FÉRIAS
TEMPO LIVRE, TEMPO DE GRAÇA


Tempo de graça é, na perspetiva cristã, uma expressão particularmente feliz que me foi dada para designar o tempo que num outro quadro referencial nos habituamos a designar como tempo livre.
Quando nos centrávamos fundamentalmente não só na contraposição entre trabalho e lazer, como na dicotomia de tempo imperativo e tempo disponível, parecia que a liberdade em dispormos de tempo para todas as atividades desejadas, era o que antes de mais caracterizava este tempo. Durante ele se construía o que, para muitos, constituía o seu projeto, de certo modo mais pessoal e intimista, da pessoa consigo própria, com Deus, com a natureza e a restante realidade, tempo em que se vivia sobretudo em grupos primários, espontâneos, informais.
Visto, embora nem sempre ajustadamente, o tempo de trabalho como limitativo, senão como opressivo, e encarado o tempo imperativo (o dedicado às outras atividades também necessárias para a nossa sobrevivência e dos que connosco de algum modo estão ligados) como igualmente restritivo, aparecia o tempo livre como sendo o da liberdade da realização pessoal, familiar, grupal, comunitária. Era como se fosse o tempo da verdadeira vida, face ao da vida como tinha de ser.
Embora as condições sociais não tenham muitas vezes mudado assim tão profundamente, outras começam a ser as perspetivas centrais da atualidade.

Tempo de graça, porquê?

Numa primeira evocação, tempo de graça significa tempo não pago, gratuito portanto. Trata-se de uma aceção que embora mais primária, valerá a pena explorar, até porque, cada vez mais, só em parte é verdadeira.
De facto, já lá vai o tempo em que o lazer era predominantemente gratuito em termos económicos ou, talvez melhor dito, já lá vai o tempo em que não se tomava consciência dos encargos que o lazer acarreta. De qualquer forma, o desenvolvimento das indústrias da cultura e a cada vez mais intensa estruturação empresarial e económica, até do próprio desporto e de tantas outras atividades associadas aos tempos livres, fazem com que mesmo a pessoa mais distraída quanto às suas contas, tome consciência dos por vezes tremendos encargos do tempo livre. Não será portanto por esta razão que valerá a pena chamar ao tempo livre, tempo de graça!
Será tempo de graça porque dele não esperamos contrapartida? Valerá a pena conotá-lo com a gratuidade, não tanto por não ter contrapartida, mas por não ser avaliado na nossa quotidianidade com ratios económicos, por não ser remunerado e por dele não esperarmos vantagens padronizáveis em termos materiais. Mesmo numa sociedade tão monetarizada como a nossa, parece que afinal nem todo "o tempo é dinheiro", pelo menos para quem o sabe fruir. É que, para que todo o tempo renda, é fundamental que nem todo o tempo tenha de ser dinheiro.

Tempo de graça, embora tempo de permuta

Mas o tempo de graça é também um tempo de permuta; é um tempo com contrapartidas, umas previstas, outras surpreendentes.
Saber libertar-se dos tempos padronizados, medidos, faz parte da arte de viver; é o complemento e a compensação fundamental da outra quotidianidade prevista, calculada, marcada, competitiva. Hoje, talvez como quase sempre, embora com critérios e escalas de medida com natureza diferente, estas são duas faces da vivência do tempo.

Uma é a face fortemente condicionada de modo explícito, que dá os frutos mais imediatos, imprescindíveis para a sobrevivência, tempo das atividades mais terra a terra, por mais complexas que sejam. Nesta face esperamos contrapartidas claras e explícitas.
A outra face é a do tempo que não se mede, a do tempo que se gasta (até porque no outro tempo se entesourou), cujos frutos hão de chegar sem se saber exatamente nem quais, nem onde, nem quando; tempo gratuito em que nos damos sem cálculo, tempo de certo modo mais exigente porque sem limites de espaço e de tempo. Mas é, porventura mais ainda, tempo com sentido.
Este tempo gratuito é por excelência o tempo da relação, daquela que nos liga profundamente com as pessoas, com a realidade no tempo e para além do tempo, que nos liga no espaço e para além do espaço, aqui e agora e libertos de cada momento e lugar.
A troca, a permuta, assim entendida, que nos "obriga" a viver uns com os outros, já a analisou Mareei Mauss no seu célebre Essai sur le Don, em finais do primeiro quartel deste século; é a dádiva e o dom de si próprio, plenamente gratuitos, mas sempre retribuídos material e espiritualmente, e tanto mais retribuídos quanto mais gratuitamente os vivermos.

Recuperar a gratuidade do tempo

O padrão básico da sociedade atual é o da troca instantânea em que os bens e serviços se produzem, propõem e pagam dentro de parâmetros pré-estabelecidos, do mesmo modo que a vida se concentra em atividades se possível definidas previamente quanto à sua natureza, tempo e lugar.
Uma vez feito o pagamento, quebra-se a relação, ou pelo menos nada exige que ela prossiga; uma vez realizada a atividade, passa-se a outra, cessando quantas vezes a memória do que acabara de ser feito.
Este estatuto da troca e da ação delimitadas no tempo, espaço e relação - até mais que delimitadas, por estatuto precárias - tem-se revelado imprescindível para a viabilização de uma sociedade complexa e aberta a tudo e a todos, mas tem mostrado igualmente a sua trágica insuficiência.
É que se todos pudermos, quanto a tudo e quanto a todos e em cada momento, prescindir de qualquer ligação estável, caímos necessariamente no isolamento pessoal e na desagregação social, a menos que tenhamos descoberto como pessoas e como sociedade que precisamos de estar para além deste mercado não só instantâneo como tendencialmente precário e volátil. Cada vez se percebe melhor como o próprio mercado se mantém pelo que está para além do mercado, pela teia das relações e expectativas cultivadas ao longo do tempo, que não "cessam" com o pagamento, mas que se encadeiam tecendo laços de fidelidade.

Gratuidade e aliança

Ligamo-nos uns aos outros e à vida, não só pelas ideias e emoções, mas pela troca material e espiritual em que os bens, não necessariamente materiais, simbolizam o que afinal comungamos e nos "obrigam" a prosseguir em permutas e vivências que nos levam cada vez mais longe.
Quem não tem a liberdade de saber também viver gratuitamente e em permuta, acaba por ficar só, por muito que se cruze momento a momento em trocas precárias que se esgotam sem qualquer continuidade.
A gratuidade, vivida com permutas e contrapartidas abertas, é o caminho para a aliança que nos arranca à solidão, nos abre os horizontes do desenvolvimento pessoal e grupal, nos faz ir mais além do que somos em cada momento; até ao "amor que com amor se paga".
Quem dá gratuitamente tem, assim, de estar disposto a receber, porque disposto a aliar-se e porque consciente de que por mais rico que seja, carece da vida que também está fora de si, carece sobretudo de que Deus o ame também gratuita e criativamente e de que os outros lhe digam quem é, e que o digam com emoção.

Gratuidade e disponibilidade

Ressoam em finais do século XX estas verdades enunciadas não só há mais de setenta anos, mas há largos séculos. Vale a pena ouvir a voz de S. Gregório Nazianzeno, no séc. IV, dirigindo-se aos homens também ricos e poderosos do seu tempo: "Irmãos e companheiros da pobreza - pois somos todos pobres, os que necessitamos da 'divina graça, ainda se, mensurados por pequenas medidas, possamos parecer mais ricos uns que os outros - recebei este discurso sobre o amor à pobreza. Recebei-o não pobremente, mas ambiciosamente, a fim de conseguirdes a riqueza do reino dos céus."
Então como agora, se pedia, a quem dava, uma atitude de disponibilidade para receber. Em todos os tempos a reciprocidade gratuita é afinal a base por vezes latente em que assenta a viabilidade da pessoa e da sociedade.
Ter tempo de graça faz assim apelo à arte da gratuidade recíproca, com contrapartidas não mensuradas nem rigorosamente escalonadas no tempo.
Tempo de gratuidade é tempo ligado, contínuo que cimenta não só a história pessoal em relação, como cimenta a base de todas as sociedades, a "obrigação" livremente aceite de viver em comum e não só lado a lado.
Godbout, em O Espírito da Dádiva, como muitos outros autores atuais desde Titmuss em 1972, mostra como na atualidade as novas correntes de análise sociológica se interessam de novo por esta dimensão imprescindível da sociedade e a teorizam.
São as próprias populações atuais quem eleva de novo esta dádiva ao nível mais exigente de dar alto significado ao dom a desconhecidos, ao altruísmo gratuito que curiosamente precede a generosidade recíproca e dela talvez seja propedêutico.
Crescer na gratuidade do tempo é assim um imperativo deste final de século, que se concretizará não só na obtenção de tempo livre mas talvez sobretudo no modo como é vivido, dado, permutado.
A criança a quem deixam ser criança é um mestre da gratuidade do tempo. Se a deixarem ser quem é e se tiver pessoas queridas perto de si, "ligando-lhe" sempre que precisa, brinca com as pessoas, com as coisas e as situações, relaciona-se de modo gratuito com o que está à sua volta e explora o que a vida lhe dá. Recebe constantemente a vida e dá vida a tudo e todos quantos estão à sua volta. Saboreia a vida concretizada em grandes e pequenas situações, está sempre a dar e a receber, provoca, desafia, desconcerta, cria.
E também por esta razão que temos de nos fazer como crianças para entrarmos no reino dos Céus. A gratuidade da criança é uma centelha de Deus. Aliás, na criança se encontra não só a gratuidade, mas a graça que nela está e que não se reduz a ser engraçada; a criança mantém a frescura da criação renovada: em cada dia nasce de novo.
Mas será que hoje abundam entre nós as crianças assim evocadas? Fazemos o possível para que deixem de existir...
Além de termos poucas crianças, achamos que temos de fazer a toda a hora coisas muito mais importantes do que estarmos com elas e com elas nos renovarmos e sobretudo, quanto ao que aqui nos interessa, somos muito interesseiros a seu respeito. Parece que as crianças só têm de corresponder aos padrões que lhes impomos, sejam eles padrões de aprendizagens "cientificamente" escalonadas, sejam padrões de realização que satisfaçam as expectativas dos pais e de quem delas cuida.
Ao contrário do que parece, há crianças, muitas crianças, que não têm tempo livre nem gratuidade na sua vida, nem encontros que para elas sejam significativos. São crianças que estão só pautadas e não aliadas com alguém. Ficam-se pela sua finitude, dóceis ou rebeldes, sem tempo para respirar, saborear, reconhecer, sem tempo para serem mestres do viver no que é o contributo próprio da sua idade para todas as idades.
Entre a criança selvagem e a domesticada, entre a pura espontaneidade e a robotização, entre o boneco sobreprotegido e o "pau mandado", precisamos de encontrar o espaço e o tempo para que as crianças possam brincar e jogar, aprender, crescer, treinar, sorrir, viver, encantar. É de pequenino, e com gratuidade, que se começa a ser alguém.
Os adolescentes e os jovens não terão um acesso muito mais aberto ao tempo gratuito. O problema não está em porventura não conseguirem ter tempo livre. Tê-lo-ão ou não, mas para muitos faltam outras condições de gratuidade.
O tempo livre só por si pode tornar-se um tempo vazio. Tempo de isolamento em casa e na rua, de isolamento não porque não estejam com outras pessoas - até estarão muitas vezes com gente demais - não porque não façam isto e aquilo, não porque não pairem sem conversar, mas porque não têm com quem crescer.
Conversar e ser conversado, ter interesses, saber que é bom ser capaz de se deslumbrar, de se dedicar, de conquistar a persistência, de cultivar a disponibilidade, de ganhar confiança em si "próprio e manter a confiança nos outros apesar das desilusões, que é bom saber esperar sem desanimar, saber como é bom ousar comparar-se com os outros sem desesperar, são outros tantos pressupostos da gratuidade que se aprendem à própria custa, mas que dificilmente se aprendem sozinho ou só com gente da mesma idade, sem adultos disponíveis capazes de acolher, aguentar, incitar e também de saber estar.
É que muitos adultos pensam ser "mais barato", embora menos gratuito, deixar que os adolescentes e jovens se entendam uns com os outros, e só uns com os outros, nos espaços aparentemente abertos, mas de "redoma", porque fechados na sua idade, que para eles sabemos criar. Criamo-los fora de casa ao encararmos a escola como instituição fechada, criamo-los nos locais de diversão, se possível fora de portas, das nossas portas, para que não incomodem, quais novas judiarias - espaços de exclusão -, criamo-los até na rua que deixou de ser de todos para já não ser de ninguém.
Quem tem familiaridade institucional com adolescentes e jovens -os pais, os professores, os outros familiares e próximos - vive com demasiada ansiedade a mudança cultural e o choque cultural.
Face à diversidade de estímulos, de situações, de princípios, de opiniões e modas, pensam que não entendem as linguagens de adolescentes e jovens, do mesmo modo que não sentem nem entendem, por exemplo, a sua música, e "quedam-se" sem ousar partilhar a arte de viver que sentem ou como anacrónica ou incompreendida.
O mais curioso é que adolescentes e jovens com a sua sensibilidade viva propõem aos mais velhos, embora de forma por vezes abrupta, as expressões do lazer, embora sem a arte que dá sentido à expressão. Mas desafiam, e desafiam violentamente por vezes, para um "combate" em que todos ganharíamos se o aceitássemos, construindo alianças de vida fundamentais para uns e outros. Arte da gratuidade, da disponibilidade é, também neste domínio, arte da partilha, embora nem sempre calma, idílica.
Adolescentes e jovens não podem viver num mundo segregado, pago pelos adultos para que eles não incomodem. O adulto precisa de saber "perder" gratuitamente tempo com eles, também para que o adulto deles receba estímulo, e mais que o estímulo os saberes e os recursos para ser capaz de descobrir novos interesses, novas dimensões da vida que esqueceu, para receber o acesso a tecnologias novas e a novas áreas em que se movimenta muito mal.
Faltam-nos, e em Portugal faltam-nos dramaticamente, "movimentos" de adolescência e de juventude, não como novos modos de nos desembaraçarmos destes "excluíveis", mas como instâncias em que adultos e jovens se cruzem gratuitamente.
Pagam-se, para crianças, adolescentes e jovens, pequenos cursos e aulas disto e mais daquilo, diversões, saídas, passeios, tudo quanto os possa manter entretidos em "outro mundo" desde que não seja o mundo dos adultos porque estes estão cansados e têm muitas coisas para fazer. Sai mais barato, aqui também, pagar do que dar, porque se se desse, tinha de se trocar e isso tocava, incomodava.
Os adultos precisam de em muitos sentidos ser incomodados com o tempo gratuito. Uma análise realizada no princípio desta década por Christian d'Epinay, publicada sob o título Vieillir ou a vie à inventer, mostra como as histórias de vida dos mais idosos, em variados contextos sociais, revelam as limitações no desenvolvimento do tempo gratuito ao longo de toda a vida, mas sobremaneira durante o tempo em que estiveram ativos.
Quando a reforma chega - para aqueles em cuja vida o facto de se reformarem significa uma cessação de emprego e de atividade de algum modo laborai - a reforma surge não só como libertação repentina de tempo, mas como uma indefinição do tempo e do projeto de vida, particularmente penosa, embora possa ter sido esperada e querida intensamente.
Muitos, de todas as condições sociais e com as mais diversas histórias de vida, não só não sabem que fazer ao tempo de que dispõem, como esse vazio e indefinição conduz a uma rápida degradação, constituindo aquilo a que o autor chama uma velhice de risco.
Todos os inquiridos se exprimiam no sentido de que era então fundamental ter uma vida disciplinada e ritualizada, como condição de nela se poderem inscrever os projetos mais variados.
Numa outra investigação mais recente, coordenada por Claudine Attias-Donfut, alguns dos mais conhecidos analistas dos fenómenos familiares e intergeracionais, como Segalen, Sohaber e Kellerhals, comentam, por seu turno, o alcance das permutas gratuitas não só na manutenção de uma anciania "saudável" como, de algum modo, na viabilização da vida de todos os que chegam precocemente a esta libertação de tempo.
Os mesmos fenómenos são tratados em idêntica perspetiva por Gilles Provonost numa obra mais englobante, publicada em 1996 sob o título Sociologie du Temps, na qual o autor reporta análises feitas no Canadá. Em todos estes trabalhos se mostra como a anciania, precoce ou não, revela as disfunções da restante idade adulta.
Em breves palavras se podem condensar estas disfunções, verificando-se que durante toda a vida a maioria das pessoas, seja qual for o seu género de vida, tenderem na atualidade a desenvolver atividades, sendo essas atividades programadas ou por outros ou pelo próprio, de maneira bastante rigorosa face a constrangimentos externos, e ainda no facto de a maioria das pessoas cultivar um leque muito restrito de interesses e de permutas continuadas ao longo da sua vida. Valerá a pena examinarmos a esta luz, o tempo dos adultos:

1. O tempo livre só por si não liberta

Será esta a primeira conclusão a destacar ao longo de toda a vida. Ter tempo livre é uma condição necessária mas não suficiente para se "saber viver". Pelo contrário, ter tempo livre pode em todas as idades ser uma condição de degradação.
Esta condição de degradação pode advir não só do emprego desse tempo em atividades degradantes, como, de um modo mais subtil, pode advir da indefinição e do vazio de projeto que conduzem a uma perda de dignidade e de identidade.
Bernard Valade, num artigo sobre cultura do Tratado de Sociologia de Boudon relembra como para os gregos apaideia, através da qual se preparavam as crianças para se tornarem homens capazes de ser alguém, pressupunha a disciplina. Di-lo quase nos mesmos termos em que os mais idosos suíços a reclamavam, na palavra de D'Epinay.
Tempo livre, tempo de graça, deve ser um tempo autodisciplinado que mantenha viva a capacidade de projeto ao longo de toda a vida.
Não é que não se possam fruir, também na idade adulta, dias sem horas para nada, vivendo ao sabor da fantasia. Estes tempos podem constituir o contraponto necessário à asfixia do dia a dia, mas não devem constituir a única alternativa em qualquer género de vida.

2. O tempo gratuito não se deve concentrar só em atividades

Vivemos, como sublinha D'Epinay, num conjunto de culturas que privilegiam as atividades, em detrimento dos modos de estar mais livres e contemplativos. Essa é a nossa linguagem de base que será difícil e desnecessária por um lado, se bem que o desenvolvimento dos media,dos espetáculos e dos novos géneros culturais tenha já atenuado este ativismo constante das nossas culturas.
Saber estar, saber conversar à vontade, ser capaz de meditar, saber até observar e também relaxar são dimensões da vida, vivida connosco, com Deus e com os outros que é preciso voltar a desenvolver.
Muitos, mais jovens e menos jovens, procuram estes saberes e modos de estar em culturas orientais, quantas vezes durante um limitado período das suas vidas.
Para quando a capacidade de buscarmos na nossa própria tradição cultural estes velhos/novos modos de viver, não em honra de qualquer etnocentrismo, mas porque, enquadrando-se melhor na linguagem das nossas culturas, poderiam fundamentar atitudes mais constantes, embora sem a aura do exotismo?

3. O tempo gratuito é a época em que se cultiva um vasto leque de interesses

Os adultos têm, a uma primeira aproximação, interesses va­riados e tão mais variados quanto a "indústria da cultura" os solicita constantemente com novos desafios.
Muitos destes interesses são, porém, tremendamente esporádicos, e pouco interativos. Cada adulto é como um alvo bombardeado por estimulações que se apagam umas às outras.
A cultura cultiva-se e é um culto; hoje a cultura postula a opção e a fidelidade. Os adultos precisam de aprender a cultivar o tempo que lhes é dado gratuitamente, desenvolvendo o que para eles e para aqueles com quem vivem é significativo, não só criando hábitos, como desenvolvendo competências fora da sua profissão ou no seu prolongamento.
Para além dos interesses esporádicos, os adultos interessam-se em construir a sua casa e em obter um conjunto de bens tidos como preciosos, tais como carro, mobílias e outros sinais de posição social que lhes dão segurança e os fecham num pequeno mundo de privacidade. Viajam também, para obterem recordações que decorem o seu mundo privado.
Este leque muito fechado de interesses dá uma segurança que com o andar dos anos se torna precocemente asfixiante. Não deixa de ser muito revelador verificar o elevado número sobretudo de homens que, após os quarenta anos, se enclausura neste seu mundo privado, e que antes de qualquer reforma se defende no seu "território" de que é dono e senhor, vendo como particularmente hostil a vida ao seu redor.
Sem prejuízo dos espaços de privacidade, os adultos precisam assim de se tornarem mais capazes de disponibilidade para o serviço dos outros e para a permuta extraprofissional sem a reduzirem ao circuito das compras e dos espaços comerciais.
Precisam de estar para além da ambiguidade do dom a desconhecidos, e só capazes desse dom, que por vezes aparece como uma "desobriga" em relação às permutas gratuitas efetivadas entre gente viva, face a face, que é importante realizar.

4. O tempo gratuito é aquele em que se reduz a ansiedade e se cultiva a confiança

Vive-se em frustração quando se perde a esperança, a capacidade de esperar sabendo que cedo ou tarde o que esperamos virá.
Já vimos como a matriz básica da quotidianidade atual é a da parametrização das prestações e contraprestações. O dia a dia profissional e imperativo é regulado e regulamentado quanto a tempos e espaços, quanto ao esforço/recompensa.
Esta matriz que é prática numa sociedade complexa, tem, para além das disfunções já referidas, os inconvenientes de evidenciar o fracasso, por vezes de modo intolerável, e o de nos obrigar a viver sempre a curtíssimo prazo tornando-nos vulneráveis sempre que a espera se torna maior. Ficamos ansiosos porque nunca temos a certeza que a recompensa virá.
Viver o tempo, também em gratuidade, é fundamental para reconquistar a confiança na vida e nos outros, sem estar sempre a correr atrás das oportunidades, com tanto receio de perder a primeira oportunidade que se luta já pelas oportunidades precoces, antes de tempo, pois assim alguém se sente mais seguro.
A confiança interativa e não regulamentada automaticamente pelo sistema, a não exterior à pessoa, cria-se sabendo alargar o prazo ou até prescindir do prazo.
Por muito forte que seja a historicidade do tempo cristão, este tempo está também para além da história e está, desde hoje, na história e para além da história.
É o próprio dia a dia que precisa de tornar-se histórico e eterno em simultâneo, ajuízável por nós de modo relativo, mas suscetível de ser visto por outros olhos, por critérios que nos escapam.
É esta liberdade dos Filhos de Deus que liberta o tempo livre, fazendo-nos dar de graça o que de graça recebemos.

Fernando Jorge Micael Pereira
In Communio (1999/1)
27.07.12
O SIMPLES E O COMPLEXO


Há uma estação no nosso caminho em que o simples e o complexo convivem numa harmonia que nos ajuda a perceber mais profundamente a promessa profética de que o lobo e o cordeiro passearão juntos. A verdade é que, por muito tempo, olhamos para essas realidades em contraposição. Orientamos a nossa vida no desejo de uma coisa ou de outra, numa visão balizada, tranquilamente dicotómica, por acreditarmos que o simples e o complexo são coisas bem distintas.
À primeira vista parece que fomos criados para verdades simples e só essas respondem cabalmente às expectativas do coração humano. Uns dirão que a razão disso repousa unicamente na nossa incurável necessidade de segurança, e que verdadeiramente nada é simples, nada se colhe até ao fim num vislumbre imediato, e que o caminho que todos fazemos é do simples (que tem de ser deixado) para alcançar o complexo (que é o fatal ponto de chegada). E dão como exemplo a infância, a idade das evidências. À medida que crescemos essas evidências empalidecem, desdobram-se, diferenciam-se, entreabrem-se, interrogam-se, dividem-se. O que parecia simples escapa-nos, num processo de complexificação que não dominamos completamente e que, em grande medida, acaba por se nos impor. Creio, porém, que a experiência de que o essencial é simples, e que de modo ainda mais simples se deixa acolher, nos acompanha até ao fim. Mas também sei que, como existe uma conversão do coração ao modo simples que a vida tem de se exprimir (pelo menos, em certas horas), precisamos de trabalhar o nosso coração para aceitar, como condição de autenticidade, a dicção complexa da vida.
Recordo aquela frase que Paulo de Tarso cunhou: «agora vemos como num espelho, e de maneira confusa». Isto é, todas as visões são provisórias e o nosso olhar não é senão  chamado à itinerância. O problema não é que o que nos tinham prometido ser simples depois se torna, sem aviso, complexo. Ou que o que esperávamos complexo se revela, desconcertantemente, simples. É necessário compreender, com humildade, que o problema não é da realidade, mas do modo como lidamos com ela. A questão é a da aprendizagem que o nosso olhar faz ou não faz do real.
Para quem a quiser ouvir, a vida lança-nos o desafio (a sugestão, a prece) de um amor sem posse. Não é o que sabíamos o mais importante, mas o que vamos sabendo. Não é o conhecimento armazenado de um dia que nos pode servir de mapa, mas a meditação do acontecer. Somos convocados para peregrinar, para aferir a profundidade no movimento, para vislumbrar através da incessante deslocação aquilo que permanece. O nosso olhar nem sempre aceita que é pobre, mas quando aceita, percebe finalmente aquilo que está dito num verso de Rainer Maria Rilke e em tantos outros lugares: «A pobreza é um grande brilho que vem de dentro...».
São de sabedoria as palavras do místico São João da Cruz: «Para chegares a saborear tudo,/não queiras ter gosto em coisa alguma.//Para chegares a possuir tudo,/não queiras possuir coisa alguma.//Para chegares a ser tudo,/não queiras ser coisa alguma.//Para chegares a saber tudo,/não queiras saber coisa alguma.//Para chegares ao que queres,/hás de ir por onde não queres.//Para chegares ao que não sabes,/hás de ir por onde sabes.//Para ires ao que não possuis,/hás de ir por onde possuis.//Para chegares ao que não és,/hás de ir por onde és».

José Tolentino Mendonça
In Diário de Notícias (Madeira)
11.06.11
41ª Semana Nacional de Migrações
11 a 18 de agosto de 2013

MIGRAÇÕES: PEREGRINAÇÃO DE FÉ 
E DE ESPERANÇA


Queridos irmãos e irmãs!

Na Constituição pastoral Gaudium et spes, o Concílio Ecuménico Vaticano II recordou que «a Igreja caminha juntamente com toda a humanidade» (n. 40), pelo que «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração» (ibid., 1). Na linha destas afirmações, o Servo de Deus Paulo VI designou a Igreja como sendo «perita em humanidade» (Enc. Populorum progressio, 13), e o Beato João Paulo II escreveu que a pessoa humana é «o primeiro caminho que a Igreja deve percorrer na realização da sua missão (...), caminho traçado pelo próprio Cristo» (Enc.Centesimus annus, 53). Na esteira dos meus Predecessores, quis especificar –na Encíclica Caritas in veritate – que «a Igreja inteira, em todo o seu ser e agir, quando anuncia, celebra e actua na caridade, tende a promover o desenvolvimento integral do homem» (n. 11), referindo-me também aos milhões de homens e mulheres que, por diversas razões, vivem a experiência da emigração. Na verdade, os fluxos migratórios são «um fenómeno impressionante pela quantidade de pessoas envolvidas, pelas problemáticas sociais, económicas, políticas, culturais e religiosas que levanta, pelos desafios dramáticos que coloca à comunidade nacional e internacional» (ibid., 62), porque «todo o migrante é uma pessoa humana e, enquanto tal, possui direitos fundamentais inalienáveis que hão-de ser respeitados por todos em qualquer situação» (ibidem).
Neste contexto, em concomitância com as celebrações do cinquentenário da abertura do Concílio Ecuménico Vaticano II e do sexagésimo aniversário da promulgação da Constituição apostólica Exsul familia e quando toda a Igreja está comprometida na vivência do Ano da Fé abraçando com entusiasmo o desafio da nova evangelização, quis dedicar a Jornada Mundial do Migrante e do Refugiado de 2013 ao tema «Migrações: peregrinação de fé e de esperança».
Na realidade, fé e esperança formam um binómio indivisível no coração de muitos migrantes, dado que neles existe o desejo de uma vida melhor, frequentemente unido ao intento de ultrapassar o «desespero» de um futuro impossível de construir. Ao mesmo tempo, muitos encetam a viagem animados por uma profunda confiança de que Deus não abandona as suas criaturas e de que tal conforto torna mais suportáveis as feridas do desenraizamento e da separação, talvez com a recôndita esperança de um futuro regresso à terra de origem. Por isso, fé e esperança enchem muitas vezes a bagagem daqueles que emigram, cientes de que, com elas, «podemos enfrentar o nosso tempo presente: o presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for tão grande que justifique a canseira do caminho» (Enc. Spe salvi, 1).
No vasto campo das migrações, a solicitude materna da Igreja estende-se em diversas direcções. Por um lado a sua solicitude contempla as migrações sob o perfil dominante da pobreza e do sofrimento que muitas vezes produz dramas e tragédias, intervindo lá com acções concretas de socorro que visam resolver as numerosas emergências, graças à generosa dedicação de indivíduos e de grupos, associações de voluntariado e movimentos, organismos paroquiais e diocesanos, em colaboração com todas as pessoas de boa vontade. E, por outro, a Igreja não deixa de evidenciar também os aspectos positivos, as potencialidades de bem e os recursos de que as migrações são portadoras; e, nesta direcção, ganham corpo as intervenções de acolhimento que favorecem e acompanham uma inserção integral dos migrantes, requerentes de asilo e refugiados no novo contexto sociocultural, sem descuidar a dimensão religiosa, essencial para a vida de cada pessoa. Ora a Igreja, pela própria missão que lhe foi confiada por Cristo, é chamada a prestar particular atenção e solicitude precisamente a esta dimensão: ela constitui o seu dever mais importante e específico. Visto que os fiéis cristãos provêm das várias partes do mundo, a solicitude pela dimensão religiosa engloba também o diálogo ecuménico e a atenção às novas comunidades; ao passo que, para os fiéis católicos, se traduz, entre outras coisas, na criação de novas estruturas pastorais e na valorização dos diversos ritos, até se chegar à plena participação na vida da comunidade eclesial local. Entretanto, a promoção humana caminha lado a lado com a comunhão espiritual, que abre os caminhos «a uma autêntica e renovada conversão ao Senhor, único Salvador do mundo» (Carta ap. Porta fidei, 6). É sempre um dom precioso tudo aquilo que a Igreja proporciona visando conduzir ao encontro de Cristo, que abre para uma esperança sólida e credível.
A Igreja e as diversas realidades que nela se inspiram são chamadas a evitar o risco do mero assistencialismo na sua relação com os migrantes e refugiados, procurando favorecer a autêntica integração numa sociedade onde todos sejam membros activos e responsáveis pelo bem-estar do outro, prestando generosamente as suas contribuições originais, com pleno direito de cidadania e participação nos mesmos direitos e deveres. Aqueles que emigram trazem consigo sentimentos de confiança e de esperança que animam e alentam a procura de melhores oportunidades de vida; mas eles não procuram apenas a melhoria da sua condição económica, social ou política. É verdade que a viagem migratória muitas vezes inicia com o medo, sobretudo quando perseguições e violências obrigam a fugir, com o trauma de abandonar os familiares e os bens que, em certa medida, asseguravam a sobrevivência; e, todavia, o sofrimento, as enormes perdas e às vezes um sentido de alienação diante do futuro incerto não destroem o sonho de reconstruir, com esperança e coragem, a vida num país estrangeiro. Na verdade, aqueles que emigram nutrem a confiança de encontrar acolhimento, obter ajuda solidária e entrar em contacto com pessoas que, compreendendo as contrariedades e a tragédia dos seus semelhantes e também reconhecendo os valores e recursos de que eles são portadores, estejam dispostas a compartilhar humanidade e bens materiais com quem é necessitado e desfavorecido. Na realidade, é preciso reafirmar que «a solidariedade universal é para nós um facto e um benefício, mas também um dever» (Enc. Caritas in veritate,43). E assim, a par das dificuldades, os migrantes e refugiados podem experimentar também relações novas e hospitaleiras que os encorajem a contribuir para o bem-estar dos países de chegada com suas competências profissionais, o seu património sociocultural e também com o seu testemunho de fé, que muitas vezes dá impulso às comunidades de antiga tradição cristã, encoraja a encontrar Cristo e convida a conhecer a Igreja.
É verdade que cada Estado tem o direito de regular os fluxos migratórios e implementar políticas ditadas pelas exigências gerais do bem comum, mas assegurando sempre o respeito pela dignidade de cada pessoa. O direito que a pessoa tem de emigrar – como recorda o número 65 da Constituição conciliar Gaudium et spes – conta-se entre os direitos humanos fundamentais, com faculdade de cada um se estabelecer onde crê mais oportuno para uma melhor realização das suas capacidades e aspirações e dos seus projectos. No contexto sociopolítico actual, porém, ainda antes do direito a emigrar há que reafirmar o direito a não emigrar, isto é, a ter condições para permanecer na própria terra, podendo repetir, com o Beato João Paulo II, que «o direito primeiro do homem é viver na própria pátria. Este direito, entretanto, só se torna efectivo se se têm sob controle os factores que impelem à emigração (Discurso ao IV Congresso Mundial das Migrações, 9 de Outubro de 1998). De facto, hoje vemos que muitas migrações são consequência da precariedade económica, da carência dos bens essenciais, de calamidades naturais, de guerras e desordens sociais. Então emigrar, em vez de uma peregrinação animada pela confiança, pela fé e a esperança, torna-se um «calvário» de sobrevivência, onde homens e mulheres resultam mais vítimas do que autores e responsáveis das suas vicissitudes de migrante. Assim, enquanto há migrantes que alcançam uma boa posição e vivem com dignidade e adequada integração num ambiente de acolhimento, existem muitos outros que vivem em condições de marginalidade e, por vezes, de exploração e privação dos direitos humanos fundamentais, ou até assumem comportamentos danosos para a sociedade onde vivem. O caminho da integração compreende direitos e deveres, solicitude e cuidado pelos migrantes para que levem uma vida decorosa, mas supõe também a atenção dos migrantes aos valores que lhes proporciona a sociedade onde se inserem.
A este respeito, não podemos esquecer a questão da imigração ilegal, que se torna ainda mais impelente nos casos em que esta se configura como tráfico e exploração de pessoas, com maior risco para as mulheres e crianças. Tais delitos hão-de ser decididamente condenados e punidos, ao mesmo tempo que uma gestão regulamentada dos fluxos migratórios – que não se reduza ao encerramento hermético das fronteiras, ao agravamento das sanções contra os ilegais e à adopção de medidas que desencorajem novos ingressos – poderia pelo menos limitar o perigo de muitos migrantes acabarem vítimas dos referidos tráficos. Na verdade, hoje mais do que nunca são oportunas intervenções orgânicas e multilaterais para o desenvolvimento dos países de origem, medidas eficazes para erradicar o tráfico de pessoas, programas orgânicos dos fluxos de entrada legal, maior disponibilidade para considerar os casos individuais que requerem intervenções de protecção humanitária bem como de asilo político. As normativas adequadas devem estar associadas com uma paciente e constante acção de formação da mentalidade e das consciências. Em tudo isto, é importante reforçar e desenvolver as relações de bom entendimento e cooperação entre realidades eclesiais e institucionais que estão ao serviço do desenvolvimento integral da pessoa humana. Na perspectiva cristã, o compromisso social e humanitário recebe força da fidelidade ao Evangelho, com a consciência de que «aquele que segue Cristo, o homem perfeito, torna-se mais homem» (Gaudium et spes, 41).
Queridos irmãos e irmãs migrantes, oxalá esta Jornada Mundial vos ajude a renovar a confiança e a esperança no Senhor, que está sempre junto de vós! Não percais ocasião de encontrá-Lo e reconhecer o seu rosto nos gestos de bondade que recebeis ao longo da vossa peregrinação de migrantes. Alegrai-vos porque o Senhor está ao vosso lado e, com Ele, podereis superar obstáculos e dificuldades, valorizando os testemunhos de abertura e acolhimento que muitos vos oferecem. Na verdade, «a vida é como uma viagem no mar da história, com frequência enevoada e tempestuosa, uma viagem na qual perscrutamos os astros que nos indicam a rota. As verdadeiras estrelas da nossa vida são as pessoas que souberam viver com rectidão. Elas são luzes de esperança. Certamente, Jesus Cristo é a luz por antonomásia, o sol erguido sobre todas as trevas da história. Mas, para chegar até Ele, precisamos também de luzes vizinhas, de pessoas que dão luz recebida da luz d'Ele e oferecem, assim, orientação para a nossa travessia» (Enc. Spe salvi, 49).
Confio cada um de vós à Bem-aventurada Virgem Maria, sinal de consolação e segura esperança, «estrela do caminho», que nos acompanha com a sua materna presença em cada momento da vida, e, com afecto, a todos concedo a Bênção Apostólica.

Vaticano, 12 de Outubro de 2012
BENEDICTUS PP. XVI