más.
As más
coisas ditas não se podem desdizer. Ficam ditas. São inesquecíveis. Ou, pior
ainda, de se repetirem tanto, banalizam-se. Perdem força e, com essa força,
perde-se muito mais.
As zangas
passam porque são substituídas pela saudade. No momento da zanga, a solidão
protege-nos de nós mesmos e das nossas mulheres. Mas pouco - ou muito - depois,
a saudade e a solidão tornam-se insuportáveis e zangamo-nos com a própria
zanga. Dantes estávamos apenas magoados. Agora continuamos magoados mas também
estamos um bocadinho arrependidos e esperamos que ela também esteja um
bocadinho.
Nunca
podemos esconder os nossos sentimentos mas podemos esconder-nos até poder mostrá-los
com gentileza e mágoa que queira mimo e não proclamação.
Consiste
este segredo em esperar que o nosso amor por ela nos puxe e nos conduza. A
tempestade passa, fica o orgulho mas, mesmo com o orgulho, lá aparece a saudade
e a vontade de estar com ela e, sobretudo, empurrador, o tamanho do amor que
lhe temos comparado com as dimensões tacanhas daquela raivinha ou mágoa. Ou
comparando o que ganhamos em permanecer ali sozinhos com o que perdemos por não
estar com ela.
Mas não se
pode condescender ou disfarçar. Para haver respeito, temos de nos fazer
respeitar. Tem de ficar tudo dito, exprimido com o devido amuo de parte a
parte, até se tornar na conversa abençoada acerca de quem é que gosta menos do
outro. Há conflitos irresolúveis que chegam para ginasticar qualquer casal
apaixonado sem ter de inventar outros. Assim como o primeiro dever do médico é
não fazer mal ao doente, o primeiro cuidado de um casamento feliz é não
inventar e acrescentar conflitos desnecessários.
No
dia-a-dia, é preciso haver arenas designadas onde possamos marrar uns com os
outros à vontade. No nosso caso, é a cozinha. Discutimos cada garfo, cada
pitada de sal, cada lugar no frigorífico com desabrida selvajaria.
Carregamos
a cozinha de significados substituídos - violentos mas saudáveis e, com um
bocadinho de boa vontade, irreconhecíveis. Não sabemos o que representam as
cores dos pratos nas discussões que desencadeiam. Alguma coisa má -
competitiva, agressiva - há-de ser. Poderíamos saber, se nos déssemos ao
trabalho, mas preferimos assim.
A cozinha
está encarregada de representar os nossos conflitos profundos, permanentes e,
se calhar, irresolúveis. Não interessa. Ela fornece-nos uma solução superficial
e temporária - mas altamente satisfatória e renovável. Passando a porta da
cozinha para irmos jantar, é como se o diabo tivesse ficado lá dentro.
Outro
coliseu de carnificina autorizada, que mesmo os casais que não podem um com o
outro têm prazer em frequentar, é o automóvel. Aí representamos, através da
comodidade dos mapas e das estradas mesmo ali aos nossos pés, as nossas brigas
primais acerca das nossas autonomias, direcções e autoridades para tomar
decisões que nos afectam aos dois, blá blá blá.
Vendo bem,
os casamentos felizes são muito mais dramáticos, violentos, divertidos e
surpreendentes do que os infelizes. Nos casamentos infelizes é que pode haver,
mantidas inteligentemente as distâncias, paz e sossego no lar.
Miguel Esteves Cardoso, in "Jornal Público"


