CONFERÊNCIA DE D. JOSÉ POLICARPO NAS JORNADAS PASTORAIS DA CEP
A evolução cultural e a evolução da sociedade
portuguesa
1. A evolução da cultura é um fator importante, porventura decisivo,
na evolução da sociedade. É uma influência recíproca: a cultura e a sua
evolução, influencia ou mesmo decide da evolução da sociedade; mas as
transformações da sociedade têm grande influência na “mutação cultural”, isto
é, nas alterações sucessivas da cultura.
Não há sociedades sem cultura, pois trata-se do homem em comunidade, em
convivência com todos os outros homens, a qual é motivada por valores, isto
é, por ideais de vida humana. As alterações na compreensão da vida em
sociedade, são fator importante na evolução cultural. Quando essa compreensão
da vida humana se altera, pode perder-se a referência à matriz cultural de um
povo e navegarmos num quadro cultural que já não promove a dignidade e a
grandeza da pessoa humana.
Para compreendermos as evoluções cultuais temos de ter, como pano de fundo,
uma noção de cultura. Servimo-nos aqui da noção de cultura do Concílio
Vaticano II (cf. GS, nn. 53 e ss), que corresponde, nos seus traços
fundamentais, à definição de cultura da própria UNESCO.
Começa por afirmar-se que o homem só pela cultura acede verdadeira e
plenamente à sua humanidade, tendo como referência a natureza humana. A
verdade da natureza é um elemento decisivo na verdade da cultura. Diz o
Concílio: “sempre que se trata da vida humana, natureza e cultura estão tão
estreitamente ligadas quanto possível” (1).
Afirma-se a seguir que a cultura é um conceito abrangente: “A palavra cultura
designa tudo o que é expressão humana, aquilo em que o homem afina e
desenvolve as capacidades do seu espírito e do seu corpo; se esforça por
submeter o universo pelo conhecimento e pelo trabalho; humaniza a vida
social, tanto a vida familiar, como o conjunto da vida civil, graças ao
progresso dos costumes e das instituições; em suma, a maneira como traduz,
comunica e conserva nas suas obras, ao longo do tempo, as grandes experiências
espirituais e as grandes aspirações do homem, para que estejam ao serviço do
progresso de um grande número e mesmo de todo o género humano” (2).
2. Esta abrangência da cultura supõe que ela se define ao longo do tempo. A
evolução cultural tem mais o ritmo da história do que do presente, do momento
que passa. Só ao longo do tempo cada comunidade humana vai afinando o seu
património cultural. Vai-se definindo um meio determinado e histórico no qual
cada homem se insere, independentemente da nação ou do século, ao qual vai
beber os valores que lhe permitem promover a civilização” (3).
É a este património, definido ao longo do tempo, que se pode chamar “matriz
cultural” de um povo, a qual deve ser salvaguardada em toda a evolução
cultural e em toda a evolução da sociedade. Quando a evolução das sociedades
se decide ao ritmo do presente efémero, afasta-se da matriz cultural e deixa
de promover e enquadrar o autêntico progresso da pessoa e da sociedade
humanas.
Só uma cultura assim concebida desabrocha em sabedoria e esta é a compreensão
radical da existência humana, fonte de inspiração ética. Na visão cristã da
cultura, a sabedoria é desafio de eternidade e de santidade. É na sabedoria
que a cultura se torna a fonte do sentido autêntico da existência humana.
A
cultura e a realidade humana
3. Para podermos avaliar a evolução cultural, da sociedade e da própria
Igreja, convém ter presentes aquelas dimensões da realidade, pessoal e
social, que mais incidência têm na constituição da cultura e na sua evolução.
* A dignidade da pessoa humana, é elemento decisivo da evolução
cultural. Violá-la significa sempre um retrocesso da cultura. Os elementos
fundamentais desta dignidade são: o respeito pela vida humana, desde a
conceção até à morte natural; o sentido nobre da liberdade; a justiça
expressa nas circunstâncias concretas da vida; um culto da igualdade que
respeite o direito à diferença.
* A vocação comunitária da pessoa humana, a complementaridade
entre o “eu” e o “nós”. O ser humano, criado à imagem de Deus, é, por
essência, um ser relacional. A dimensão comunitária é tão importante como a
realização individual. Todos os egoísmos e individualismos significam um
retrocesso na evolução cultural.
* A busca da verdade e suas expressões. É uma das grandes
aventuras da cultura. Procurar a verdade é buscar o sentido da própria
existência. A verdade não se encontra no horizonte da vida individual.
Encontra-se no âmbito da comunidade, tem a ver com uma tradição viva, tem a
sua principal expressão na sabedoria. No caso do cristão a última referência
da verdade é a “fé da Igreja”, alicerçada na tradição bíblica sobre o
mistério do homem.
* A dimensão transcendente da vida. Aqui entra o papel das
religiões na cultura. A religião oferece uma compreensão do homem, da sua
relação com os outros homens, com a tradição e com a história, com o
universo. Todas estas dimensões estão enraizadas na fé em Deus e na
inter-relação entre os homens e Ele. Acreditar em Deus é elemento decisivo da
cultura. A compreensão da interpenetração da dimensão transcendente e da
dimensão imanente é essencial. Se a cultura se reduzir à compreensão da
realidade imanente, fica truncada no seu horizonte.
* O conceito de felicidade. Espontaneamente todos os homens
buscam a felicidade. Mas o que é a felicidade? É preciso superar a tensão
entre o “ser” e o “ter”. A compreensão do amor, em todas as suas expressões,
é decisiva na compreensão da felicidade que se deseja. A compreensão da vida
como dom tem de ser prévia à compreensão da vida como fruição. Essa é a
grande ousadia do cristianismo: quem aceitar oferecer a sua vida por amor,
acabará por descobri-la e encontrá-la. A coincidência entre felicidade e
intimidade com Deus é mais difícil mas é o testemunho da santidade. E os
Santos influenciam a cultura.
* A busca e expressão da beleza. É outro dinamismo congénito ao
ser humano, a busca da beleza. Desde a contemplação do universo, à fruição do
amor, à tranquilidade da consciência, ao encontro com Deus, a beleza brota
como a última linguagem da verdade. As artes não são a única expressão da
beleza com impacto na cultura. A beleza é sempre expressão da harmonia, e
expressa no dia a dia da vida das pessoas, acaba por deixar marcas culturais.
Tópicos
da evolução cultural na sociedade portuguesa
4. É campo de análise vasto de que só posso enunciar alguns tópicos. Portugal
tem uma cultura, porque tem uma forte identificação com a sua tradição e com
a sua história, onde entra, como componente importante, o cristianismo.
Poder-se-á falar de uma “matriz cristã” da nossa cultura? Penso que sim, se
não esquecermos a influência das migrações a partir da Ásia Central, a
influência greco-romana, do judaísmo sempre presente ao longo da nossa
história, do islamismo devido ao longo domínio de parte do que é hoje o
território de Portugal e das correntes filosóficas europeias, desde o
renascimento, ao racionalismo iluminista, às filosofias do indivíduo, ao
marxismo como teoria de interpretação da sociedade.
As grandes expressões desta cultura foram a ousadia na aventura e na
criatividade, a atração pela universalidade e pelo desconhecido, o fácil
contacto com os outros povos e culturas.
A composição do território nacional, cuja origem foi marcada pelo espírito de
cruzada e de reconquista cristã, não facilita a unidade cultural. Um dos
sinais deste facto é a dificuldade ancestral de construir uma unidade como
povo. É célebre a análise do governador romano já no século terceiro da nossa
era: “Não compreendo este povo, nem se governa, nem se deixa governar”.
A marca do catolicismo na cultura portuguesa foi constante desde o início da
nacionalidade. Vale a pena referir duas expressões institucionais: o ardor
missionário, sempre presente na epopeia dos descobrimentos e as relações do
Estado Português com a Igreja, expressas na forte relação com o Papa, na
colaboração estrutural das grandes ordens religiosas, e na oficialização do
catolicismo como religião oficial da Nação Portuguesa.
5. A componente que mais influenciou a cultura foi, sem dúvida, o ardor
missionário, que se manteve vivo mesmo depois da viragem, anunciada já na
segunda metade do séc. XIX e confirmada com a revolução republicana e a lei
da separação da Igreja e do Estado. Esta lei, inaceitável e agressiva na sua
primeira expressão, abre para uma evolução cultural tanto no Estado como na
própria Igreja: o princípio da laicidade do Estado, hoje presente na
Constituição da República Portuguesa e aceite pela Concordata, abre o
horizonte para a liberdade religiosa, para o respeito pela dignidade de todas
as religiões sérias e a garantia de que o Estado, ao serviço de todos os
portugueses, na sua variedade, não se identifica com nenhum credo religioso.
No caso da Igreja esta perspetiva, depois de uma evolução ao ritmo dos
acontecimentos, foi consagrada pelo Concílio Vaticano II.
A vivência prática desta laicidade do Estado é, hoje, ferida por algumas
ambiguidades culturais. A laicidade do Estado não pode significar a laicidade
da sociedade, onde o catolicismo continua a ser maioritário, no contexto de
uma grande variedade de credos religiosos, de ateus e descrentes e de crentes
sem religião. Um Estado laico não significa uma sociedade laica. A própria
Lei da Liberdade Religiosa limita-se, muitas vezes, à liberdade de culto. Há
tendência de privar a Igreja de espaço na intervenção pública. Seria
importante para a evolução da cultura um debate sério e dialogante entre a
dimensão religiosa e a política, social, cultural, empresarial.
6. Um dos elementos particularmente significativos na evolução cultural,
tanto da sociedade, como da Igreja, é a compreensão do tempo e sua
importância na vida humana. A partir de um determinado momento, esta maneira
de exprimir a importância do tempo acentuou duas tendências: uma compreensão
do tempo que exclui a eternidade e a sua redução do tempo ao presente,
relativizando a história e o futuro. É como se o tempo se limitasse ao nosso
tempo, quase ao período que dominamos na nossa experiência.
A dificuldade de integrar a eternidade na compreensão do tempo humano,
enfraquece a importância do transcendente na compreensão do homem. É certo
que alguns falam da transcendentalidade da vida humana, sem que isso
signifique aceitar a transcendência de Deus e da fé religiosa. É certo que os
sinais da transcendência estão gravados no coração humano e aí são a marca da
relação do homem com Deus.
A compreensão bíblica do tempo marcou profundamente a nossa cultura. Todo o
sentido do tempo se passa entre o “protos” e o “eschatom”, numa unidade da
compreensão do mistério do tempo, que engloba o próprio tempo divino. Desde a
criação que Deus faz parte do tempo humano. Na visão cristã da vida o tempo
presente encontrará a sua plenitude numa “meta-histórica”, na Jerusalém
Celeste. “Não temos aqui morada permanente”.
Este sentido da vida como caminhada para o tempo definitivo também enfraqueceu na mentalidade de muitos cristãos. É preciso acentuar pastoralmente esta centralidade da esperança cristã.
7. O enfraquecimento do sentido de eternidade, repercutiu-se na perceção da
realidade, e o horizonte da realidade é o espaço do exercício da liberdade.
Quais são as fronteiras da realidade humana? É só o que posso tocar, sentir,
verificar? O progresso científico levou a uma teoria segundo a qual só a
verificação situa o homem perante o que é real. O próprio sentido da
linguagem é decidido pela verificação de que o que exprime é verificável.
Isto levou a um “positivismo” na análise da realidade, que pode tender para
uma limitação desse horizonte da realidade. A própria ciência nos mostra que
o horizonte da realidade humana se alarga continuamente. O homem é um ser
espiritual e esta qualidade alarga o horizonte da realidade. A fé alarga-o
para o mistério transcendente, a fé torna Deus real. Nas expressões da
criatividade humana a busca da beleza é a expressão deste alargar do
horizonte da realidade.
8. O positivismo na definição do que é real tem várias consequências na
evolução cultural. Antes de mais a tendência em tratar todas as realidades
humanas com o mesmo sentido ético, e o diluir da fronteira entre o bem e o
mal. Toda a realidade humana, independentemente do seu sentido ético, passa a
ter direitos de cidade, regulados pela lei. Este positivismo influencia as
próprias leis, que não são tanto propostas éticas dos caminhos da verdade e
do bem, mas regulação da realidade humana, seja ela qual for. Exemplos deste
fenómeno:
* O aborto clandestino era uma realidade preocupante? Legaliza-se a
interrupção voluntária da gravidez, relativizando o sentido ético da
interrupção violenta da vida.
* A homossexualidade é uma realidade, pessoas do mesmo sexo estabelecem
relações amorosas que na antropologia cultural são próprias da relação do
homem com a mulher? Estabelece-se a igualdade de género, sendo a opção
homossexual tao verdadeira como a heterossexual, permite-se o casamento entre
pessoas do mesmo sexo e está-se à beira de permitir adoção de crianças por
esses pares de pessoas do mesmo sexo.
Dou estes exemplos, os mais chocantes numa evolução cultural, de total rutura com a visão do homem em sociedade, enraizada no direito natural e aprofundada na visão cristã da sociedade.
Uma outra concretização do positivismo na evolução da cultura é a redução ao
económico, ao lucro, aos bens materiais das realidades que os homens buscam e
pelas quais lutam. A felicidade do homem não passa só por aí, mas pela busca
do amor, da beleza, da convivência fraterna. O economicismo, os mecanismos
financeiros, a ânsia do lucro atrofiam o horizonte da beleza da vida na
variedade das suas expressões. E quantas vezes os cristãos pactuam com essa
redução positiva da vida. O Magistério da Igreja, sobre a família e sobre a
dimensão social do homem é uma proposta contínua a influenciar, num sentido
reto, a evolução cultural.
9. Um outro elemento que influi na evolução cultural, tanto da Igreja como da
sociedade, são as novas linguagens. É ainda difícil de avaliar o seu efeito
na mutação cultural. Antes de mais trata-se de um elemento intercultural,
atravessa todas as culturas, proporciona uma visão universal da compreensão
do homem e da história. A prova disso são as notícias de países que, para
defenderem as suas visões culturais procuram impedir as diversas redes de
comunicação, aliás com pouco sucesso, pois entrámos num mundo em que não há
barreiras à comunicação. Não se trata apenas de comunicação, mas de
categorias de compreensão da realidade. Este fenómeno já está a originar
dificuldades de comunicação entre gerações.
A consideração desta realidade deve empenhar as diversas estruturas da
sociedade: a educação, a chamada comunicação social, a própria Igreja. Um
cuidado particular se tem de ter com as crianças e os jovens, pois a
exposição a estas novas linguagens e o acesso fácil às novas tecnologias de
informação, podem alterar a compreensão dos valores tradicionais das diversas
culturas.
A Igreja deveria estar na primeira linha da educação para estas novas
linguagens, e também aqui a família se revela como o ambiente base da
educação. Sinto que a Igreja, na sua atitude e nas suas estruturas, se já utiliza
os mecanismos destas novas linguagens, ainda não foi capaz de um diálogo
integrador, de autêntica abertura, que tem de ser crítica a esta mutação
cultural. A opinião pública e a formação das consciências individuais é hoje
influenciada e plasmada por esta nova realidade. A comunicação é, hoje, a
charneira da evolução cultural. A Igreja tem de investir em pessoas e
estruturas que, com competência, enfrentem esta realidade. A mensagem cristã,
que abre o homem para horizontes novos da vida, não está prisioneira de
nenhuma cultura, embora tenha ajudado a formar as culturas. Qual será o
futuro da evangelização no contexto destas novas linguagens? É uma missão que
exige mais ousadia do que percorrer oceanos e continentes.
O ponto de partida é sempre o homem. É preciso construir, sempre de novo, o
ideal do diálogo e do amor, vencer individualismos, não se fechar à beleza,
não considerar as linguagens que, em cada momento, nos invadem, como a
Palavra da vida que, em qualquer linguagem, nos abre para a esperança.
Fátima, 19 de junho de 2013
D. José da Cruz Policarpo, administrador
apostólico do Patriarcado de Lisboa
NOTAS:
1
-Gaudium et Spes, nº 53
2 - Ibidem
3 - cf. Ibidem
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