HOMILIA DA TOMADA DE POSSE




“Mostrai-nos o vosso amor dai-nos a vossa misericórdia” salm.


Cristo nascido no presépio e encarnado é a manifestação viva do amor de Deus e da sua bondade e misericórdia para connosco. Um amor que se concretiza na nossa vida de muitos modos e de forma particular na eucaristia dominical que neste momento estamos celebrar.
Neste acontecimento tão significativo da minha vida, quero Saudar o Pe. Pedro Miranda, Vigário Geral da nossa diocese, que me veio dar posse; o pe. João pedro e os colegas aqui presentes, do presbitério de Coimbra, de Lisboa, da Ordem de Santa Cruz; saúdo também as autoridades civis; as filarmónicas e grupos organizados, com destaque para as Irmandades e o Agrupamento de Escuteiros de Ferreira; o grupo de acólitos e outros que agora não consigo identificar; e saúdo, com especial afeto, as comunidades que servi nos últimos onze anos, Alvorge, Torre e Lagarteira; as comunidades de Penela de onde sou natural e cada um de vós cristãos e amigos que, vindos das mais variadas localidades, me dais o conforto da vossa amizade e oração.
Estamos no 2º domingo do Advento. Na palavra que acabámos de escutar ouvimos o profeta Isaías a alertar para a urgência de prepararmos os caminhos do Senhor. Trata-se de preparar os nossos corações para a intercomunicação amorosa com Deus. Isaías convida a «altear os vales e abater os montes».
O que significa isto na nossa vida?
Em relação a si próprio:…
Em relação aos outros: …
Em relação a Deus: …
E continua o profeta: «Endireitem-se os caminhos tortuosos e aplanem-se as veredas escarpadas».
Que caminhos serão esses?
São os caminhos das nossas vidas! Há que reparar nas nossas vidas o que foi destruído nas curvas do engano, da falsidade, da desonestidade, do vício, pelo pecado seja de que género for.
Há que tirar as pedras do caminho pedregoso. Trata-se de tirar as pedras do sapato contra os nossos irmãos. Como isso é difícil, quando paramos apensar naqueles que nos magoaram e nos fizeram sofrer. Como é difícil!!! Este é o nosso trabalho de Advento, retirar as pedras, endireitar os caminhos que nos levam até Deus, até aos irmãos e até uma vida pessoal mais sã e mais santa.
João Baptista, na transição para o Novo Testamento e no limiar do nascimento da Igreja, sabendo da fraqueza que invade cada ser humano, aponta outros remédios que nos auxiliam com a graça divina. São eles os sacramentos de Cristo, que recebemos por intermédio da Igreja: «Eu batizo-vos com água, mas Ele batizar-vos-á no Espírito Santo». Sim, Cristo instituiu os sacramentos como sinais visíveis da graça invisível de Deus. Por eles a Igreja acompanha cada um de nós no caminho da vida até à partida para o Pai, o momento da nossa morte. É dessa nova vida que fala S. Pedro na segunda leitura. E porque o senhor Deus ama cada um individualmente, Ele «usa de paciência para convosco e não quer que nenhum se perca». S. Pedro diz que o seu amor por nós é «como o do pastor que apascenta o seu rebanho, reunirá os animais dispersos; tomará os cordeiros em seus braços e conduzirá as ovelhas ao seu descanso». Que bela imagem do Amor divino!
Numa paróquia esta figura do Bom Pastor é o pároco. Ele respondendo ao chamamento de Jesus deixa tudo para responder à missão de levar Deus ao homem de cada tempo e de cada lugar.
É neste contexto que nos encontramos aqui e agora. Eu assumindo esta nova missão que hoje a Igreja diocesana me confia, estas comunidades de fiéis e vós acompanhando-me com a vossa oração e amizade. Somos a Igreja reunida!
O pároco é ontologicamente, pelo sacramento da ordem, a presença de Cristo no meio dos fiéis.
Quem não se lembra dos seus párocos, mesmo que alguns já tenham passado à muitos anos?
Disse Bento XVI, por ocasião do ano sacerdotal, «Eu mesmo guardo ainda no coração a recordação do primeiro pároco, junto de quem exerci o meu ministério de jovem sacerdote: deixou-me um exemplo de uma dedicação sem reservas no próprio serviço sacerdotal, e morreu quando ia levar a santa unção a um doente grave».
Eu também recordo os meus párocos: o que me batizou e de quem recebi a palavra de Deus, os sacramentos e a instrução moral e religiosa na escola, o pe José Paiva, que também foi pároco da paróquia de Areis e outras vizinhas; os padres que me conduziram durante o tempo de seminário e até ao sacerdócio; os formadores de Seminário; e os que ao longo destes anos tem passado pelas paróquias de penela.
Quero, neste momento, prestar a mais sentida homenagem aos párocos que me antecederam nestas paróquias (Manuel Pinto, Olívio, Artur, Mário, Claro) e sobre tudo o  pe. João Silva com quem tenho o privilégio e alegria de formar equipa pastoral nestas paróquias. Recordo, na minha memória, o dia em que o recebi, com apenas 12 anos, o João Pedro e o seu irmão que chegaram ao pré Seminário pelas mãos de um velho sacerdote e artista, Monsenhor Nunes Pereira. Daí viver com grande emoção e alegria este acontecimento ao iniciar, hoje, esta missão de pároco in solidum. Presto ainda sentida homenagem a todos os que antes de mim paroquiaram ao longo de séculos estas comunidades, proponho-me continuar a obra que eles edificaram na fé.
Disse o patrono dos sacerdotes, o Stº Cura d’Ars: «Um pastor, segundo o coração de Deus, é o maior tesouro que o Bom Deus pode conceder a uma paróquia e um dos dons mais preciosos da misericórdia divina».
E continua: «oh como é grande o padre! (…) Quem colocou ali no sacrário Jesus? O Padre; quem vos acolheu na Igreja pelo baptismo? O padre; quem vos proporciona os outros sacramentos ao longo da vossa vida? O padre; quem vos acompanha nos momentos mais tristes sendo confidente e acompanhando-vos no luto e na hora da partida dos vossos familiares? O padre. É o padre que continua a obra da redenção sobre a terra (…) é o padre que, pelo sacramento da ordem, possui as chaves dos tesouros celestes; é ele que abre a porta para os novos céus e para a nova terra de que nos fala hoje S. Pedro na segunda leitura.
Sendo assim, nós padres temos que tomar consciência desta responsabilidade, da qual o Senhor um dia nos pedirá contas! E, vós cristãos deveis rezar muito pelos vossos párocos para que eles sejam dóceis aos apelos do Espírito Santo e fiéis à sua missão. Permiti que vos peça, cristãos da Unidade Pastoral de Ferreira do Zêzere, estimai os vossos párocos e tende paciência quando por fraqueza ou debilidade não correspondermos às vossas espectativas. A partir de agora vós, a seguir aos meus familiares de sangue, sereis a minha família mais chegada, procurarei ser vosso amigo e familiar. Quero ser para vós um dom de Deus e, para isso, contamos com a vossa ajuda, compreensão e oração, para sermos pastores segundo o coração de Jesus, que cuidamos das noventa e nove ovelhas do rebanho, sem deixar de procurar a ovelha perdida e trazê-la carinhosamente aos ombros para o redil.

Ferreira do Zêzere, 7 de Novembro de 2014
Pe. Pedro Manuel Luís