PECADO NA IGREJA
Entrevista com
Jorge Bergoglio - Papa Francisco
O CATOLICISMO E A NOÇÃO DE CULPA
- Há
psicólogos que dizem que a Igreja joga muito bem com a culpa, e também
sacerdotes que chamam a atenção para a perda do sentido do pecado.
- Para mim o sentir-se pecador é uma das coisas
mais bonitas que pode acontecer a uma pessoa, se a levar até às suas últimas consequências.
Eu explico: Santo Agostinho, ao falar da redenção, ao ver o pecado de Adão e
Eva e ao ver a paixão e ressurreição de Jesus, comenta: Feliz pecado que nos
mereceu uma tal redenção. Cantamos isto na noite de Páscoa: «Feliz culpa, feliz
pecado.» Quando uma pessoa toma consciência que é pecador e que é salvo
por Jesus, confessa esta verdade a si mesmo e descobre a pérola escondida, o
tesouro enterrado. Descobre como é grande a vida: que há alguém que o ama
profundamente, que deu a sua vida por ele.
- Isto é,
segundo o seu raciocínio, a perda do sentido do pecado dificulta o encontro com
Deus?
- Há pessoas que se julgam justas, que de algum
modo aceitam a catequese, a fé cristã, mas não têm experiência de ter sido
salvas. Uma coisa é contarem-nos que um rapaz estava a afogar-se no rio e uma
pessoa atirou-se para o salvar, outra coisa é vermos isso e outra ainda é
sermos nós a afogar-nos e vir outro atirar-se para nos salvar. […] Costumo
dizer que a única glória que temos, como sublinha São Paulo, é sermos
pecadores.
- Afinal,
acaba por ser uma vantagem para o crente… (Risos)
- Bom, não esqueçamos que o não crente também pode
beneficiar com as suas falhas. Se um agnóstico ou um ateu for consciente da
debilidade da sua existência e souber que agiu mal, também sente dor por isso e
quer superar essa situação, engrandece-se. Portanto, essa falha serve-lhe como
trampolim para o seu crescimento. O presidente da câmara de uma grande cidade
europeia contava uma vez que ele todas as noites acabava o seu dia com um exame
de consciência […] O que estava mal servia-lhe para ser melhor.
- Esta
perspetiva, no mínimo, permite enfrentar de outra maneira o tema da
«culpa» no catolicismo.
- Certamente. Por isso, para mim o pecado não é uma
nódoa que tenho de limpar. O que devo fazer é pedir perdão e reconciliar-me,
não ir à lavandaria do japonês ali ao virar da esquina. De qualquer modo, devo
ir ao encontro de Jesus que deu a vida por mim. É uma conceção do pecado muito
diferente.
CELIBATO E DIFICULDADES DO CLERO
- A Igreja
irá ou não rever alguma vez o celibato?
- Para já, devo dizer que não gosto de fazer de
adivinho. Mas, supondo que a Igreja decidisse rever esta norma, creio que não o
faria por causa da escassez de sacerdotes. Também não penso que fosse uma norma
para todos os que quisessem abraçar o sacerdócio. Se, por hipótese, alguma vez
o fizesse, seria por uma questão cultural, como é o caso do Oriente, onde se
ordenam homens casados. […] É essa a minha convição.
- Mas essa
hipótese poderá pôr-se?
- Neste momento continuo de acordo com o que disse
Bento XVI : o celibato mantém-se, e estou convencido disso. Ora bem, como
é que a sua permanência repercute na quantidade de vocações? Não tenho a
certeza de que a sua eliminação vá provocar um aumento das vocações ao ponto de
atenuar a sua escassez. Por outro lado, ouvi dizer uma vez a um sacerdote que a
eliminação do celibato lhe permitiria não estar sozinho e ter uma mulher, mas
que com isso também estaria a comprar uma sogra… (Risos)
(Francesca Ambrogetti, Sergio Rubin, Papa Francisco. Conversas com Jorge Bergoglio, Paulinas, pp. 10-16)
