O
ELOGIO DA AMIZADE NA CONSTRUÇÃO DO CAMINHO CRENTE
Seria, de facto,
importante organizarmos a nossa relação com Deus em termos de amizade. A
amizade pode constituir um modelo criativo para o caminho crente, mesmo que
continuemos a falar do amor. Mas entender essa relação, unicamente a partir do modelo
amoroso, provoca-nos, frequentemente, ansiedade, incapacidade e desmotivação:
como o regime dominante do amor é o do «tudo ou nada» que não conseguimos,
acabamos por ficar no nada, roídos de culpabilidade, tentando compor o retrato
com inflações de ritualismo. Idealizamos tanto a relação com Deus que
suportamos mal que ela não encaixe no que, para nós, são não só os exemplos
perfeitos, mas os únicos que nos satisfariam. Lamentamo-nos por não termos a fé
de Santa Teresa de Ávila
ou de João Paulo II; por não sermos devotos como a nossa avó materna ou não
termos a intensidade de adesão que invejamos no nosso vizinho. E isso também
serve-nos de desculpa para não fazermos a única coisa que Deus espera realmente
de nós: sermos nós próprios. Resistimos a perceber que a fé autêntica é sempre
uma fé de migalhas, como nos ensina a história da mulher cananeia (…) (Mt 15,
21-28).
É de uma vital sabedoria abraçar os nadas como
fragmentos de verdade; como laços de uma intimidade que se pode experimentar,
mas não possuir; que se pode escutar profundamente, mas sem deter. A relação a
construir com Deus é sempre na liberdade, deixando Deus ser Deus e sentindo que
Deus me deixa ser eu. Deus não me trata como uma marioneta. Que expectativas
tem Deus a meu respeito? Que espera Ele de mim? Que penso eu que Deus espera de
mim? Por vezes, naufragamos numa conceção perturbada de tudo isto e
carregamo-nos de culpas e mais culpas, num doloroso aprisionamento interior.
Antecipamos penas que Deus, rico em misericórdia (cf. Ef 2,4), não nos quer
dar. Projetamos em Deus expectativas que Ele não pode ter a nosso respeito,
porque respeita a nossa liberdade, aceita o desconhecido que há em nós, o estranho
que nos habita, o enigma que somos.»
(José Tolentino Mendonça, Nenhum caminho será longo. Para uma teologia da amizade, Paulinas)